Enquanto equipes de resgate e forças de segurança no Nepal e na China correm contra o tempo para localizar sobreviventes e levar ajuda urgente por via aérea e terrestre aos vales do Himalaia, que foram varridos por uma torrente de água, lama e destroços na quarta-feira, as autoridades alertam nesta quinta-feira para o risco de novas ondas de enchente e deslizamento de terra na região afetada. Com 332 mortes confirmadas no Nepal e três na China, além de 1,3 mil desaparecidos, o risco de novas avalanches como a que provocou o aumento do nível dos rios na véspera e a expectativa de chuva nos próximos dias ameaçam um agravamento da situação no solo.
Em um cenário com um número relevante de potenciais vítimas soterradas, o terreno montanhoso da cordilheira do Himalaia seria um desafio por si só para as equipes de resgate, que costumeiramente trabalham com uma “janela de ouro” de 48 a 72 horas para resgate de vítimas com vida. A destruição de infraestrutura provocada pela torrente de água do dia anterior, que ainda está represada em alguns pontos da fronteira, é um fator que aumenta ainda mais o risco.
Em uma entrevista à rede britânica BBC, o diretor do Centro de Estudos de Desastres da Universidade Tribhuvan, no Nepal, Basanta Raj Adhikari, afirmou que os especialistas acompanham o risco de que hajam novos deslizamentos, chamando de “segunda e terceira ondas”. Embora a avaliação não seja conclusiva, um trabalho de monitoramento continua sendo realizado pelos especialistas, com a previsão de chuva para os próximos três dias sendo um fator central.
Especialistas apontam que a catástrofe registrada na quarta-feira foi provocada por uma avalanche, que ao transferir sua energia cinética ao rio, provocou a onda de água e lama que varreu os dois países e avançou por quilômetros em território nepalês. Imagens transmitidas pela emissora estatal chinesa CCTV, porém, mostraram que o dano causado pelo deslizamento inicial represou estimados 2 milhões de metros cúbicos de água perto de Porto Gyrong. O escoamento de mais água para a zona criaria um risco real de transbordamento, arriscando um aumento do volume dos rios abaixo.
Outras instabilidades não estão descartadas. A avalanche da quarta-feira foi provocada, segundo a análise inicial dos especialistas, por um bloco de gelo de cerca de 600 metros de largura, que caiu por milhares de metros. Pesquisadores apontam que as mudanças climáticas têm contribuído para um derretimento mais rápido do gelo, aumentando a chance de eventos do tipo de repetirem. Deslizamentos provocados não necessariamente por uma nova avalanche, mas pela reacomodação do solo após a torrente da véspera, não estão descartados.
Mesmo com os riscos iminentes, os trabalhos de busca e resgate continuam acontecendo nos dois lados da fronteira, com militares, equipes especializadas e reforço internacional atuando em tentativas de localização das cerca de 1,3 mil pessoas dadas como desaparecidas nos dois países, sendo 517 delas turistas estrangeiros que estavam no Nepal. Em um balanço recente no começo da tarde (manhã em Brasília), as autoridades nepalesas afirmaram que 351 pessoas haviam sido resgatadas com vida.
As informações provenientes do Tibete, região autônoma da China, fluem mais lentamente. Apenas três mortes foram confirmadas até o momento pelo governo central em Pequim, apesar das cenas captadas por câmeras na região fronteiriça mostrarem uma devastação provocada pela onda inicial da enchente.
Integrante da alta cúpula do Politiburo, Li Qiang visitou trabalhadores de emergência em Gyirong nesta quinta-feira. Um balanço sobre as primeiras 22 horas após o desastre apontam que as equipes fizeram o resgate de 141 pessoas com vida, em um operação apoiada por helicópteros.
(Com AFP e NYT)
Fonte: O Globo/Foto: Nepalese Army/AFP
