A poucos dias da abertura da Copa do Mundo de 2026, o México se prepara para receber o maior Mundial da história sob forte esquema de segurança.
A operação ocorre em meio a desafios que vão de protestos de professores na capital às preocupações com o crime organizado em Guadalajara, onde os reflexos da morte de Nemesio Oseguera Cervantes, vulgo El Mencho, ainda alimentam um sentimento de insegurança em parte da população.
O pontapé inicial da maior Copa do Mundo já realizada — com 48 seleções e 104 partidas distribuídas entre México, Estados Unidos e Canadá — ocorrerá nesta quinta-feira (11/6).
Apesar da proximidade do torneio, especialistas mexicanos ouvidos pelo Metrópoles afirmam que o clima nas cidades-sede está distante da euforia observada nos Mundiais de 1970 e 1986.
Questões ligadas à segurança pública, aos custos do evento, às obras de infraestrutura e aos recentes episódios de violência associados ao crime organizado ajudam a explicar o sentimento de cautela que domina parte da população.
Copa sem euforia
Para Jorge Rocha, acadêmico do ITESO, universidade jesuíta sediada em Guadalajara, um dos aspectos mais marcantes às vésperas do torneio é justamente a ausência de um ambiente festivo típico de Copa do Mundo.
“O que chama atenção é que, diferentemente do que ocorreu nos Mundiais de 1970 e 1986, o entusiasmo popular em torno da Copa parece muito menor”, afirma.
Segundo ele, embora existam referências ao Mundial espalhadas pelas ruas da Cidade do México, Guadalajara e Monterrey, um visitante dificilmente encontraria hoje a atmosfera de euforia tradicionalmente associada ao torneio.
Na avaliação do pesquisador, o desânimo é resultado de uma combinação de fatores, a exemplo dos transtornos provocados pelas obras realizadas para preparar as cidades para receber o evento e o alto custo para participar do Mundial.
“Os preços dos ingressos são considerados muito elevados e, no mercado de revenda, chegam a níveis ainda mais altos. Criou-se a sensação de que a população está arcando com os transtornos provocados pela preparação para a Copa, mas sem poder usufruir diretamente do evento”, diz Rocha.
Além dos ingressos, o aumento dos preços das hospedagens também alimenta críticas e dúvidas sobre quem realmente se beneficiará economicamente da competição.
Partidas do México
- 11/6: México x África do Sul.
- 18/6: México x Coreia do Sul.
- 24/6: México x Suíça.
A sombra de El Mencho
As preocupações com a segurança ganharam força após a operação que resultou na morte de El Mencho, em fevereiro deste ano. Os episódios de violência registrados após a ação tiveram forte impacto em Guadalajara e em outros destinos turísticos de Jalisco.
Segundo Jorge Rocha, o episódio provocou uma sensação de insegurança que ainda persiste entre os moradores. “Hoje existe uma espécie de calma tensa”, descreve.
O acadêmico cita uma pesquisa recente de percepção pública, segundo a qual cerca de 90% da população dizem se sentir insegura na cidade.
Desde os episódios violentos, a presença das forças de segurança aumentou significativamente. Patrulhas do Exército Mexicano e da Guarda Nacional tornaram-se rotina, especialmente nas regiões próximas ao estádio que receberá partidas da Copa.
A expectativa é que o esquema de segurança seja ainda mais reforçado durante o Mundial, sobretudo em jogos considerados de maior relevância internacional.
Crime organizado e desaparecimentos preocupam
A jornalista mexicana Ilse Martínez, que acompanha o cotidiano de Jalisco, afirma que a preocupação com a segurança vai além dos confrontos envolvendo o crime organizado.
Segundo ela, outro problema que continua mobilizando a sociedade local é a crise de desaparecimentos. “Esses são dois temas que preocupam muito em Guadalajara: o crime organizado e os desaparecimentos”, relata.
Martínez lembra que os episódios registrados após a operação contra El Mencho provocaram incêndios de veículos, bloqueios de estradas e um nível de medo incomum para muitos moradores.
“Foi uma situação que trouxe um nível de temor que muitas pessoas nunca haviam experimentado antes”, afirma.
A jornalista diz, ainda, que existe receio de que a visibilidade internacional proporcionada pela Copa do Mundo possa ser utilizada por grupos criminosos para chamar atenção.
Plano Kukulkán
- Para enfrentar esse cenário, o governo mexicano colocou em prática o Plano Kukulkán, principal estratégia de segurança da Copa do Mundo.
- A operação reúne mais de 20 órgãos federais e prevê coordenação com autoridades locais, Estados Unidos, Canadá e Fifa.
- Segundo o governo, cerca de 100 mil agentes serão mobilizados, além da instalação de sistemas de vigilância aérea, monitoramento em tempo real, perímetros de segurança e tecnologia antidrone em estádios, aeroportos, hotéis e áreas destinadas aos torcedores.
- As autoridades afirmam que o objetivo é garantir não apenas a proteção física dos visitantes, mas também respostas rápidas a riscos como protestos, fraudes digitais, emergências sanitárias e problemas de mobilidade.
Brasileiros devem ser bem recebidos
Apesar das preocupações, os especialistas acreditam que a Copa pode representar uma oportunidade para melhorar a imagem internacional de Guadalajara e de Jalisco.
Rocha destaca a relação histórica da cidade com o futebol brasileiro. Guadalajara recebeu partidas da Seleção Brasileira nos Mundiais de 1970 e 1986, e recentemente ganhou uma estátua em homenagem a Pelé nas proximidades do Estádio Jalisco.
Martínez compartilha da mesma visão. Segundo ela, os visitantes encontrarão uma cidade acolhedora, com forte tradição cultural, gastronômica e turística.
“Se tudo transcorrer com segurança, acredito que a Copa do Mundo pode ajudar a mostrar o melhor de Guadalajara”, diz ela.
Fonte: Metrópoles/Foto: Metrópoles
