A enchente e a vazante são dois fenômenos fixos no calendário fluvial do Amazonas. Se na enchente temos casas inundadas pelas águas, deixando a população ribeirinha sem moradia; na vazante a falta dela provoca isolamento desta população, que depende do curso dos rios para ter acesso à alimentação, água potável e serviços básicos.
Um fato curioso é que nestes dois períodos do ano se faz presente um velho problema que parece cada vez mais difícil de ser resolvido: o lixo.
Segundo o líder comunitário Erasmo Amazonas, o problema do lixo nos igarapés e nos cursos dos rios é um problema que nem sempre é tratado com a devida importância.
“É um problema importante. O lixo aqui em Manaus sempre foi tratado com pouca importância. A operação de limpeza de igarapés não é feita de forma adequada. Acaba sendo uma espécie de ‘enxuga-gelo’. Ou seja, limpa hoje e está suja amanhã”, contou o líder comunitário do bairro Educandos, na zona Sul da capital.
Para Erasmo, é preciso ter mais políticas públicas eficientes que fortaleçam ações de limpeza nos igarapés e que esta limpeza seja fiscalizada. As autoridades precisam ter uma sensibilidade maior com a questão ambiental dos rios.
“Os problemas da sujeira nos igarapés, a falta de consciência da população associada à gestão pública, uma fiscalização pífia e principalmente uma falta de sensibilidade da administração pública são alguns dos fatores que acentuam a presença de lixo nos rios. Quando o rio voltar a subir teremos dois lixos no rio Negro: o pesado que fica depositado no leito e o lixo flutuante que é o isopor, sacolas plásticas, garrafas PETs, por exemplo”, alertou Eramos Amazonas.
Conscientização ambiental
O líder comunitário aproveitou o momento para destacar um projeto de sua autoria que visa reduzir a degradação dos igarapés em Manaus, pois segundo Erasmo, é preciso resolver o problema em sua origem.
“Eu elaborei um projeto que espero que chegue ao poder público. No meu projeto consigo evitar que o lixo chegue na bacia. Ele ficaria retido em telas, ao longo do Igarapé do 40 e Igarapé do Mindu. Ele vai ser de fácil recolhimento pois quando chega na bacia, aí não tem mais jeito. Precisamos chamar atenção do Ministério Público e órgãos de controle para que se observe com lente de aumento essa questão”, descreveu Erasmo.
Recorde
A poucos centímetros de Manaus registrar a maior seca histórica do rio Negro, Erasmo ressaltou que eventos como estes serão cada vez mais frequentes. Vale ressaltar que em 2021, o rio Negro atingiu a maior cheia de todos os tempos alcançando a cota de 30,02 metros. Agora em 2023, a maior seca já registrada, que foi de 13,63 no ano de 2010, já está quase perdendo a posição.
Até essa sexta-feira, o nível do rio Negro desceu mais 13 cm e chegou à marcar de 13,91m. Uma diferença de 28cm em relação a maior vazante da história.
Dados históricos
Baseado em dados históridos, registrados na régua do Porto de Manaus, nos últimos anos, o nível do rio Negro começava a estabilizar entre os dias 20 e 31 de outubro, quando iniciava o processo de enchente, salvo um ano ou outro na qual o rio descia até novembro.
No ano da maior vazante, em 2010, a marca histórica de 13,63m aconteceu no dia 24 de outubro. Em seguida estabilizou e começou a encher.
Nos últimos dez anos, em nenhum período, o rio Negro parou de descer antes do dia 20. Portanto, a possibilidade de 2023 acontecer a maior vazante em Manaus é cada dia maior, podendo se concretizar na próxima segunda ou terça-feira.

Foto: Jeiza Russo
*A crítica


