Conheça a história da chef Alessandra Montagne: nascida no Vidigal, a carioca comandará em breve um dos restaurantes do Museu do Louvre

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Sabe aquelas histórias que parecem ter saído de um filme? A da chef Alessandra Montagne, de 46 anos, poderia inspirar superproduções. Nascida no Vidigal, bairro do Rio de Janeiro, ela foi abandonada pela mãe com apenas oito dias de vida e criada pelos avós em Poté, interior de Minas Gerais. Aos 16 anos, engravidou do primeiro namorado, nove anos mais velho. Para sustentar o filho, passou a vender coxinhas na porta de escolas. Dentro de casa, sofria violência doméstica. Foram quatro anos de pesadelo até conseguir fugir.

Corta para 2024. Alessandra, mãe de André, de 29 anos, e Thais, 18, fruto de seu segundo casamento, mora em Paris, é dona de dois restaurantes, apresenta o programa Le Goût des Rencontres (O sabor dos encontros culinários, em tradução livre), no canal France 3, e acaba de ser escolhida para fazer parte do grupo que comandará os restaurantes do emblemático Museu do Louvre. É a primeira mulher brasileira a gerenciar um projeto no lugar. “A ficha ainda não caiu. Não esperava algo assim na vida. No dia que recebi a notícia, fiquei sem reação”, lembra ela em bate-papo com a Glamour.

O convite para integrar a equipe partiu do chef francês Alain Ducasse, ícone da gastronomia mundial e um dos poucos a acumular 21 estrelas do Guia Michelin. O cozinheiro é uma espécie de mentor para Alessandra. “Alain falou que estava pensando em mim para um projeto. Eu topei na hora e ouvi dele: ‘É uma honra ter você.’ Ei, calma aí…É o Alain Ducasse”, disse, às risadas.

Sem entregar detalhes do menu, Alessandra conta que não vai deixar de fora o tempero brazuca. “Vai ter uma inspiraçãozinha, né? Quero que as pessoas comam bem, alimentem a alma e o corpo”, diz. Até o restaurante ser inaugurado (a previsão é para depois das Olimpíadas de 2024), a chef se dedica 100% ao Tempero e o Nossa. O primeiro é um bistrô que abriu em 2012, e o segundo, como ela mesma define, “é uma mistura fina de Brasil e França”. Foi no Nossa, por meio do menu-degustação, que Alessandra começou a resgatar seu passado. “Fui incentivada a incluir minha primeira receita: coxinha. Ao ver todos comendo o salgado, eu só chorava, porque ele me deu asas, me lembrou muita coisa”, se emociona. “Passei da adolescência à vida adulta em modo de sobrevivência, sabe quando você está ali e só quer guardar a cabeça para não se afogar?”

Infância na roça

Até os 11 anos, a chef viveu apenas na companhia dos avós maternos. “Minha mãe me abandonou porque ela era empregada doméstica e a patroa não permitia crianças. Disse que voltaria para me buscar, mas desapareceu”, lembra. Num belo dia, ela conta que a mãe bateu à porta da sua casa. “Fiquei com muita vergonha. Ela havia chegado da França, toda linda, e eu estava com o cabelo cortado por causa de piolho e cheia de poeira. Naquele segundo, entendi onde estava, quem eu era e qual era a minha condição financeira.”

Casada com um suíço, a mãe de Alessandra morava na Europa e decidiu retornar ao Brasil para buscar a filha. Antes disso, colocou a menina num internato em São Paulo a fim de educá-la. “Na escola, só tinha criança branca e rica e chega eu, da roça, pretinha… O pessoal olhava e falava: ‘Você é muito feia, olha seu cabelo.’ Sofri muito”, relata.

Sobrevivente

De volta a Poté, engravidou aos 16 anos, na primeira relação sexual, e foi obrigada a se casar. “O rapazinho era abusivo, violento… Durante quatro anos, todos os dias, eu fui agredida. E como denunciar qualquer coisa numa cidade pequena? Tinha muita vergonha. Como falar à polícia que meu marido me batia e me estuprava? Era como se fosse algo normal”, lembra, sem segurar as lágrimas.

Alessandra conseguiu fugir para a casa de uma tia. Ligou para a mãe e pediu que ela e o padrasto a ajudassem. “Eles compraram uma passagem e me inscreveram num curso de francês… Deixei meu filho com a minha tia e, ao chegar à França, entendi que a partir daquele minuto eu faria tudo que estivesse ao meu alcance para trazer o André, meu filho. Vivi por muito tempo nesse modo de sobrevivência”, diz.

Já com a criança em seus braços – depois de incansáveis lutas na justiça –, Alessandra se fechou para o Brasil. Cortou laços com a família e ficou sem retornar ao seu país por 16 anos. “Entendi que os adultos à minha volta não me protegeram. Foi um momento de muita raiva e rancor. O arrependimento veio depois, porque meu avô morreu, eu não o vi. Minha avó morreu, eu não a vi”, lamenta.

Só após a morte da mãe por um câncer há dois anos que Alessandra decidiu fazer as pazes com o passado. “Escrevi um livro (De Rio à Paris, ma cuisine de cœur), contei minha história, refiz meu passaporte brasileiro vencido há 15 anos, renovei o CPF e reencontrei amigos. De um ano para cá, é que estou existindo no Brasil. Porque eu era invisível, fazia parte do grupo dessas mulheres que apanham, que têm filhos novas, são negras, não têm oportunidade, não são reconhecidas…”

Foi na França que Alessandra começou a ganhar autoconfiança e, encorajada por amigas, se inscreveu num curso de culinária e confeitaria. Não demorou para reconstruir sua vida. “A gastronomia me salvou. Tenho impressão de ter renascido graças ao meu trabalho. Me deu muita força”, afirma ela, que cozinha desde os 9 anos. Se ainda falta alguma coisa? “Não tenho nada para pedir para Deus. Se chegar uma estrela Michelin é maravilhoso, mas não tenho coragem de pedir mais nada. Ele já me deu muita coisa.”

Fonte: Glamour/Foto: Anne Claire Heraud

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