Pescadores no Amazonas resistem ao PIX e preferem ‘dinheiro vivo’

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Praticamente unânime nos pagamentos instantâneos, o PIX ainda não conquistou pescadores do Amazonas. Dificuldades de acesso à internet e falta de agências bancárias em áreas remotas da Amazônia são as causas principais da ausência do sistema online de transações comerciais. Os pescadores preferem o pagamento de forma milenar: em espécie ou popularmente conhecido como “dinheiro vivo”.

A preferência pelo dinheiro de papel cria uma situação delicada. Os compradores, donos de frigoríficos que vendem pescado em larga escala, arriscam-se sacando grandes quantias em dinheiro, algumas vezes o valor chega a R$ 2 milhões, para adquirir o peixe. Os valores são transportados de barco até as comunidades para garantir a operação comercial.

Essa logística é alvo de piratas dos rios, assaltantes que agem com violência e ficam à espreita das movimentações de embarcações. Os empresários tentaram eliminar o risco por meio de transações bancárias, mas a falta de estrutura das agências no interior, que não operam com grandes quantias, e a incapacidade dos pescadores de dominar a tecnologia do PIX, impedem a migração do sistema de pagamento tradicional para o eletrônico.

Só dinheiro vivo

O pescador Marcelo Costa, que sobrevive da pesca anual na zona rural de Beruri (a 173 quilômetros de Manaus), afirma que os colegas de profissão preferem receber em espécie em razão da dificuldade de acesso a banco na região e manuseio com smartphones.

Cerca de 94 pescadores na Comunidade Cuianã pescaram 124 toneladas de pirarucu em 2025, o que gerou um retorno financeiro de aproximadamente R$ 868 mil. “A gente sempre trabalhou com dinheiro em espécie. Aqui tem um ‘expresso (posto bancário em Beruri)’, mas o limite (de saque) é baixo. Ele não tem um dinheiro alto desse que a gente movimenta no manejo, ele não resolve essas coisas”, diz.

“A maioria aqui tem um grau de escolaridade baixo, alguns são analfabetos. Muitos não sabem mexer com celular, com PIX, essas coisas. Então, a preferência para a gente aqui é mais o dinheiro. O dinheiro em espécie ele é trazido pelo comprador até nossa comunidade, não é uma responsabilidade nossa de pegar até o ponto de venda”, explicou o ribeirinho.

O ex-pescador Sebastião Amorim, 71 anos, da Comunidade Itapuru, em Beruri, tem um pequeno comércio. Ele prefere receber em dinheiro pelos artigos que vende na taberna. A cada 100 vendas, 60% são pagas em “dinheiro vivo”.

“Eu fico muito nervoso para trabalhar com PIX porque não tenho prática de usar. É ruim quando a gente não tem prática, é difícil para gente, né? A minha dificuldade é o quê? É que a minha escolaridade é pouca. Não tenho muita prática de lidar com a internet no celular, aí fica difícil. Por isso, peço que as pessoas paguem com dinheiro em espécie”, diz o comerciante, ressaltando que uma vez por mês tem de navegar por mais de dez horas para sacar dinheiro em uma agência bancária de Manacapuru.

Outro que prefere receber em espécie é o pescador Manoel Francisco Pacheco Filho, também da Comunidade Cuianã. Ele tem 53 anos e mais de 30 anos dedicados a pesca. Analfabeto, não tem celular e desconfia das novas tecnologias.

“Muitos de nós não sabe ler nem escrever. O dinheiro na mão é seguro, é a certeza de que está tudo certo, tudo firmado. Aqui no nosso município não tem dinheiro e não dá para ir buscar o dinheiro lá em Manacapuru, é muito longe. Seriam mais de seis horas de viagem num barco pequeno. Por isso, é melhor quando o comprador traz o dinheiro aqui”, disse Manoel.

Sem acesso à tecnologia

Para evitar os riscos de roubo, sequestros e até assassinatos, as comunidades estudam abrir contas bancárias para todos os pescadores e ensiná-los a manusear celulares para movimentar o dinheiro recebido com a venda do peixe.

Além de ser um longo processo de conscientização, a mudança esbarra na falta de energia por períodos prolongados nas comunidades e de queda constante no sinal da internet, o que dificultam as transações comerciais.

Fonte: Amazonas Atual/Foto: Divulgação/Sepror

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