Nem rankings, nem títulos, nem patrocínios: a frase que Bia Haddad escolheu para se apresentar nas redes sociais – “Neta da Miminha, da Teresa, do Ramez e do Ayrton” – fala de origem e afeto. “O que nos define não é a profissão ou os torneios que ganhamos. É, acima de tudo, o cuidado com quem amamos”, diz a tenista, que herdou dos avós o amor pelo esporte. Partindo dessa filosofia, ela vem traçando uma das trajetórias mais notáveis do tênis nacional contemporâneo: em 2023, tornou-se a primeira brasileira a figurar no top 10 do ranking mundial de simples da WTA (Women’s Tennis Association) e a chegar à semifinal de Roland Garros, e traz ainda na bagagem vitórias importantes como os torneios de Nottingham e Birmingham (2022), o WTA Elite Trophy Zhuhai (2023) e o Aberto da Coreia (2024).
Agora, prepara-se para o SP Open, que acontece em setembro em sua cidade natal e marca o retorno de um campeonato feminino de elite ao Brasil. “Essa competição não diz respeito apenas à minha carreira individual, mas a abrir portas e deixar um legado para meninas que nunca tiveram contato com jogadoras do ranking mundial. Isso é o mais especial, além de saber que as pessoas que amo estarão perto de mim. Vou tentar fazer com que essa semana seja o mais longa possível”, brinca.
Em um circuito que exige disciplina quase monástica, ela carrega para dentro da quadra não só preparo físico, mental e estratégico com seu 1,84 metro de altura e canhoto afiado, mas a confiança de quem honra a pele que habita: “Tenho características de uma jogadora agressiva e consigo me adaptar a todas as superfícies e me movimentar bem. Estou satisfeita com meu corpo. Me sinto forte”. Essa força se revela também nos tropeços – Bia já enfrentou lesões, suspensão por doping e os efeitos de uma pandemia que paralisou o circuito. “Essas pedrinhas no caminho servem como inspiração. Nunca duvidei que fosse dar certo. Sou otimista e saio mais forte das adversidades. Essa é uma das minhas qualidades também no jogo.”
A atleta se mostra igualmente atenta aos problemas estruturais que marcam o esporte feminino. Embora os Grand Slams ofereçam premiações iguais para homens e mulheres, outros torneios ainda estão longe da paridade. “Vejo melhorias, mas não podemos nos satisfazer. É um processo, uma luta de construção de sociedade.” Ela celebra ainda as recentes medidas de incentivo às mulheres que, como ela, têm o sonho de ser mãe. Enquanto a decisão da paternidade não interfere na carreira dos homens, a gestação e a amamentação impactam diretamente a trajetória profissional das atletas. “Ter medidas como licença-maternidade e apoio ao congelamento de óvulos – que envolve hormônios e todo um cuidado com o sistema antidoping – é importante. Temos sonhos profissionais, mas também pessoais.”
Fora do esporte, as práticas que trazem realização e a ancoram no presente giram em torno de literatura, arte e música. “Apesar de não parecer, sou ansiosa e me desconcentro com facilidade. A leitura me traz para o presente e me ajuda a abrir a cabeça. Também gosto de pintar e tocar violão”, diz ela, que é também apreciadora das práticas de meditação. “A respiração é uma forma de nos conectarmos com nós mesmos.” Há conexões, porém, que são postas à prova por um calendário que raramente dá trégua. “Não passo duas semanas seguidas em casa e isso torna complexo construir vínculos amorosos. É difícil. Mas é uma escolha, né? Enfim… estou solteira e aproveito esse lado.”
A rotina nômade também acaba por definir seu estilo: “Estou praticamente toda semana no avião, então uso roupas confortáveis e neutras”. A moda, para Bia, tem menos a ver com tendência e mais com funcionalidade – ainda que, quando necessário, saiba exatamente como sustentar o brilho de um ensaio fotográfico. É o caso das imagens que acompanham este perfil, em que veste joias da Tiffany & Co., da qual é a primeira atleta brasileira embaixadora.
“A Tiffany me traz força. Ela tem um papel fundamental na minha vida, acompanhando minha história dentro e fora das quadras.” A visibilidade alcança máxima potência quando usada para abrir caminhos. “O espaço que alcancei no Brasil com certeza abrirá portas para meninas de outras gerações e trará cada vez mais ter torneios, apoio e patrocínio. Sabemos quão caro e difícil é formar atletas. Nos dias duros, tento sempre lembrar que não é só sobre meu sonho, é também sobre inspirar e deixar um legado.” Seu grande objetivo continua sendo vencer um Grand Slam – “especialmente Wimbledon”. Mas o horizonte é mais largo que a histórica grama londrina.
“O sonho maior é que eu consiga usar o tênis como um instrumento para gerar oportunidade. Se eu puder ajudar 1% na vida de alguém, já estarei muito feliz”, diz com a serenidade de quem entende que não basta vencer – é preciso transformar a vitória em algo que permaneça e reverbere. E, nisso, Bia já está entre as maiores.
Fonte: Revista Marie Claire/Foto: Hudson Rennan
