“O Amazonas enfrenta um quadro crescente de eventos climáticos extremos”, mostra o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026, elaborado pelo Instituto Clima e Sociedade com base em dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil.
De acordo com o relatório, episódios como cheias e secas recordes — registradas, respectivamente, em 2021 e 2024 — tendem a se tornar mais frequentes no estado em razão das mudanças ambientais.
O professor Henrique Pereira, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), que pesquisa o tema na região, corrobora a avaliação. “Observa-se uma tendência de intensificação das ocorrências e de redução do intervalo entre eventos extremos, com destaque para cheias históricas e secas severas”, afirmou.
Segundo o documento, apesar da existência de leis e programas, a implementação de políticas de mitigação ainda enfrenta desafios estruturais. Embora haja previsão de estudos de vulnerabilidade e planos de adaptação, a adesão dos municípios permanece baixa.
Dados do IBGE indicam que o Amazonas tem cerca de 4,156 milhões de habitantes, sendo 55,4% em Manaus e 44,6% no interior.
Nos últimos anos, fenômenos naturais mais intensos têm afetado milhares de pessoas, tanto na capital quanto no interior. Mesmo acostumadas às cheias e secas sazonais, essas populações têm sido surpreendidas pela intensidade dos desastres, que as colocam em situações extremas.
Em períodos de cheia, famílias e comunidades perdem moradias. Já durante secas severas, enfrentam isolamento, dificuldades de transporte e restrições no acesso a alimentos e água potável.
As consequências também são patrimoniais e econômicas. Segundo Henrique Pereira, os impactos das mudanças ambientais provocadas por eventos extremos repercutem diretamente no setor privado do estado, especialmente na produção agrícola.
“Essa dinâmica revela uma mudança estrutural na vulnerabilidade dos setores econômicos, com maior concentração dos impactos nas atividades primárias”, afirmou.
Em 2024, os desastres afetaram 808 mil pessoas no estado, com 78 mil feridos e 33 mil desalojados, além de prejuízos à infraestrutura, aos serviços públicos — como ensino e saúde — e às atividades produtivas.
De acordo com o anuário, a nova realidade exigirá atuação preventiva e integrada, com medidas voltadas à redução de impactos na vida da população, como o combate às queimadas e o fortalecimento da assistência.
Essas ações devem ocorrer dentro de uma estratégia contínua de redução de riscos, com reforço da infraestrutura crítica e aumento da resiliência de cidades, comunidades ribeirinhas e povos indígenas.
Dinâmica recente dos desastres
As inundações, que foram o principal tipo de desastre nos últimos anos, deram lugar, em 2024, à seca e à estiagem, que deixaram 29,3 mil pessoas desabrigadas.
No período, foram registrados 107 desastres, com predominância de estiagens e secas, associadas ao avanço do fogo. Também foram contabilizados eventos como vendavais, erosão e inundações, que atingem áreas urbanas, ribeirinhas e territórios indígenas.
Os danos materiais totalizaram R$ 90,8 milhões, sendo 45% na infraestrutura, 22% no ensino e 19% na saúde. Os prejuízos públicos somaram R$ 139,7 milhões, com maior impacto no ensino (40%), na assistência médica e emergencial (23%) e no abastecimento de água (12%). Já os prejuízos privados alcançaram R$ 456,7 milhões, concentrados na agricultura (72%) e nos serviços (14%).
Segundo Henrique Pereira, entre 2009 e 2023, as inundações representaram 62,4% das 813 ocorrências registradas, seguidas por estiagens e secas (22,9%).
No mesmo período, o número de pessoas afetadas passou de 2.110.595 (2009–2016) para 3.365.866 (2017–2023), um aumento de 59%, indicando maior intensidade e severidade dos eventos.
Em escala municipal, dados da Defesa Civil mostram que, entre 2000 e 2022, Manaus registrou 9.537 alagamentos e 6.575 deslizamentos de terra, o que a coloca entre os municípios mais críticos do país em relação a desastres naturais.
“É provável que, se devidamente contabilizados, esses microdesastres também representem elevados prejuízos econômicos”, afirmou o pesquisador.
Prejuízos e mudança estrutural
Os dados apontam maior impacto no setor público, principalmente em infraestrutura, assistência emergencial e serviços essenciais, com prejuízos acumulados na casa dos bilhões. No setor privado, as perdas também são expressivas, sobretudo na agricultura e no comércio.
Ainda segundo Pereira, embora haja redução no número de estruturas com danos parciais, cresce o total de edificações completamente destruídas, especialmente em áreas essenciais como saúde e educação — o que exige adaptação nas estratégias de prevenção e resposta.
O total de prejuízos materiais acumulados em 15 anos alcançou cerca de R$ 3,66 bilhões. Desse total, R$ 2,981 bilhões (81%) concentram-se entre 2009 e 2016, enquanto R$ 682 milhões (19%) foram registrados entre 2017 e 2023, indicando redução de 77% no valor absoluto.
No entanto, a composição dos danos mudou. A agricultura ampliou sua participação de 41% para 80% dos prejuízos no setor privado. Em sentido oposto, o comércio caiu de 33% para 1%, os serviços de 14% para 1% e a indústria de 1% para 0,2%. A pecuária variou entre 11% e 17%.
O cenário indica uma transformação na vulnerabilidade econômica, com maior concentração dos impactos nas atividades primárias. Enquanto agricultura e pecuária registraram aumento nos prejuízos, os demais setores apresentaram quedas expressivas.
Baixa adesão e desafios
Em 2023, a Assembleia Legislativa do Amazonas aprovou leis que preveem estudos de vulnerabilidade e planos de adaptação, mas a adesão prática dos municípios ainda é incipiente.
Para enchentes e enxurradas, há previsão de elaboração de planos de adaptação e resposta em parceria com os municípios. No entanto, o relatório aponta que a implementação de planos de contingência em todo o estado ainda não foi alcançada.
Segundo Henrique Pereira, os municípios dependem da homologação de desastres pela União para acessar recursos, o que gera dependência, centralização e lentidão burocrática, comprometendo a agilidade das respostas.
Além disso, há limitações orçamentárias e carência de equipes técnicas qualificadas para elaborar e executar planos mais complexos.
Diante desse cenário, especialistas apontam a necessidade de medidas imediatas por parte dos governos estadual e municipais para mitigar os danos. Entre as prioridades estão investimentos em infraestrutura resiliente, implantação de sistemas de alerta precoce, maior integração entre os entes federativos e ampliação de instrumentos financeiros, como seguros agrícolas e mecanismos de proteção contra catástrofes.
Fonte: Amazonas Atual/Foto: Divulgação/Defesa civil
