Lucas Garcia foi uma das sensações do fisiculturismo brasileiro em 2025. Engenheiro de formação, largou a profissão para apostar tudo no esporte e, em menos de quatro anos, conquistou dois títulos e alcançou o top-3 do Mr. Olympia, em sua estreia no maior palco mundial da modalidade. A ascensão, porém, quase foi interrompida por um susto: uma sobrecarga renal colocou sua carreira em risco poucos meses antes do pódio.
– Eu sempre digo que, antes de alguma coisa boa, vão acontecer coisas ruins com você. Em 2024, tive resultados ruins e, passado isso, fiz exames de rotina e descobri problemas de saúde que me levaram a colocar o pé no freio para as preparações e fazer vários ajustes na minha rotina – contou o atleta de 29 anos em entrevista exclusiva ao ge.globo.
O diagnóstico apareceu em setembro de 2024, durante um check-up. Avaliações periódicas fazem parte da rotina da rotina de um atleta de alto rendimento, principalmente em uma modalidade marcada por treinos intensos, dieta rigorosa e uso de hormônios. Os rins exigem atenção redobrada, já que o alto consumo de proteína e determinados medicamentos podem sobrecarregar o órgão ao longo do tempo.
No caso de Lucas, a alteração estava em estágio inicial, mas exigiu mudanças imediatas. Ele e a equipe médica reformularam a rotina, ajustaram a dieta e reorganizaram o planejamento competitivo. Mesmo sem sintomas ou dor, o quadro demandou cerca de seis meses até a recuperação completa.
Divisor de águas
O susto virou ponto de inflexão e foi um divisor de águas. Para muitos, poderia representar o fim da carreira. Para Lucas, foi apenas uma redução de ritmo antes do objetivo maior: chegar ao Mr. Olympia, a “Copa do Mundo” do fisiculturismo.
– Quando você encontra esses obstáculos, muitas pessoas param e veem como o fim da linha. Mas uma pessoa que é muito disciplinada e acredita que pode chegar, é só contornar. Você sabe que está caminhando em direção ao seu objetivo, independente da velocidade. Foi um momento que eu tive que diminuir o ritmo, mas continuei caminhando na direção que eu queria – falou o paulistano.
Inicialmente, ele não pretendia competir em 2025, já que o processo de reconstrução física exigiria tempo. No entanto, a evolução clínica permitiu montar um calendário estratégico. Ainda no primeiro semestre do ano, identificou eventos-chave e teve 20 semanas de preparação até o retorno aos palcos. Em agosto, participou de dois campeonatos em semanas consecutivas.
O desempenho de Lucas foi o segundo melhor resultado do Brasil na categoria 212, atrás apenas de Eduardo Correa, vice-campeão em 2014. Seguindo as regras da Federação Internacional de Fisiculturismo & Fitness (IFBB), o atleta já garantiu classificação automática para o Mr. Olympia 2026 por conta do top-3. A próxima edição acontecerá novamente em Las Vegas, entre 24 e 27 de setembro. Desta vez, porém, o objetivo será outro.
– Agora, daqui para frente, vai ser um ano de trabalho, um período de evolução, para bater de frente com esses caras. Porque no primeiro ano eu não tive condições, mas daqui em diante eu vou para brigar mesmo. Eu não vou mais só para sair na foto em terceiro – comentou o brasileiro, que não planeja competir antes do evento mundial em 2026.
A engenharia como aliada
Se hoje, com 29 anos de idade, Lucas Garcia se destaca entre os principais fisiculturistas do mundo, tudo começou como hobby uma década e meia atrás. Ele iniciou na musculação aos 14 anos, por diversão e com o objetivo de melhorar o físico. O paulistano não tinha pretensões de competir, mas depois de dez anos treinando, aceitou um convite de seu nutricionista e fez uma preparação conciliando com a rotina como engenheiro que levava à época.
– Falo que a primeira preparação de um atleta é aquela que vai definir se o cara vai fazer isso para o resto da vida ou nunca mais vai fazer, porque é bem difícil. Ou você pode ver prazer nessa dificuldade, nesses obstáculos, e passar por todos eles até conquistar o que você quer, ou desistir, tipo: “Nunca mais quero passar por isso” – disse o atleta.
Lucas quis mais e seguiu competindo. Ele mostrou evolução em dois anos e obteve sua principal conquista no amador em 2022: venceu o Mr. Olympia Brasil, obtendo o pro card – cartão que o habilita a competir nos principais eventos o mundo. Já com patrocínios e renda fixa no esporte naquela época, o atleta tomou a decisão de deixar seu trabalho na engenharia meses depois. Segundo ele, para alcançar o nível da elite internacional, precisava reduzir fatores de estresse e concentrar a rotina em treino, alimentação e descanso.
– Dá para competir tendo um trabalho paralelo, mas dificilmente você chega no nível deles. Você precisa de uma tranquilidade mental, cortisol sempre baixo, bastante descanso. Eu sou de São Paulo e, para ir ao trabalho, demora uma hora. Pega trânsito, estressa. Fora o trabalho em si. Tudo isso conta e poderia me levar a um nível que não seria o máximo que eu poderia atingir – explicou.
Curiosamente, Lucas acredita que a formação acadêmica virou diferencial competitivo. Para ele, a profissão está menos ligada a cálculos – como muitas pessoas interpretam – e mais à capacidade de raciocinar de forma lógica, tomar decisões estratégicas e otimizar o tempo.
– Todas as nossas decisões (dos engenheiros) são pensadas, e o fisiculturismo tem muito disso. Você tem que ser estratégico, analisar o ambiente, qual competição ir, ser cirúrgico na escolha, ter uma organização no dia com os horários, controlar estoque de alimentos e não deixar faltar remédios, além de colocar outros compromissos na agenda sem atrapalhar o treino – explicou Lucas.
A rotina de atleta
Atualmente, Lucas tem uma equipe multidisciplinar formada por cinco profissionais: o treinador Vitor Bizzo, o nutricionista Marcelo “Tchellow” Alfonsi, o médico Dr. Gabriel Bueno, o preparador mental Nicholas Pasquale e a fisioterapeuta Renata Garcia. Ainda assim, ressalta que, no palco, o resultado final depende exclusivamente dele.
– O que me fez encontrar no fisiculturismo é que, por mais que você tenha uma equipe, é a questão da individualidade. Eu dependo só de mim. Quando eu era mais novo, passei por outros esportes como futsal porque queria ser jogador, mas comecei a me frustrar muito porque às vezes a derrota não era culpa minha. Fui para um esporte que depende só de mim – completou.
A disciplina é ferramenta central na vida de Lucas. Ele mantém horários fixos, treina sozinho e evita alterar a rotina mesmo fora de temporada. Em fase de preparação, o dia começa com aeróbico pela manhã, seguido de refeição e descanso. Depois, treino de musculação, novo aeróbico e mais três refeições distribuídas ao longo do dia.
O fisiculturista treina três dias seguidos, intercalando um de descanso, com um grupamento muscular para cada dia (um dia dedicado às costas, outro a peito e ombro e outro às pernas). Na fase de ganho de massa, o consumo chega a cerca de 5 mil calorias diárias, com cinco refeições programadas e pesadas em gramas – três delas à base de arroz e frango.
Fonte: Globo Esporte/Foto: Divulgação/Mr. Olympia
