A exposição à radiação crônica do acidente na usina de Chernobil, na Ucrânia, em 1986 não teria danificado o genoma de vermes microscópicos que vivem na região até hoje. Isso é o que indica um estudo da Universidade de Nova York (NYU) publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences nesta terça-feira (5).
O desastre, ocorrido há quase 40 anos, tornou a “zona de exclusão” o local mais radioativo da Terra. É uma área que se estende por um raio de 30km onde vivem alguns animais que têm sido estudados em pesquisas recentes e que são física e geneticamente diferentes de seus equivalentes em outros lugares do planeta.
A sobrevivência do verme estudado não indica que o local seja seguro, mas pode mostrar a resiliência desse ser vivo. “Será que a mudança ambiental repentina selecionou espécies, ou mesmo indivíduos dentro de uma espécie, que são naturalmente mais resistentes à radiação ionizante?”, questiona Sophia Tintori, do departamento de Biologia da NYU, em comunicado.
Ela ficou surpresa com a cobertura vegetal da zona de exclusão. “Nunca tinha pensado nela como algo repleto de vida”, observa. “Se eu quiser encontrar vermes que sejam particularmente tolerantes à exposição à radiação, essa é uma paisagem que pode já ter sido selecionada para isso.”
Para a análise, os pesquisadores estudaram nematódeos, que correspondem a pequenos vermes com genoma simples e uma reprodução rápida. Em 2019, eles visitaram a região e coletaram os vermes de amostras de solo, frutas apodrecidas e outros materiais orgânicos de regiões com diferentes níveis de radiação. Os exemplos foram estudados ainda na Ucrânia e depois levados aos EUA, onde foram congelados.
“Podemos criopreservar os vermes e depois descongelá-los para estudo posterior”, explica Matthew Rockman, professor de Biologia na NYU. “Isso significa que podemos impedir que a evolução ocorra no laboratório, algo impossível com a maioria dos outros modelos animais, e muito valioso quando queremos comparar animais que passaram por diferentes histórias evolutivas.”
A análise envolveu o sequenciamento genético de 15 vermes da espécie Oscheius tipulae, que foram comparados com animais da mesma espécie naturais de outras regiões do mundo. De forma surpreendente, os pesquisadores não detectaram danos causados pela radiação no genoma dos vermes retirados de Chernobil.
Apesar disso, eles não sabem há quanto tempo cada um deles estava na zona de exclusão, o que impossibilita determinar com precisão o nível de exposição que cada verme e seus antecessores receberam nas últimas quatro décadas.
Os pesquisadores criaram um sistema para comparar a rapidez com que as populações de 20 vermes geneticamente distintos crescem e, assim, medir a sensibilidade de seus descendentes a diferentes tipos de danos ao DNA.
O estudo sugere que não há necessariamente uma tolerância maior à radiação por parte dos vermes de Chernobil, e que o cenário não os forçou a evoluir. No entanto, ele indica como o reparo do DNA pode variar para cada indivíduo e ajuda a entender a variação natural em humanos.
“Agora que sabemos quais linhagens de O. tipulae são mais sensíveis ou mais tolerantes a danos no DNA, podemos usar essas linhagens para estudar por que indivíduos diferentes têm maior probabilidade de sofrer os efeitos de carcinógenos do que outros”, diz Tintori. Um dos desafios dos pesquisadores de câncer é entender por que algumas pessoas com predisposição genética à doença a desenvolvem e outras não.
Fonte: Revista Galileu/Foto: Unsplash
