Empossado nesta sexta-feira (22/5) como novo presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos), Kevin Warsh chegou ao comando da autoridade monetária após ser indicado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, em janeiro deste ano.
Warsh assume o cargo no lugar de Jerome Powell – desafeto de Trump e alvo de duras críticas do republicano.
O mandato de Powell terminou no último dia 15, mas ele permaneceu interinamente no cargo até que fosse marcada a cerimônia de posse de seu sucessor. Warsh foi indicado por Trump e aprovado pelo Senado dos EUA para exercer um mandato de quatro anos à frente do Fed.
No dia 13 de maio, o Senado dos EUA confirmou o nome de Warsh para a presidência do BC do país, com 54 votos favoráveis e 45 contrários. O indicado por Trump já havia sido sabatinado pela Casa e aprovado pelo Comitê Bancário do Senado.
Além dos quatro anos como presidente do Fed, Kevin Warsh cumprirá um mandato simultâneo de 14 anos como membro da diretoria da autoridade monetária. Apesar de deixar a presidência do BC dos EUA, Jerome Powell já manifestou sua intenção de continuar exercendo o cargo de diretor do Fed.
Sabatinado no Senado
Durante a sabatina no Senado, o indicado pelo presidente dos EUA ao Fed responsabilizou a gestão do atual chefe do BC norte-americano, Jerome Powell, pela escalada da inflação no país após a pandemia de Covid-19, a partir de 2020. Para Warsh, a alta nos preços continua sendo “um grande problema” para a população.
“Embora seja verdade que a inflação esteja menos problemática neste momento, no sentido de que o ritmo de aumento dos preços é menos severo do que era havia alguns anos, os americanos trabalhadores ainda a sentem”, disse o futuro presidente do Fed durante audiência no Comitê Bancário do Senado.
“Isso significa que é necessária uma mudança de regime na condução da política monetária pelo Fed. Precisamos de um novo e diferente arcabouço para combater a inflação”, completou Warsh, sem fornecer maiores detalhes.
Na sabatina, o indicado por Trump à presidência do Federal Reserve garantiu que adotará uma postura de independência em relação ao mandatário da Casa Branca.
Desde o início de seu segundo mandato como presidente dos EUA, em janeiro de 2025, Trump elegeu o chefe do Fed, Jerome Powell, como um de seus maiores alvos. O republicano faz críticas frequentes ao BC norte-americano e cobra publicamente o corte dos juros. O mandato de Powell termina em maio.
“Presidentes (dos EUA) tendem a ser favoráveis à queda dos juros. Acho que a diferença é que o presidente Trump expressa isso de forma bastante clara”, afirmou Warsh.
Em seguida, o indicado ao comando do BC dos EUA assegurou que será independente à frente da autoridade monetária. “A independência cabe ao Fed. A liderança do Fed precisa decidir o que é a coisa certa a fazer”, disse.
Questionado pelo senador John Neely Kennedy, do estado da Louisiana, se seria um mero “fantoche” de Trump no Fed, Warsh foi enfático: “Absolutamente não. Atuarei de forma independente à frente do Federal Reserve”.
O indicado à presidência do Fed afirmou ainda que Trump jamais lhe pediu que assumisse qualquer compromisso em relação à eventual queda dos juros.
Warsh cresceu na reta final e desbancou favorito
Além de Warsh, outros três nomes haviam sido apontados pelo próprio Trump como candidatos à sucessão de Powell: o chefe do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett; o atual diretor do Fed Christopher Waller; e do diretor de investimentos em renda fixa da gestora de ativos BlackRock, Rick Rieder.
Até pouco tempo atrás, o favorito era Kevin Hassett, mas ele foi desbancado por Warsh nas bolsas de apostas.
Hassett perdeu força após uma declaração de Trump, durante um evento na Casa Branca, dizendo que o ideal seria que o seu conselheiro econômico permanecesse no cargo atual.
“Raposa” do mercado financeiro
O perfil de Kevin Warsh é considerado o de alguém muito próximo do sistema financeiro, que conhece os bastidores de Wall Street como poucos – uma verdadeira “raposa” do mercado. Nos últimos anos, Warsh chamou atenção de Trump por vocalizar muitas das críticas ao sistema financeiro norte-americano feitas pelo próprio presidente dos EUA.
Kevin Warsh foi indicado para o Fed há 20 anos, em 2006, pelo então presidente dos EUA George W. Bush. Antes de chegar à diretoria da autoridade monetária, ele foi assistente especial de Bush para política econômica e secretário-executivo do Conselho Econômico Nacional.
Warsh fez parte do Conselho de Governadores do Fed, de 2006 a 2011, e acompanhou de perto a crise financeira de 2008 e o colapso de grandes bancos como o Lehman Brothers. O futuro presidente do Fed teve atuação importante nas negociações entre o Tesouro, o BC dos EUA e instituições financeiras. Até mesmo seus críticos reconhecem que Warsh tem excelente trânsito em Washington e Wall Street.
Críticas ao Fed
Nos últimos anos, a postura e a retórica de Kevin Warsh mudaram e ele passou a adotar um tom mais duro e crítico ao Federal Reserve. Em diversas entrevistas e pronunciamentos, o ex-diretor da autoridade monetária defendeu uma “mudança de regime” no Fed, com revisões sobre os instrumentos que levam o BC dos EUA a tomar suas decisões sobre a taxa de juros.
Em linhas gerais, Warsh está alinhado a Trump na defesa de uma política monetária menos contracionista, com a intensificação do corte de juros – o que agrada, em cheio, a Casa Branca. Por outro lado, o indicado por Trump também critica a expansão do balanço do Fed.
Em outubro do ano passado, em entrevista à Fox Business, Warsh foi enfático ao defender a redução da taxa de juros pelo Fed.
“Juros mais baixos, combinados com o tipo de revolução tecnológica que as políticas do presidente permitiram, com o enorme volume de investimentos que está acontecendo na economia doméstica e vindo do exterior, são a semente da nossa revolução de produtividade”, afirmou.
Trajetória acadêmica e profissional
Nascido em Albany, no estado de Nova York, Kevin Warsh tem 55 anos e é formado em Políticas Públicas pela Universidade de Stanford, uma das mais prestigiadas do mundo, com ênfase em economia e estatística.
Warsh também cursou Direito na Universidade de Harvard e se especializou na conexão entre direito, economia e regulação. Ele também fez pesquisas complementares sobre economia de mercado e mercado de capitais na Harvard Business School e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
A trajetória profissional de Warsh teve início do Morgan Stanley, um dos maiores bancos dos EUA, pelo qual atuou por 7 anos no departamento de fusões e aquisições.
Ao deixar o Fed, em 2011, Warsh dividiu sua atuação entre a vida acadêmica e o mercado financeiro. Ele é pesquisador visitante em economia no Instituto Hoover, da Universidade de Stanford, e professor na Escola de Negócios da mesma instituição. Também atua como sócio-consultor da gestora Duquesne Family Office.
Kevin Warsh também compõe conselhos de administração de empresas como a United Parcel Service (UPS) e a Coupang. Ele ainda participa de fóruns de discussão econômica, entre os quais o Grupo dos Trinta e o painel de consultores econômicos do Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA.
Juros nos EUA
Na última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed, no fim de abril, o BC dos EUA decidiu manter os juros inalterados no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano. Nas duas reuniões anteriores do Fed, em janeiro e março, os juros também haviam sido mantidos nessa faixa.
A taxa básica de juros é o principal instrumento dos bancos centrais para controlar a inflação. Quando a autoridade monetária mantém os juros elevados, o objetivo é conter a demanda aquecida, o que se reflete nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança. Assim, taxas mais altas também podem conter a atividade econômica.
A decisão do BC dos EUA passou longe da unanimidade. Foram oito votos a favor da manutenção do patamar atual dos juros (Jerome Powell, John Williams, Michael Barr, Michelle Bowman, Lisa Cook, Philip Jefferson, Anna Paulson e Christopher Waller) e quatro contrários (Stephen Miran, Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan).
Desde a posse de Trump, em janeiro do ano passado, o Fed promoveu três cortes na taxa de juros. Nas três últimas reuniões, em janeiro, março e agora em abril, houve manutenção.
Antes de Trump assumir a Casa Branca, o Fed tinha levado a cabo um ciclo de três quedas consecutivas dos juros nos EUA, que começou em setembro de 2024.
O próximo encontro da autoridade monetária para definir a taxa de juros está marcado para os dias 16 e 17 de junho.
Composição do Fed
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed é composto por 12 membros: os sete integrantes do Conselho de Governadores do Sistema do Federal Reserve, o presidente do Federal Reserve de Nova York e quatro dos onze presidentes restantes do Federal Reserve, que cumprem mandatos de um ano em regime de rodízio.
A diretoria do Federal Reserve é composta por sete integrantes que cumprem mandatos de 4 a 14 anos – todos são indicados pela Presidência dos EUA. A indicação para o cargo de presidente do Fed é definida pela Casa Branca e confirmada por uma votação no Senado norte-americano a cada 4 anos.
Em 2022, Jerome Powell foi indicado pelo então presidente dos EUA, Joe Biden, para um segundo mandato à frente do Fed.
Fonte: Metrópoles/Foto: Divulgação/Hoover Institution




