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Futurismo no deserto: Arábia Saudita projeta cidade de ficção científica e quer fazer Copa do Mundo mais luxuosa da história

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A Arábia Saudita está determinada a adquirir tudo, desde empresas até os melhores jogadores de futebol do planeta. Essa nação islâmica, localizada em grande parte da península arábica e banhada pelas tranquilas águas do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho, é a maior exportadora mundial de petróleo e possui, há décadas, as principais reservas globais do recurso.

A família real saudita, que governa essa monarquia absoluta, acompanhou de perto as experiências de pequenos emirados vizinhos, como Catar, Abu Dhabi e Dubai, e lançou-se com todo o poder de sua carteira recheada para diversificar a economia, abrir-se ao capital estrangeiro e conceber um projeto sustentável para além do petróleo.

O poderoso rei Salman bin Abdulaziz surpreendeu seus súditos em 2015 ao nomear como herdeiro do trono seu sétimo filho, Mohammed bin Salman, então com apenas 32 anos. O príncipe assumiu com a mesma mão de ferro do pai, mas iniciou um ambicioso projeto de reformas que vai desde inovações tecnológicas até iniciativas faraônicas que beiram a ficção científica. Uma delas será a Copa do Mundo de 2034.

Oito anos atrás, ele apresentou o Visão 2030, um projeto que estabeleceu bases para reduzir subsídios estatais (em um país onde tudo depende do governo), criar um fundo soberano de investimentos financiado pelos dólares do petróleo e abrir ao capital privado a gigante de petróleo Aramco, além de promover uma série de reformas em diversas indústrias.

O fundo de investimentos saudita, segundo estimativas, possui um orçamento superior a US$ 900 bilhões. É por meio desse instrumento que o reino executa e financia suas ambições. O fundo soberano aposta em setores como energias renováveis, turismo, indústria armamentista, inteligência artificial, saúde, educação, esportes e ciência, com o objetivo de posicionar a Arábia Saudita como líder global em cada área.

Fervor de negócios

Os corredores do imenso complexo hoteleiro da rede Hilton em Riad, capital do país, são um constante vaivém de empresários de todo o mundo, que se instalaram no coração do Oriente Médio para fechar contratos milionários com o reino.

O plano de diversificação implementado pelo príncipe herdeiro inclui não apenas a modernização do país, mas também a compra de ativos em várias partes do mundo: Europa, Índia, China, Estados Unidos e, mais recentemente, América do Sul. O Brasil é o maior parceiro comercial na região (ambos fazem parte dos BRICS), embora a Argentina comece a olhar com interesse para os investimentos sauditas.

No mês passado, em um fórum chamado de “Davos do deserto”, Yasir Al-Rumayyan, responsável pelo fundo soberano e homem de confiança do príncipe, anunciou que o foco de investimentos será mais direcionado à economia nacional, com menos ênfase em aplicações internacionais.

Enquanto isso, o ministro de Investimentos, Khalid al-Falih, informou que o número de empresas estrangeiras com sede na Arábia Saudita chegou a 540 neste ano, superando a meta de 500 estabelecida para 2030.

Transformações visíveis

As mudanças já são perceptíveis em cidades como Riad e Jidá, a segunda maior do país, localizada às margens do Mar Vermelho. Riad, erguida sobre um vasto deserto sem água, abriga hoje 8 milhões de habitantes. Uma sofisticada rede de tubulações de água dessalinizada percorre mais de 500 quilômetros do Golfo Pérsico para abastecer a população e a crescente indústria. Um moderno monotrilho, ainda em fase de testes, serpenteia vazio pela cidade entre arranha-céus e quarteirões inteiros de edifícios residenciais que surgem da noite para o dia.

O Kingdom Centre, um imponente edifício de vidro, simboliza o progresso do país. Projetos ainda maiores estão em andamento, como o edifício mais alto do mundo, com 2 km de altura, planejado pelo renomado arquiteto britânico Norman Foster.

Além disso, o país planeja o Mukaab, um gigantesco cubo de 400 metros de altura, comprimento e largura, que será 20 vezes maior que o Empire State Building, em Nova York.

Entre os destaques, está Neom, uma cidade futurista que se estenderá por 170 km, com dois arranha-céus paralelos cobertos de espelhos, projetada como uma metrópole ecológica sem carros, onde se espera que vivam 9 milhões de pessoas até 2045.

O Mundial mais extravagante

A Arábia Saudita garantiu o direito de sediar a Copa do Mundo de 2034, prometendo uma edição grandiosa, com 15 estádios espalhados pelo país e o maior estádio do mundo, o Rei Salman, com capacidade para 92 mil pessoas.

Também abrigará centros de treinamento, 16 aeroportos internacionais e até uma arena dentro dos arranha-céus de Neom.

Mudanças sociais e controvérsias

Embora a abertura econômica seja inegável, questões como direitos das mulheres e da comunidade LGBTIQ+ ainda suscitam críticas internacionais. Embora as autoridades tenham promovido o futebol feminino e flexibilizado algumas regras, a sociedade saudita permanece longe dos padrões democráticos ocidentais.

Frente às críticas, as autoridades incentivam visitas ao país como forma de mostrar os avanços.

– A melhor maneira de entender o que somos é vir e nos conhecer pessoalmente – defende Hammad Albalawi, líder do comitê do Mundial 2034.

Contratos milionários e estrelas brilhantes

Nas noites sauditas, a paixão pelo futebol é evidente. O King Abdullah Stadium, com capacidade para 62 mil espectadores, reflete essa aposta séria no esporte. Inaugurado há uma década, é um dos principais palcos da liga saudita, que vem recebendo investimentos massivos para se transformar em um torneio de elite.

Clubes como Al-Ittihad, Al-Ahli, Al-Nassr e Al-Hilal receberam milhões do fundo soberano para contratar estrelas do futebol mundial. O português Cristiano Ronaldo, agora no Al-Nassr, foi a contratação mais emblemática.

Os sauditas também tentaram atrair Lionel Messi, que acabou optando pelo Inter Miami, apesar de ofertas astronômicas do Oriente Médio. Ainda assim, o país continua mirando grandes nomes do esporte para reforçar sua liga, com planos de colocá-la entre as 10 melhores do mundo até 2030 e, futuramente, entre as cinco principais competições globais.

Além do futebol, o fundo soberano saudita tem ampliado sua influência em outros esportes. O reino investiu mais de US$ 6 bilhões em dois anos para atrair competições e atletas de alto nível. Exemplos incluem a criação de um circuito de golfe rival ao PGA Tour, investimentos na Fórmula 1, patrocínio ao Aston Martin e a realização do Rali Dakar no deserto saudita. Boxe, tênis, MMA e até esportes de inverno, como os Jogos Asiáticos de 2029, já foram contemplados pela visão ambiciosa do príncipe Mohammed bin Salman.

Desafios e críticas

Apesar das inegáveis conquistas econômicas e esportivas, a Arábia Saudita continua sob o escrutínio internacional devido às suas políticas de direitos humanos. As mulheres sauditas, que até pouco tempo não podiam dirigir ou frequentar certos espaços públicos sem um acompanhante masculino, têm visto algumas melhorias, como maior presença em eventos esportivos e a introdução do futebol feminino. No entanto, questões como liberdade de expressão, direitos LGBTQIA+ e a repressão política permanecem áreas sensíveis.

As autoridades sauditas frequentemente respondem a essas críticas com otimismo, destacando as mudanças em curso.

– Estamos construindo um futuro brilhante. Queremos que o mundo veja o que a Arábia Saudita tem a oferecer, do esporte à tecnologia, passando pela cultura e inovação – argumenta Albalawi.

Uma nova era para a Arábia Saudita?

A Arábia Saudita está se transformando em um polo de inovação, entretenimento e investimentos. Com projetos faraônicos como Neom, a Copa do Mundo de 2034 e um crescimento econômico baseado em diversificação, o reino está determinado a se posicionar como um líder global.

Porém, o sucesso dessas iniciativas dependerá de sua capacidade de equilibrar modernização econômica com pressões por mudanças sociais e maior abertura política. Enquanto isso, o mundo observa de perto como essa nação rica em petróleo e ambições busca reescrever seu lugar na história.

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