Desde que o ChatGPT foi lançado, em novembro de 2022, a inteligência artificial deixou de ser assunto exclusivo da comunidade científica e rapidamente chegou ao debate público. A arquitetura que propiciou esse salto vinha sendo desenvolvida desde 2017, mas a explosão dos chats generativos transformou a IA em tema do cotidiano capaz de inspirar opiniões opostas, que variam entre fascínio, oportunismo e pânico moral. Enquanto a conversa pública ainda gira em torno de textos automáticos e imagens virais, especialistas olham para outro ponto: a velocidade de aprimoramento desses sistemas em pouco tempo.
O que hoje parece impressionante aos olhos leigos, para os cientistas ainda é um estágio embrionário. Na avaliação de Alexandre Chiavegatto Filho, professor de inteligência artificial na Universidade de São Paulo (USP), o problema mais comum do debate público é a falta de perspectiva. Os avanços na área são tão imprevisíveis que o especialista não se arrisca a fazer previsões concretas para o médio prazo. Segundo ele, é impossível prever como será a IA daqui a cinco anos.
— Vivemos um momento de crescimento exponencial da tecnologia — diz ele, especializado em IA no campo da saúde. — Um erro muito comum é as pessoas avaliarem o potencial da inteligência artificial a partir do que ela faz hoje. Ainda estamos na pré-história desses algoritmos.
Boa parte da experiência cotidiana com IA ainda passa por ferramentas que resumem, condensam e reapresentam conhecimento já existente, explica o professor. Isso não é pouco, mas está longe de ser tudo. O salto desejado é criar, de fato, conhecimento novo.
Os efeitos mais profundos da tecnologia podem aparecer no apoio à decisão clínica, na organização de sistemas complexos, na redução de carga administrativa e, adiante, na aceleração de pesquisa aplicada. É nesse ponto que Chiavegatto Filho projeta um salto. Para ele, a transição decisiva virá quando a inteligência artificial deixar de apenas organizar informação e passar a produzir descobertas inéditas.
— Minha previsão é que, ao longo deste ano ou do próximo, um algoritmo chegue ao ponto de descoberta científica de fato.
‘Fronteira irregular’
A inteligência artificial avança de forma desigual. Em algumas frentes, sobretudo matemática, raciocínio e resolução de problemas técnicos, os sistemas mais recentes deram saltos rápidos. O mesmo ciclo de avanço, no entanto, convive com limites em outras tarefas.
— Eles têm a chamada fronteira irregular — diz Chiavegatto. — Ao mesmo tempo em que eles são sobre-humanos em algumas áreas, falham muito em outras. Por exemplo, os algoritmos são excelentes matemáticos. Mas ainda não têm nível literário para escrever um grande romance de ficção, do início ao fim, com complexidade de personagens.
No campo geopolítico, a disputa pela inteligência artificial já tem líderes nítidos. Os Estados Unidos seguem na frente em investimento privado e produção de modelos de ponta, enquanto a China encurtou de forma relevante a distância em desempenho técnico, ultrapassando a concorrência em muitos aspectos. Europa e Índia aparecem mais atrás, mas dentro do jogo, seja por regulação, infraestrutura ou escala de mercado.
Recentemente, entidades como a Unesco vêm chamando atenção para a concentração de chips, processadores, data centers e outros recursos essenciais em poucos atores, o que amplia a dependência tecnológica e estreita a margem de crescimento para países periféricos. Os usos mais sensíveis da IA, de ciberataques a aplicações militares e sistemas autônomos, também preocupam organizações internacionais. A assimetria de poder e diferente velocidade de adoção deve agravar ainda mais a desigualdade.
Chiavegatto Filho afirma ainda que o inevitável avanço da IA para uma superinteligência pode representar uma ameaça existencial à Humanidade. Para ele, seu uso em assuntos estratégicos, militares ou não, deverá ser regulado no futuro com tratados de não-proliferação traçados à semelhança dos documentos atômicos. Ele prega que, por isso, não se deve ignorar a tecnologia, mas ampliar o número de pessoas capazes de delegar seus rumos.
— A inteligência artificial vai chegar de qualquer jeito. Quando ignora ou menospreza a IA, você se retira do debate. E aí a gente perde justamente alguém que poderia ajudar muito a pensar a área de forma ética. Todos precisamos ajudar a direcionar a IA de acordo com os melhores padrões éticos e morais.
Fonte: O Globo/Foto: Bloomberg
