A Heineken nomeou o brasileiro Rafael Oliveira como seu novo CEO global, em um movimento inédito na empresa. A cervejaria holandesa, uma das maiores do mundo, enfrenta uma queda na demanda e tenta dar uma guinada na gestão. É a primeira vez, em seus 87 anos como empresa de capital aberto, com ações negociadas em Bolsa, que a Heineken recruta para CEO um executivo de fora dos quadros da companhia.
Oliveira, de 51 anos, era CEO da JDE Peet’s, empresa de café e chá que é dona do Brasil das marcas Pilão e L’Or, e vai assumir a liderança da Heineken em 1º de outubro. Ele ficará no cargo por um período limitado de quatro anos, informou em comunicado o Conselho de Administração da Heineken.
Após o anúncio, as ações da Heineken chegaram a subir até 3,4% na Bolsa de Amsterdã, mas fecharam com alta de 2,20%.
A Heineken é controlada pela família De Carvalho-Heineken, que detém a participação majoritária da empresa e ocupa cinco dos oito assentos no conselho da holding. Oliveira será o segundo não-holandês a comandar a empresa em sua História.
O executivo brasileiro ficou menos de dois anos no cargo de CEO da holandesa JDE Peet’s, empresa que foi comprada pela gigante americana Keurig Dr Pepper em agosto de 2025.
“Tenho a honra e a satisfação de ingressar na Heineken, uma das empresas e portfólios de marcas mais icônicos do mundo. Como admirador de longa data da história e do impacto global da Heineken, estou entusiasmado com a oportunidade de liderar esta grande companhia em seu próximo capítulo”, disse Oliveira, em nota.
Segundo o novo CEO, a estratégia da Heineken para 2030, de buscar um crescimento com menos recursos, é uma base sólida para o futuro.
“Estou confiante de que aceleraremos o crescimento, impulsionaremos a produtividade e prepararemos a Heineken para o futuro, conquistando o coração dos consumidores em todo o mundo”, disse ele.
A Heineken ofereceu uma compensação financeira de quase € 25 milhões (cerca de R$ 150 milhões) a Oliveira por meio de ações da cervejeira. O pagamento foi pelo fato de ele ter renunciado a um bônus potencialmente ainda maior que receberia no seu emprego anterior, na JDE Peet’s, em forma de remuneração extra após a conclusão da compra da empresa pela Keurig Dr Pepper, em eabril.
Currículo internacional
Oliveira ingressou na empresa de café JDE Peet’s como CEO em 2024 e estava na linha sucessória para comandar a nova gigante do setor, a Global Coffee, que está sendo criada após a aquisição do grupo pela Keurig Dr Pepper em uma operação de € 16 bilhões (US$ 18,3 bilhões ou R$ 94 bilhões).
Antes da JDE Peet’s, Oliveira passou uma década na Kraft Heinz, onde ascendeu ao cargo de presidente dos mercados internacionais. Nessa função, foi responsável por um portfólio superior a US$ 7 bilhões distribuído pela Europa, África, Ásia-Pacífico e América Latina.
Oliveira também trabalhou durante 10 anos no Goldman Sachs, atuando como diretor executivo da divisão de títulos e valores mobiliários no Reino Unido e da unidade de mercados emergentes em Hong Kong. Ele iniciou sua carreira no Brasil, trabalhando no Banco Icatu e no Banco BBA-Creditanstalt. Graduado em Economia, tem MBA pela Universidade de Chicago.
Nova gestão na Heineken
O Conselho de Administração da Heineken escolheu o executivo por unanimidade, destacando sua “combinação única de visão estratégica, experiência operacional e perspicácia financeira”, segundo comunicado da empresa. “Ele traz uma perspectiva nova que deverá revitalizar a Heineken”, acrescentou a companhia.
A reformulação da gestão da Heineken ocorre após a saída do ex-CEO Dolf van den Brink no fim de maio, depois de seis anos no comando e mais de 28 anos de atuação na empresa. A companhia enfrenta vendas fracas à medida que as pessoas reduzem o consumo de álcool e consumidores com orçamento apertado limitam seus gastos.
Em abril, a empresa informou uma queda no volume de vendas de cerveja no primeiro trimestre, à medida que a demanda enfraqueceu em mercados estratégicos da Europa e das Américas. A Heineken tem ficado atrás de concorrentes do setor, como Anheuser-Busch InBev e Carlsberg, na recuperação dos negócios após a desaceleração observada no período pós-pandemia.
Em abril, a Heineken informou que o volume de vendas de cerveja caiu no primeiro trimestre, refletindo a retração da demanda em mercados importantes da Europa e das Américas. Mas a empresa já declarou estar otimista em relação à demanda por cerveja em mercados emergentes, como Vietnã e África do Sul, onde populações mais jovens e o aumento da renda têm impulsionado as vendas.
A Heineken está atualmente implementando um programa de redução de custos que inclui o corte de cerca de 7% de sua força de trabalho global.
De acordo com relatório dos analistas Edward Mundy e Sebastian Hickman, da Jefferies, Oliveira tem um histórico comprovado de “transformar estratégia em resultados financeiros mensuráveis”.
“Esperamos que isso reforce uma cultura de alto desempenho na Heineken, com foco em simplificação, alocação mais eficiente de recursos” e na execução do plano da empresa para alcançar até € 500 milhões em economias anuais de produtividade, disseram.
Separadamente, a Keurig Dr Pepper informou que iniciou a busca por um novo CEO para sua divisão de café. Pamela Patsley, presidente do conselho de administração da KDP e do comitê de nomeação e governança da companhia, liderará o processo de seleção.
Fonte: O Globo/Foto: Ksenia Kuleshova/Bloomberg
