Facções intensificam ‘escoamento’ de drogas com aeronaves no Amazonas

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O PCC (Primeiro Comando da Capital) e facções menores têm intensificado o uso de aviões e helicópteros para driblar o domínio do CV (Comando Vermelho) sobre os rios da Amazônia. O uso das aeronaves para transportar especialmente cocaína e skunk (espécie de supermaconha) ganhou força primeiro por causa de uma seca na floresta, iniciada há dois anos, e que continua forte.

“A inteligência tem apontado que grande parte da droga que desce pelos rios faz parte do Comando Vermelho”, afirma o secretário de Segurança Pública do Amazonas, Marcus Vinicius de Almeida. “O PCC também usa (os rios para transportar droga), mas ele faz a opção pelo transporte por via aérea”, acrescentou.

Relatório de inteligência da Secretaria da Segurança Pública do Amazonas, obtido pelo Estadão,mostra quase 200 pistas de pouso clandestinas espalhadas pelo Estado. Grande parte delas está em áreas de mata nas regiões sul e leste, nas proximidades de Manaus.

“As pistas clandestinas de aeronaves na Amazônia são um problema significativo e estão diretamente ligadas a atividades ilegais, como tráfico de drogas, garimpo ilegal, contrabando de armas e desmatamento”, cita a Secretaria no documento.

O avanço do tráfico de drogas na Amazônia contribui para impulsionar a degradação ambiental na floresta, com alta do desmate e do garimpo em áreas protegidas.

“Essas pistas são construídas de forma irregular, muitas vezes em áreas remotas e de difícil acesso, permitindo que grupos criminosos operem longe da fiscalização das autoridades”, acrescenta o relatório.

Investigações das forças policiais da região apontam que os carregamentos de cocaína e skunk importados pela facção paulista vêm principalmente do Peru. O Comando Vermelho mantém elo com fornecedores da Colômbia – com origem no Rio de Janeiro, o CV hoje é dominante na Região Norte.

As “encomendas” não só abastecem o mercado local, como são vendidas por cifras milionárias para outros continentes, como Europa e África.

Estimativas de órgãos de investigação indicam que o quilo de cocaína, comprado a cerca U$ 1 mil em países vizinhos na América do Sul, chega a ser vendido por U$ 50 mil em países como Bélgica e Holanda.

‘Consórcios’ do crime

As entregas dos carregamentos normalmente não são feitas por integrantes das facções brasileiras, mas por espécies de “consórcios” firmados com fornecedores de países vizinhos.

Letícia, cidade colombiana na tríplice fronteira com Brasil e Peru, é descrita como um “escritório do crime”, onde os valores e logística são definidos entre as organizações criminosas.

Os relatórios apontam que as aeronaves, normalmente adquiridas de forma ilegal ou com documentos falsos, costumam fazer voos mais baixos para ficar fora do radar e despistar a fiscalização.

“O uso de helicópteros por narcotraficantes no Amazonas é uma tática crescente, ligada ao transporte de drogas e armas em áreas de difícil acesso”, diz o documento da secretaria. Em alguns casos, diferentes modais podem ser combinados para levar a droga até o destino final.

Na segunda-feira (25), as polícias Civil e Militar encontraram um helicóptero caído às margens de um lago de Jutaí, a cerca de 650 quilômetros de Manaus. A hipótese é de que a aeronave tenha se acidentado no fim de semana.

Nos destroços, foram localizados dois tabletes de skunk, com aproximadamente três quilos da droga – ainda não se sabe se outros carregamentos foram retirados do local após o acidente. Ninguém foi preso até o momento.

Em operação no dia 16, a Polícia Civil rastreou um heliponto clandestino na zona rural de Itamarati, a quase mil quilômetros de Manaus. A localização se deu após denúncia anônima de que um helicóptero sobrevoava a região com frequência.

A polícia usou um drone para sobrevoar o local, e identificou o que seria um ponto de apoio logístico e de abastecimento de helicópteros do crime, o que indica uma sofisticada rede logística para o crime. Um homem foi preso em flagrante por desmatamento ambiental e armazenamento irregular de combustível. Alguns galões encontrados por lá foram incinerados.

Apreensão de aeronaves

Ao menos dez aeronaves supostamente usadas pelas facções foram apreendidas desde 2023, segundo a secretaria. Só entre agosto e setembro de 2024, foram dois helicópteros, em operações conjuntas envolvendo Polícia Federal, Força Aérea Brasileira (FAB) e polícias Civil e Militar do Amazonas.

Na primeira delas, as forças policiais localizaram na cidade de Alvarães um helicóptero Robinson R44 Clipper I que seria utilizado por traficantes que atuam na chamada “Rota do Solimões”.

“Foi encontrado também um acampamento com um barracão montado, antena de internet via satélite, placas de energia solar, combustível, gerador de luz e um freezer com comidas”, diz trecho da ocorrência.

A apreensão foi facilitada porque os investigadores seguiram os rastros de um mecânico que se deslocou para o local onde estava a aeronave para fazer reparos – ele foi de lancha pelo Rio Tefé até lá. Ao menos três pessoas foram presas em flagrante.

Na outra, em setembro do ano passado, foram apreendidos cerca de 238 quilos de skank após a FAB identificar uma aeronave sem plano de voo e iniciar o protocolo de abordagem. A carga foi achada após o pouso forçado do helicóptero perto da cidade de Rio Preto da Eva.

Em março, 250 quilos de drogas foram apreendidos com piloto de avião no município de Careiro. Os carregamentos estariam vindo do Peru. Duas aeronaves e um avião monomotor de asa fixa foram inutilizados.

Também foram achadas três pistas de pouso clandestinas do tráfico, conforme a PF, que capitaneou a ação.

Avanço do PCC

“Geralmente (os bandidos) navegam mais na madrugada”, diz o secretário da Segurança do Amazonas. O Solimões é uma das principais rotas onde o CV é dominante.

“Para transportarem a droga pelos rios, eles têm de ter apoio de comunidades ribeirinhas, de pessoas ao longo do caminho dar abrigo para eles na madrugada ou durante o dia”, acrescenta.

Ao mesmo tempo, afirma, o PCC tenta crescer em pontos estratégicos, como Coari (no meio do caminho entre Tabatinga e Manaus), e montar uma rede para transporte aéreo.

“O Comando Vermelho tem mais essa infraestrutura, mas o PCC tenta a todo momento se impor. E a gente tem visto muita aeronave”, relata.

Para enfraquecer o narcotráfico, o governo do Amazonas tem quatro bases arpão distribuídas em pontos estratégicos da malha fluvial. Essas bases são estruturas que funcionam como postos policiais dos rios e auxiliam nas abordagens a embarcações.

Já o combate a aeronaves do tráfico ainda é incipiente. Estados da Amazônia buscam se basear em denúncias e informações de inteligência para desarticular os esquemas.

No ano passado, foram apreendidas 43,25 toneladas de cocaína e maconha no Amazonas. É o recorde da série histórica, com alta de 50% ante 2023.

Neste ano, só de janeiro a julho, foram apreendidas quase 25 toneladas de droga, o que aponta para uma tendência de novo recorde até o fim de 2025.

Seca e ações em Roraima

Autoridades indicam que o emprego de meios aéreos no Amazonas começou a ser mais intensos na tríplice fronteira após operações do governo federal para o combate à exploração de minério em Roraima.

“Esses helicópteros e aeronaves eram usadas lá”, diz Oliveira. “Quando o governo federal intensificou as ações, eles (criminosos) trouxeram essas aeronaves para atuar no Amazonas.”

Desde 2023, o governo federal reforçou o combate ao garimpo ilegal em Roraima, especialmente na área da reserva indígena Yanomami, perto da fronteira com a Venezuela. Além da presença dos criminosos, as comunidades locais sofriam com a desnutrição e a malária.

As fortes secas na Amazônia entre 2023 e 2024 também influenciaram no maior investimento no tráfico de cocaína por vias aéreas. Agora, mesmo com a cheia, a leitura das autoridades é que a prática se mantém.

Com a intensificação das mudanças climáticas, a alternância entre secas severas e cheias acima da média deve ser ficar mais comum.

“Iniciaram por conta da estiagem, mas viram que é mais prático, mais rápido e que estavam perdendo menos”, diz o major Francisco Camurça, coordenador de Inteligência da Secretaria da Segurança amazonense. Ao mesmo tempo, o monitoramento de aviões é mais complexo para as forças estaduais.

*Repórter viajou a convite do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Fonte: Amazonas Atual/Foto: Divulgação/PC-AM

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