Marrocos: entenda o estopim para multidão de migrantes invadir Ceuta, na Espanha

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Ao menos 60.000 pessoas já atravessaram a fronteira entre Marrocos e Ceuta, território espanhol localizado no norte da África, em uma das maiores ondas migratórias recentes na região.

A chegada em massa, que teve início nesta semana e já deixou pelo menos 34 mortos, ocorre pelo mar, provocando uma crise humanitária e de segurança. Em resposta, a Espanha, que administra o território, mobilizou forças militares para auxiliar no controle da fronteira.

Mas, mesmo com o reforço da segurança na região, grupos de migrantes seguem tentando fazer a travessia. Em resposta, vídeos que circulam nas redes sociais mostram pessoas sendo atingidas com gás lacrimogêneo pelas forças marroquinas, enquanto outros continuavam a nadar em direção ao território espanhol.

A situação levou o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, a fazer um alerta sobre a dimensão da crise. “A situação que Ceuta está atravessando é absolutamente insustentável”, afirmou, em fala citada pela Associated Press.

Já o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, visitou o território autônomo nesta sexta-feira (31) e condenou a entrada em massa, a descrevendo como “uma violação da integridade territorial da Espanha”. Segundo Madrid, cerca de 37,5 mil migrantes já retornaram.

Mas, afinal, por que Ceuta se tornou uma rota de migração?

Localizado na costa norte da África, a cidade pertence à Espanha desde 1580. Com cerca de 20 km², ela é separada do território espanhol continental pelo Estreito de Gibraltar. Junto com Melilla, outro território de Madrid localizado no norte africano, ela é única fronteira terrestre da União Europeia com o continente africano.

A localização faz de Ceuta uma rota estratégica para migrantes que desejam chegar à Europa. Em alguns pontos, a distância entre o território e o Marrocos, que reivindica a soberania sobre a região, é de apenas alguns quilômetros.

O percurso, porém, é perigoso. Muitos não possuem equipamentos adequados para nadar e precisam enfrentar o cansaço e as condições do mar. Segundo autoridades locais, parte das mortes ocorreu por afogamento.

A proximidade com a Europa, no entanto, não é o único motivo que leva marroquinos a tentar chegar a Ceuta. A situação econômica também pesa, principalmente entre os jovens.

Segundo dados oficiais do governo marroquino, a taxa de desemprego no país caiu de 13,3% em 2024 para 13% em 2025. Entre os jovens de 15 a 24 anos, porém, houve aumento: o índice passou de 36,7% para 37,2%. Entre as mulheres, o desemprego subiu de 19,4% para 20,5%.

Um dos migrantes entrevistados pela Associated Press, um marroquino de 33 anos identificado como Ahmed Karim, afirmou que decidiu ir para Ceuta por causa da falta de oportunidades de trabalho.

A Espanha, por outro lado, oferece um mercado de trabalho atrativo, além de possuir uma grande população de imigrantes. Cerca de 10 milhões de pessoas que vivem no país nasceram no exterior, segundo dados citados pela agência.

Como parte disso, a expectativa de conseguir entrar e permanecer na Espanha pode ter aumentado após uma decisão recente do Supremo Tribunal espanhol. A Justiça determinou que migrantes que chegam a Ceuta pelo mar não podem ser devolvidos imediatamente ao Marrocos. Nesses casos, as autoridades precisam primeiro seguir os procedimentos previstos na legislação e analisar a situação de cada pessoa.

A decisão, no entanto, não autorizou a entrada irregular na Espanha nem significa que os migrantes que chegam a nado poderão permanecer no país. Segundo autoridades espanholas, informações que circulam nas redes sociais no Marrocos podem ter levado algumas pessoas a acreditar que a travessia marítima aumentaria suas chances de permanência.

O governo espanhol também atribuiu parte do aumento à atuação de redes de tráfico de migrantes, que poderiam ter explorado a decisão judicial para convencer pessoas a tentar a travessia.

Fronteira marcada por crises

A chegada de migrantes a Ceuta não é inédita. Em maio de 2021, cerca de 8 mil pessoas entraram na cidade em apenas dois dias, depois que o Marrocos flexibilizou os controles na fronteira. Na ocasião, a entrada em massa ocorreu em meio a uma grave crise diplomática entre os governos espanhol e marroquino relacionada ao Saara Ocidental.

Na época, a Espanha permitiu que Brahim Ghali, líder da Frente Polisário — movimento que defende a independência do Saara Ocidental — entrasse no país para receber tratamento médico contra a Covid-19.

A decisão irritou o governo do Marrocos, que se opõe ao grupo. Em meio à crise, Rabat relaxou o controle da fronteira com Ceuta, permitindo a entrada de mais de 10.000 pessoas na cidade.

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