A Marinha do Brasil lançara ao mar, nesta quarta-feira, no Complexo Naval e Industrial de Itaguaí (CNI), o novo submarino Tonelero (S42), um dos quatro movidos a propulsão diesel-elétrica previstos no Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), fruto de uma parceria entre Brasil e França firmada em 2008. Na cerimônia de batismo, estarão presentes o presidente Lula e o presidente francês Emmanuel Macron, em visita oficial ao país. A primeira-dama Janja será a madrinha da embarcação, que iniciará uma fase de teste e, futuramente, terá mísseis, torpedos e dispositivos de guerra eletrônica em seu arsenal.
O Tonelero é equipado com seis tubos de armas capazes de lançar torpedos, mísseis antinavio e minas. O Sistema de Combate do submarino tem ainda sensores acústicos, eletro-ópticos e óticos, além de dispositivos de guerra eletrônica. Segundo a Marinha, o submarino é capaz de “integrar e gerenciar” esses sensores e armas para “permitir efetiva compilação de quadro tático e emprego de armamento”.
O Prosub prevê a transferência de tecnologia francesa para a construção de embarcações nacionais. Por isso, o Tonelero guarda semelhanças com os submarinos da classe Scorpène. O modelo brasileiro, no entanto, é maior que o francês, tendo 71 metros de comprimento e um deslocamento submerso de 1.870 toneladas. Dotado de quatro motores a diesel e um elétrico, ele tem uma autonomia de mais de 70 dias, podendo atingir mais de 250 metros de profundidade. A tripulação do Tonelero será composta de oito oficiais e 27 praças, totalizando 35 militares.
Apesar da cerimônia, a entrega do submarino, prevista inicialmente para 2020, não ocorrerá agora. Lançado ao mar, o Tonelero ainda deverá passar por uma fase de testes nas águas de Itaguaí para avaliar sistemas de combate e navegação, bem como a sua estabilidade no mar, antes de ser incorporado à Marinha.
Seguindo uma tradição naval, a primeira-dama Janja será a madrinha do submarino no evento desta quarta-feira. Em dezembro de 2018, no lançamento ao mar do Riachuelo, a ex-primeira-dama Marcela Temer cumpriu o mesmo papel, assim como, em 2020, fez Adelaide Chaves Azevedo e Silva, mulher do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo.
Cerca de R$ 40 bilhões já foram gastos no Prosub desde que o acordo entre França e Brasil foi feito. Outros dois submarino movidos a energia diesel e elétrica já foram concluídos e entregues: o Humaitá, em janeiro deste ano, e o Riachuelo, incorporado à esquadra da Marinha em setembro de 2022. O último desses novos submarinos convencionais é o Angostura, ainda em fabricação. No entanto, a principal embarcação militar desenvolvida dentro do programa é o Álvaro Alberto, o submarino de propulsão nuclear da Marinha, previsto para ser concluído no final da década, após diversos atrasos.
— É possível utilizá-los (os submarinos convencionais) em patrulhas, normalmente são mais silenciosos e furtivos. Entretanto, necessitam de emergir para o carregamento das baterias, reduzindo a sua autonomia e alcance operacional. Já os submarinos de propulsão nuclear possuem maior autonomia, podem submergir em águas mais profundas e ampliam o horizonte do emprego estratégico desse armamento — explica o professor Augusto Teixeira, do curso de Relações Internacionais da UFPB.
No momento, apenas seis países detém a tecnologia de propulsão nuclear: Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Reino Unido e França. A Austrália deverá ser o próximo a entrar nesse seleto grupo através de uma aliança feita com Reino Unido e EUA, em um raro caso de transferência da tecnologia nuclear, segundo Teixeira. Em comparação, a parceria entre França e o Brasil mostra-se mais restrita:
— Apesar da cooperação com a França, existem limites claros em relação às tecnologias que o Brasil tem acesso. No caso do submarino de propulsão nuclear, muito da cooperação consiste em conhecimentos sobre o casco, mas não sobre a miniaturização do reator, por exemplo. Assim, a Marinha tem, além da questão orçamentária, o desafio de dar saltos tecnológicos no contexto de uma base industrial de defesa devastada pela crise econômica da década passada — diz o professor, que também é coordenador do Grupos de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional (GEESI).
A Marinha justifica o investimento bilionário na nova frota de submarinos como um meio de garantir o que chamam de “negação do uso do mar” — ou seja, a proteção dos mares brasileiros de forças inimigas, segundo a Estratégia Nacional de Defesa (END) de 2020. O objetivo é a proteção da chamada Amazônia Azul, área de 5,7 milhões de km² que inclui o mar territorial e a Zona Econômica Exclusiva do Brasil. Segundo Teixeira, a frota de submarinos nacional é pequena se comparada a de países com uma costa extensa como a brasileira — caso dos EUA, China e Índia.
Marcado por atrasos, o Prosub implica em uma concentração de recursos que pode prejudicar outros elementos da esquadra brasileira, caso dos navios, na avaliação do professor:
— Os atrasos na entrega dos submarinos no Brasil, sejam os convencionais como o de propulsão nuclear, se devem tanto a questões orçamentárias como aos desafios tecnológicos. No Prosub, a Marinha e instituições correlatas criaram estruturas físicas, empresas e formaram pessoal para o Projeto. Tudo isso envolve recursos, tempo e prioridades. No contexto de um orçamento de defesa em que mais de 90% vai para pagamento de pessoal, os recursos para investimento e custeio são parcos diante da grandiosidade do objetivo.
Se for concluído, o programa Prosub deixará o Brasil com a maior força de submarinos da América do Sul. A vizinha Argentina, por exemplo, tem apenas duas embarcações do tipo. A Venezuela, por sua vez, conta com apenas um submarino em sua frota, que não se encontra operacional. No momento com 5 submarinos, o Brasil rivaliza com Chile (4) e Peru (6).
— Os demais países mantidos constantes e o Brasil não descomissionando submarinos, com o final do Prosub o Brasil terá a maior força de submarinos da América do Sul. Com a conclusão do “Álvaro Alberto”, a tendência é que fiquemos ainda mais à frente não apenas em relação a números, mas em meios mais modernos — pontua Teixeira.
Origem do nome
O Tonelero faz menção a uma ação naval concluída pela Marinha Imperial durante a Guerra do Prata, ocorrida entre 1851 e 1852. Na operação, as embarcações da esquadra brasileira atravessaram, sob fogo do Exército da Confederação Argentina, o Passo de Tonelero, levando tropas brasileiras até a província de Entre-Rios, onde desembarcaram.
O S42, no entanto, não é o primeiro a levar esse nome. Em 2000, o Tonelero S-2, de fabricação britânica, foi palco de um dos mais graves acidentes em um submarino da história do Brasil. Fundeado no cais do arsenal da Marinha do Rio, ele estava passando por reparos quando sofreu com um alagamento causado por falhas em válvulas do sistema hidráulico. O submarino, na época avaliado em US$ 150 milhões, foi a pique, mas os nove militares em seu interior conseguiram escapar. Içado e trazido de volta à superfície, acabou aposentado.
Os demais submarinos convencionais desenvolvidos no Prosub levam também nomes de batalhas e ações navais importantes. O Riachuelo, por exemplo, tem o mesmo nome de um afluente do rio Paraná, na província de Corrientes, na Argentina. Em 1865, o local foi palco de um conflito decisivo na Guerra do Paraguai, vencido pelas forças brasileiras. Outra operação naval, que levou à captura da fortaleza paraguaia do Humaitá, batizou o submarino incorporado à Marinha em janeiro.
Fonte: O Globo/Foto: Divulgação Marinha




