Juiz de Fora – O desastre das chuvas transformou para sempre a história de dezenas de famílias da Zona da Mata mineira. Em um instante, a vida cotidiana virou caos quando a força da água fez tombar morros em cima de casas e ruas em cidades como Juiz de Fora e Ubá. Agora, as vítimas tentam juntar os cacos.
Por volta das 21h30 de segunda-feira (23/2), um estrondo rompeu a rotina de diversas famílias na Rua Natalino José de Paula, no Parque Burnier, em Juiz de Fora. Em questão de segundos, a casa onde estavam mãe, filha e filho veio abaixo após um deslizamento de terra que destruiu cerca de 12 imóveis no mesmo ponto.
O menino Bernardo Lopes Dutra, mais conhecido na comunidade como “Tomatinho”, de 11 anos, morreu. A irmã dele, Ana Clara Lopes Dutra, de 16, foi resgatada com vida depois de ficar soterrada ao lado da mãe.
Em entrevista ao Metrópoles, a adolescente relatou que estava sentada no sofá assistindo televisão quando a estrutura da casa da família começou a estremecer. A chuva era intensa desde o final da tarde de segunda-feira. O pai havia saído para tratar de uma proposta de emprego e não estava na residência no momento do desabamento.
Minutos antes da tragédia, Bernardo entrou na sala para perguntar sobre o bife que estava separado para o pai. A mãe disse que ele poderia comer e que depois faria outro. O menino seguiu pelo corredor, em direção à cozinha. Logo depois, segundo Ana, houve o forte barulho e a casa desmoronou sem dar tempo de correrem.
Ela e a mãe foram atingidas na sala e ficaram presas sob os escombros por cerca de três minutos. Conseguiram dar as mãos enquanto aguardavam socorro e foram as primeiras a serem retiradas por vizinhos. Em seguida, foram encaminhadas feridas ao Hospital de Pronto Socorro (HPS).
Ana sofreu fratura na clavícula e deverá passar por cirurgia. A mãe apresentou diversos hematomas após ficar prensada pelas paredes. Ambas permanecem internadas.
O corpo de Bernardo foi localizado posteriormente e enterrado na terça-feira (25). O funeral reuniu dezenas de familiares, amigos e moradores da região, que foram ao cemitério prestar as últimas homenagens ao menino, que, diziam, tinha um futuro brilhante no futebol pela frente.
Além dele, o avô materno da jovem também foi encontrado morto. Outros parentes e vizinhos estão entre as vítimas do deslizamento. A avó paterna e uma tia seguem desaparecidas, e equipes de resgate continuam as buscas na área atingida.
Sobre o irmão, Ana descreveu a relação dos dois e relembrou momentos da infância: “Meu irmão era tudo pra mim, nós tínhamos 5 anos de diferença, sempre foi muito bagunceiro, já teve acidentes de criança, vivia caindo. Tivemos a sorte de ser sorteados na mesma escola, mas no 1º ano dele veio a pandemia, foi onde aprendi a cuidar dele. Passamos muitos momentos juntos, brigávamos quase todos os dias, mas sempre nos resolvemos porque um era a vida do outro”, relatou ela.
“As paixões dele com certeza eram jogar bola e soltar pipa, mas amava bater cartinha, jogar Free Fire, ficar na rua com os amigos. Amava quando ele vinha dormir comigo, receber seus abraços e as implicâncias. Tem várias coisas pra falar e não vai caber aqui, mas de uma coisa eu sei: ele é meu eterno jogador, amor da minha vida, meu tudo”, seguiu a jovem.
O pai da adolescente não sofreu ferimentos. Após o sepultamento do filho, retornou ao local do deslizamento para acompanhar as buscas, já que a própria mãe permanece desaparecida. A família também abriu uma vaquinha para tentar reconstruir a vida.
*Metrópoles/Foto: Arquivo pessoal
