Importante ator na guerra civil da Síria, o Estado Islâmico (ISIS) voltou ao centro das atenções do país nesta semana. Em meio à recente escalada de violência entre o Exército do novo governo sírio, e as Forças Democráticas Sírias (SDF), ambos os lados trocaram acusações sobre libertar jihadistas da organização terrorista detidos em prisões localizadas nos territórios alvos de disputa.
O que está acontecendo?
- Nos primeiros dias de 2025, uma nova onda de violência tomou conta da Síria. O episódio se somou a outros semelhantes, que aconteceram após a queda de Bashar al-Assad em 2024, mesmo com a promessa do novo governo de estabilizar o país.
- Desta vez, os conflitos envolvem o Exército sírio e as Forças Democráticas Sírias (SDF), organização militar liderada por curdos que teve papel de destaque no combate ao Estado Islâmico (ISIS).
- As tensões foram registrados no norte do país, onde diversas regiões eram comandadas pelas SDF. Após embates, o Exército da Síria tomou o controle de cidades antes sob o domínio de forças curdas.
- Após semanas de conflitos, o presidente interino do país, Ahmed al-Sharaa, anunciou um acordo de cessar-fogo com o grupo militar curdo.
- O pacto de paz, que entre outras coisas prevê uma maior integração de curdos em instituições sírias, é frágil.
- As SDF já afirmaram que vão continuar a defender territórios que ainda estão sob seu controle.
Desde o início do ano, o instável país no Oriente Médio voltou a ser palco de combates envolvendo disputas não só territoriais, como também sectárias. A nova onda de violência no país foi registrada no Norte da Síria, onde diversas regiões estavam controle dos curdos.
Um cessar-fogo foi assinado entre ambos os lados no último domingo (18/1). Segundo o documento apresentado por autoridades de Damasco, o pacto de paz prevê, entre outros pontos, a integração de militares do SDF ao Exército Sírio, e a transferência de áreas antes controladas pelos curdos para a atual administração central do país, incluindo prisões onde estão detidos militantes do ISIS.
Logo após a assinatura do acordo, forças governamentais e militantes curdos passaram a trocar acusações envolvendo um destes centro de detenção: a prisão de Al-Shaddadi, localizada na província de al-Hasakah, uma das regiões que deve ser integrada a administração de Damasco, liderada por Ahmed al-Sharaa — que possui um histórico de ligações com grupos como a Al-Qaeda e o próprio ISIS antes de comandar a ofensiva contra o regime Assad.
O local abriga jihadistas do ISIS, que chegou a controlar mais de 50% do território sírio após a ascensão no início da década de 2010. Um dos últimos redutos do grupo no país foi tomado em 2019, depois de esforços da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, que contou com o apoio direto dos curdos.
Em um comunicado, as SDF afirmaram que o local foi alvo de ataques por parte de forças governamentais na segunda-feira.
“Embora a Prisão de Al-Shaddadi esteja localizada a aproximadamente dois quilômetros da base da Coligação Internacional na área, a base não interveio, apesar de repetidos apelos de intervenção”, disse um trecho da nota divulgada por combatentes curdos. “Assim, informamos a opinião pública que a Prisão de Al-Shaddadi caiu atualmente fora do controlo das nossas forças devido a estes desenvolvimentos”, disse um trecho da nota divulgada pelo grupo armado curdo”.
A acusação, contudo, foi rebatida pelo governo interino da Síria. Segundo a nova administração do país, composta majoritariamente por figuras ligadas ao grupo Hayat Tahrir al-Sham (HTS), os membros do ISIS foram libertados pelas SDF.
“O exército assumiu o controle da cidade de al-Shaddadi e da sua prisão a sul de al-Hasakah, e começou imediatamente as operações para garantir a segurança da área e prender os prisioneiros do ISIS que fugiram e foram libertados pelas SDF”,
Um outro caso envolvendo prisioneiros do Estado Islâmico também foi registrado na província de al-Raqqa, no centro de detenção de al-Aqtan. Segundo as Forças Democráticas Sírias, militares do governo interino do país bombardearam a prisão com artilharia e tanques, com o objetivo de tentar invadir o local. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (SOHR) também confirmou a informação.
Até o momento ainda não está claro quantos militantes do ISIS podem ter escapado das prisões na Síria. Estimativas apontam que entre 9 e 10 mil combatentes do grupo terrorista, e cerca de 40 mil familiares, estão detidos no país.
Ascensão e queda
O Estado Islâmico moderno foi fundado em meados de 2013, nascido da reunião do que viria a ser a alta cúpula do grupo. Seus primeiros membros se organizaram enquanto estiveram detidos na prisão de Camp Bucca, um centro de detenção máxima no Iraque, administrado pelos EUA após a invasão ao país em 2003.
No início da década de 2010, insurgentes chegaram a dominar vastas áreas do Iraque e Síria, aproveitando-se da instabilidade social e política nas duas nações. O então líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi, seu califado (governo islâmico teocrático) em 2014.
Em 2019, porém, o ISIS perdeu seu último reduto no Oriente Médio. Na época, as SDF, com o apoio da coalizão internacional liderada pelos EUA, recuperaram a cidade de Baghuz, e colocaram um fim ao governo autoproclamado do grupo terrorista.
Com isso, a organização jihadista migrou suas atividades para a África, em especial nos países localizados na faixa do Sahel.
Mesmo perdendo influência e territórios na região, o Estado Islâmico continuou atuando na Síria. Em 2024, o país em que o grupo mais atuou, segundo dados do relatório Global Terrorism Index 2025.
Fonte: Metrópoles/Foto: Pictures from History/Universal Images Group via Getty Images


