Um bilhete jogado pela janela de uma cela e que foi parar no esgoto, um celular “esquecido” durante operação policial e depósitos bancários feitos em sequência ajudaram a Polícia Civil a desmontar suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), investigação que chegou ao nome da influenciadora e advogada Deolane Bezerra, de 38 anos, presa nesta quinta-feira (21/5), em Alphaville, na Grande São Paulo.
A prisão de Deolane aconteceu durante operação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e da Polícia Civil. Para os investigadores, ela fazia parte de estrutura usada para movimentar e ocultar dinheiro do PCC.
Bilhete descartado na janela
O primeiro erro considerado crucial pelos investigadores aconteceu ainda dentro da Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista. Durante revista de rotina, em 2019, o detento Gilmar Pinheiro Feitoza, conhecido como “Cigano”, tentou se livrar de vários manuscritos, jogando os papéis pela janela da cela em direção a uma caixa de esgoto.
Os agentes conseguiram recuperar o material e, depois de secar e remontar os bilhetes, encontraram mensagens que falavam sobre tráfico de drogas, planos de atentados contra agentes públicos e uma misteriosa “mulher da transportadora” — que teria fornecido endereços de autoridades para a facção.
Foi esse detalhe que fez a PF começar a puxar o fio da investigação. Os policiais passaram a procurar empresas de transporte da região ligadas a mulheres e chegaram até a transportadora Lado a Lado, registrada em nome de Elidiane Saldanha Lopes Lemos. Segundo a investigação, a empresa era usada pelo PCC para movimentar dinheiro da facção e tinha ligação direta com integrantes da cúpula criminosa.
Celular “esquecido” durante a busca
Durante a Operação Lado a Lado, em 2021, na casa do operador financeiro Ciro Cesar Lemos, a polícia apreendeu um celular que, segundo os investigadores, jamais deveria ter sido mantido guardado. O aparelho tinha mensagens, áudios, comprovantes bancários e conversas no Telegram que detalhavam a gestão de dinheiro ligado a Marcola e ao irmão dele, Alejandro Camacho.
No celular, os policiais encontraram contatos salvos com apelidos ligados ao PCC, além de comprovantes de depósitos para contas atribuídas a Deolane Bezerra. As conversas indicavam que os valores fariam parte de “acertos” e “balancetes” da transportadora ligada à facção, e não de pagamentos comuns por serviços advocatícios.
Mensagens com Deolane
Segundo a investigação, a relação de Deolane Bezerra com integrantes do PCC ia além da atuação como advogada. A polícia afirma que a influenciadora aparecia oficialmente como representante de Everton de Sousa, conhecido como “Player”, apontado como um dos operadores financeiros da facção. Para os investigadores, a profissão de Deolane ajudava a dar aparência de legalidade à proximidade com integrantes do esquema e à movimentação de grandes quantias de dinheiro.
No celular esquecido, a polícia ainda encontrou conversas, fotos de comprovantes bancários e dados de contas ligados a Deolane. Segundo o relatório, as mensagens indicavam que depósitos enviados para as contas da influenciadora eram tratados como “acertos”, “balancetes” e “fechamentos” da transportadora usada pela facção, e não como pagamentos de honorários advocatícios.
Os investigadores também afirmam que havia tentativa de esconder o nome de Deolane nas conversas. Em alguns trechos, os envolvidos usavam expressões abreviadas como “Deo….Beze…” para se referir à influenciadora.
Sede da empresa era um “barraco de madeira”
Outro ponto que chamou a atenção da polícia foi o endereço das empresas ligadas à influenciadora. Em Santo Anastácio, interior paulista, a sede declarada de uma das empresas funcionava, na prática, em uma simples casa de madeira, em uma área periférica, sem qualquer estrutura comercial. No mesmo local, segundo o inquérito, havia mais de 10 empresas registradas. Em outro endereço, na cidade de Martinópolis, uma residência popular da CDHU aparecia ligada a dezenas de CNPJs.
Entenda o envolvimento da advogada
- Segundo a investigação, Deolane desempenhava papel fundamental ao fornecer camada de aparente legalidade para os recursos ilícitos do PCC.
- A projeção pública da influenciadora, além de suas atividades empresariais formais e da movimentação de seu patrimônio, era utilizada para ocultar e dissimular a origem criminosa do dinheiro, dificultando a identificação do vínculo com a facção.
- Deolane, segundo os investigadores, tinha vínculos pessoais e negociais estreitos com um dos “gestores fantasmas” de uma transportadora em Presidente Venceslau. A empresa já havia sido identificada como braço financeiro do PCC em uma operação anterior.
- Os investigadores ainda apontam que a influenciadora apresentou movimentações financeiras expressivas e fluxo vultoso de dinheiro que não tinha lastro econômico compatível com suas atividades.
- A estrutura envolvia o recebimento de valores de origem não esclarecida por meio de empresas, além da aquisição ou vinculação a bens de alto padrão, como imóveis e veículos de luxo.
Contador das 2.444 empresas
A investigação também encontrou um padrão considerado suspeito na contabilidade dessas empresas. Segundo a polícia, o mesmo contador, Eduardo Affonso Rodrigues, aparecia vinculado a mais de 2,4 mil empresas diferentes. Para os investigadores, o volume indicaria a existência de uma rede de empresas de fachada, usada para ocultar patrimônio e dificultar o rastreamento do dinheiro.
Técnica óbvia de “Smurfing”
Outro “erro” apontado pela investigação foi a forma como os depósitos eram feitos. O relatório afirma que os investigados utilizavam a técnica conhecida como “smurfing”, quando grandes quantias são divididas em vários depósitos menores para tentar escapar dos alertas do sistema financeiro. Em um dos exemplos citados, Deolane teria recebido três depósitos seguidos em um intervalo de apenas dois minutos.
Ostentação incompatível com o papel
Mas foi a ostentação nas redes sociais que também chamou a atenção e fez com que Deolane entrasse na mira da polícia. O inquérito aponta que os investigadores identificaram uma diferença milionária entre os valores oficialmente declarados e a movimentação financeira atribuída ao grupo. Enquanto apareciam nas redes sociais carros de luxo, viagens internacionais, bolsas de grife e mansões, os dados fiscais indicariam renda incompatível com o padrão de vida exibido pela influenciadora.
Entenda a cronologia da operação contra Deolane e o PCC
- A investigação iniciou em 2019, quando policiais penais apreenderam bilhetes com detentos da Penitenciária II de Presidente Venceslau.
- Os manuscritos revelaram elementos relacionados à dinâmica interna do PCC, à atuação de lideranças do crime organizado e possíveis ataques contra agentes públicos.
- A Polícia Civil notou a menção a uma “mulher da transportadora”, que teria feito um levantamento de endereços de servidores públicos para auxiliar no planejamento dos ataques do PCC, e chegou a uma transportadora, o que deu início à segunda etapa da investigação.
- Batizada de Lado a Lado e deflagrada em 2021, a operação revelou a utilização da transportadora como braço financeiro do PCC, além de movimentações financeiras incompatíveis e crescimento econômico sem lastro.
- Durante a Operação Lado a Lado, as autoridades apreenderam um celular com indícios de repasses financeiros à Deolane, além de estreitos vínculos da influenciadora com um dos gestores fantasmas da transportadora.
- Deolane, segundo os investigadores, passou a ocupar posição de destaque no caso em razão de movimentações financeiras expressivas, incompatibilidades patrimoniais e indícios de conexão com o comando do PCC.
- Os levantamentos apontaram recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição de bens de alto padrão, o que fundamentou o desdobramento desta quinta-feira (21/5).
Fonte: Metrópoles/Foto: Leonardo Amaro/Metrópoles
