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Fake news, deep fake e difamação: como portais de notícias viram arma eleitoral no Amazonas — e quem paga a conta

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Este artigo faz parte de uma série investigativa, e será uma colaboração com o INTERCEPT BRASIL – FONTE DE DENÚNCIAS, sobre o uso de recursos públicos para financiamento de uma rede de difamação e tentativa de interferência no processo democrático.

Durante pouco mais de três meses, nossa equipe se infiltrou em grupos de WhatsApp do estado do Amazonas e acompanhou a articulação para publicações criminosas contra opositores políticos e desafetos. Seguimos o rastro do dinheiro e chegamos aos financiadores das ações de difamação e linchamento moral no estado.

Acompanhe nossa série e descubra o que está por trás dessa “máquina de moer reputações” e quem lucra vendendo difamação em formato jornalístico.

MANAUS — A eleição de 2026 já começou — e parte dela não está sendo disputada nas ruas, nos comícios ou nos programas eleitorais. Está sendo travada em portais de notícias, perfis de redes sociais e grupos de WhatsApp, com uma munição cada vez mais sofisticada e cada vez mais perigosa: o conteúdo fabricado, o deep fake e a narrativa construída para destruir adversários antes mesmo que as urnas sejam abertas.

O fenômeno não é exclusividade do Amazonas. Mas no estado, ele ganhou contornos que merecem atenção — e que já estão chegando ao Judiciário.

 

O que é deep fake e por que ele ameaça a democracia

Deep fake é a manipulação de imagem, voz ou vídeo por meio de inteligência artificial para fazer parecer que uma pessoa disse ou fez algo que jamais aconteceu. A tecnologia evoluiu a ponto de tornar o conteúdo fabricado praticamente indistinguível do real — e o eleitor comum, sem ferramentas de verificação, não tem como saber a diferença.

Nas eleições, o deep fake funciona como uma bomba de fragmentação: não precisa convencer a todos. Basta semear a dúvida, gerar o clique, provocar o compartilhamento. O dano está feito antes mesmo da checagem.

O Tribunal Superior Eleitoral já se moveu. A Resolução TSE nº 23.610, atualizada para o ciclo eleitoral de 2026, enquadra o uso de inteligência artificial para criar ou manipular conteúdo eleitoral de forma enganosa como propaganda eleitoral irregular. As penalidades vão desde a retirada imediata do conteúdo do ar até a abertura de processo por abuso de poder de comunicação — o que pode levar à cassação do registro ou do diploma do candidato beneficiado. Em casos de dolo comprovado, a conduta pode configurar também crime eleitoral, com pena de reclusão de um a cinco anos.

A legislação é clara. O problema é que, enquanto o processo tramita, o estrago já está feito.

 

O modelo amazonense: blogs, influenciadores e portais a serviço da difamação

No Amazonas, investigações e processos judiciais em andamento revelam a existência de uma estrutura articulada de portais de notícias, blogs e influenciadores digitais que, segundo as ações movidas por vítimas, operam de forma coordenada para atacar adversários políticos de grupos com representação no poder local.

O modelo funciona assim: um portal publica uma matéria com informações falsas ou distorcidas sobre um nome político. Os blogs amplificam. Os influenciadores compartilham. O conteúdo viraliza. E quando a vítima consegue uma decisão judicial mandando retirar o material do ar, o ciclo já cumpriu sua função — o dano à reputação já foi entregue ao eleitorado.

Não se trata de jornalismo. Trata-se de uma linha de produção de narrativas encomendadas.

 

O processo de investigação

No início do mês de março de 2026 recebemos a denúncia de um portal de Manaus que oferecia serviços peculiares e “desgaste político” estava no menu principal.

Com provas em mãos, procuramos a maior rede investigativa do Brasil e optamos em não denunciar imediatamente, mas sim, aprofundarmos as investigações e atuarmos como fonte do THE INTERCEPT BRASIL, no que pode ser a ponta do iceberg de um complexo e lucrativo esquema de financiamento de atos antidemocráticos e tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro.

Instruídos, conseguimos nos infiltrar em grupos de WhatsApp do estado e acompanhamos as informações que chegavam por várias vias. Entre links de páginas de Instagram dos alvos, prints e mensagens encaminhadas dos financiadores, acumulamos material para uma longa e esclarecedora série de denúncias.

 

Um portal, quase 500 processos — e condenações documentadas

Um dos portais que acompanhamos nos grupos, acumula 493 processos judiciais — número que, por si só, já deveria ser suficiente para levantar uma questão elementar: o que diferencia um veículo de imprensa de um réu contumaz?

Embora acumulem centenas de processos, apuramos que algumas condenações já saíram do papel.

Em 2025, o portal foi condenado a pagar 5 mil reais por difamação contra o ex-chefe da Casa Civil Flávio Antony; posteriormente, em 2026, uma nova sentença determinou o pagamento de 7 mil reais por difamação contra o vereador e candidato a deputado federal Coronel Rosses (PL) e mais recentemente, neste mês de agosto, a nova vítima do portal foi o ex-vice-governador do Amazonas Tadeu de Souza (PP).

Três condenações. Três reconhecimentos judiciais de que o conteúdo publicado não era informação — era mentira com endereço certo.

A dona do Portal é solicitada nos grupos como uma articuladora capaz de “promover milagres” virando os holofotes da imprensa regional quando as coisas não estão boas para seus aliados e financiadores. A “Dona Cilada”, como é chamada em alguns grupos de jornalistas, é especialista em promover “cortinas de fumaça” e no decorrer da série vamos dedicar um capítulo especial à sua estrutura e suas “habilidades políticas”.

 

Quem paga a conta?

E aqui chegamos à pergunta que vale um milhão de dólares — ou, neste caso, muito dinheiro, (seria esse dinheiro, público?)

Manter uma estrutura com 500 processos ativos exigem advogados. Pagar as condenações exige caixa. Produzir conteúdo de forma contínua e coordenada exige equipe. De onde vem esse dinheiro?

A pergunta não é retórica. Quando uma estrutura de comunicação opera sistematicamente para beneficiários de grupos políticos específicos, atacar seus oponentes e silenciar críticos, o financiamento dessa estrutura se torna uma questão de interesse público — especialmente se houver injeção de recursos públicos, contratos com o poder municipal ou estadual, ou assessorias pagas com verba de gabinete sustentando a operação.

Se for esse o caso, não estamos falando apenas de fake news. Estamos falando de um gabinete do ódio financiado com dinheiro do consumidor — o que configura o uso indevido de recursos do estado e pode enquadrar os envolvidos em crimes administrativos, eleitorais e criminais.

 

O jornalismo que virou produto

Por trás de tudo isso, há uma questão ainda mais profunda: o que acontece quando o jornalismo deixa de ser uma prática e se torna um serviço vendido ao melhor ofertante?

O que acontece quando os “influenciadores” são pagos para induzir pessoas ao erro e interferir no resultado das urnas? E quem são os tais influenciadores do Amazonas que entraram no esquema de “venda de opinião” e cometeram crimes em nome dos contratantes? Em breve teremos um capítulo de nossa série dedicado exclusivamente aos “influencers”.

Pesquisas recentes apontam que a confiança da população brasileira na imprensa está entre as mais baixas das últimas décadas. E não é difícil entender por quê — quando portais são condenados por publicar mentiras e continuam operando normalmente, quando a linha entre matéria jornalística e conteúdo pago desaparece, quando o leitor não consegue mais distinguir informação de narrativa, a instituição inteira paga o preço.

Um portal condenado tantas vezes por difusão não é um veículo de imprensa. É um instrumento. E um instrumento não merece o benefício da contribuição que o jornalismo levou décadas para construir.

 

O que a população pode fazer

Diante desse cenário, algumas práticas elementares de verificação tornam-se indispensáveis:

Antes de compartilhar qualquer conteúdo político, verifique a fonte e pesquise o nome do portal, veja se ele tem histórico de condenações judiciais e se tiver, não acredite e nem compartilhe nada do que foi publicado para não correr o risco de ser arrastado para ações judiciais.

Não aceite ser enganado e tampouco repercuta ou amplifique os crimes de calúnia, injúria e difamação cometidos em troca de dinheiro e cargos em gabinetes, lembre-se, você leitor, é o elo fraco da corrente, porque os financiadores dos portais não pagarão seu advogado para explicar que você apenas compartilhou um conteúdo difamatório por acreditar na veracidade da fonte. Não compactue e não seja cúmplice dos portais criminosos para evitar ser citado nos processos.

Consulte plataformas de verificação como Agência Lupa, Aos Fatos e o próprio serviço de verificação do TSE. Desconfie de vídeos em que políticos dizem coisas fora de contexto ou com movimentos labiais que não batem com o áudio. A forma que os portais deste esquema de venda difamação utilizam a inteligência artificial, para inserir pessoas nas cenas, modificar cenários e gerar vozes, será detalhada em um de nossos episódios da série investigativa.

DENUNCIE! O TSE mantém canal específico para denúncias de desinformação eleitoral. A Justiça Eleitoral tem atuado — e as condenações provam que o sistema funciona quando acionado.

DENUNCIE CLICANDO NO LINK ABAIXO

https://www.tse.jus.br/eleicoes/sistema-de-alertas

 

O papel da imprensa séria e profissional

O que está em jogo não é apenas a confirmação de candidatos ou a disputa eleitoral de 2026. O que está em jogo é a qualidade da informação que chega ao eleitor — e, portanto, a qualidade da própria democracia.

Quando os portais vendem narrativas no lugar de fatos, quando deep fakes substituem discursos reais e quando a difamação se torna estratégia eleitoral financiada por quem deveria servir ao povo, o voto deixa de ser uma escolha livre e passa a ser uma escolha manipulada.

E manipular o voto é manipular a democracia.

A pergunta que fica — e que as autoridades competentes precisam responder é: quem está pagando por isso?

Nós descobrimos…

Este foi o primeiro artigo de uma série investigativa sobre o esquema de venda de difamação e desgaste político nas eleições de 2026.

Se desejar denunciar fake News e souber informações sobre o financiamento de sites, blogs, portais de notícias e influenciadores, entre em contato pelo e-mail e colabore com nossa investigação, garantimos o sigilo total da fonte:

contatonoticiasgeraisdobrasil@gmail.com

 

 

 

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Last Updated on 25 de agosto de 2026 by Mara Noronha