Se você já percebeu que os morangos estão com tamanho mais uniforme nas bandejas expostas em feiras e supermercados, não é coincidência. Desde fevereiro de 2026, a portaria nº 886/2026 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) passou a exigir a padronização do fruto, obrigando produtores a se adequarem a regras específicas de classificação e apresentação comercial.
A norma incorpora ao Brasil um regulamento técnico do Mercosul que define critérios de identidade e qualidade do morango destinado ao consumo in natura.
Entre os principais pontos está a classificação por calibre, baseada no diâmetro do morango. Pela regra, ele passa a ser dividido em três faixas: menores que 20 milímetros, entre 20 e 30 milímetros e maiores que 30 milímetros.
Na prática, isso significa que cada bandeja deve reunir morangos de tamanho semelhante. A regulamentação também estabelece limites de variação dentro da embalagem e prevê tolerâncias para pequenas diferenças.
Além do tamanho, o regulamento também estabelece categorias de qualidade para o morango, como Extra, Categoria I e Categoria II, definidas pela presença de defeitos. Problemas graves, como podridão, fruto passado ou imaturo, têm limites máximos por lote. Já falhas leves, como ausência de pedúnculo ou deformações, entram na avaliação.
A portaria ainda define regras para embalagem e rotulagem: as bandejas devem informar identificação do produto, responsável pelo envase, lote, país de origem, além do calibre e da categoria do morango.
O que pensam os produtores?
Em Rancho Queimado, município de Santa Catarina reconhecido como a Capital Catarinense do Morango desde 2001, a nova regulamentação divide opiniões. Para alguns, a medida publicada em 20 de fevereiro pode aumentar os custos e tornar o processo de embalagem mais demorado. Para outros, representa um avanço na padronização e comercialização do fruto.
É o caso de Silvano José Theisges, proprietário do Foca Haus Colhe e Pague. Em entrevista à Globo Rural, o agricultor diz que vê o cenário com preocupação diante das mudanças exigidas.
“Quem inventou essa portaria não tem ideia do que é produzir e embalar morango. Vai ficar bem mais caro, vai demorar mais, tem produtor que vai ter que diminuir a produção porque vai demorar mais para embalar. Mão de obra, que já não tem, vai ficar bem mais difícil. A pessoa que inventou isso aí não tem ideia do quão difícil é a produção”.
Embora não comercialize morango em bandeja, ele acompanha de perto o temor de outros produtores da região. Em sua propriedade, a produção anual gira em torno de 8 toneladas e é destinada, principalmente, ao sistema ‘colhe e pague’. O excedente é congelado e vendido.
Para ele, os agricultores que dependem da comercialização em supermercados ou feiras tendem a sentir mais os impactos, principalmente pelo aumento no tempo de separação e distribuição na embalagem.
Assim como Silvano Theisges, produtores em outros pólos de Santa Catarina compartilham a mesma opinião e estão cautelosos diante dos possíveis impactos financeiros e operacionais da medida, como Karine Duarte Rosa França, de Curitibanos (SC), que tem produção anual de 30 toneladas.
“O aumento do custo fica na bandeja, que vai precisar mudar. Para quem tem estoque de etiquetas guardadas, será necessário fazer uma versão adicional ou produzir novas. E outra coisa, como são seleções com critérios bem específicos, é preciso mais mão de obra para a classificação, pois não há possibilidade de mecanizar”.
A produtora completa que a separação por calibre exigirá mais tempo e cuidado na etapa de embalagem, representando um desafio a mais para as empresas. Além disso, acredita que os morangos menores tendem a enfrentar dificuldades de aceitação no mercado de fruta fresca.
“Deve virar refugo ou ir para a indústria, já que os consumidores preferem os maiores para consumo mesmo tendo os mesmos nutrientes. Eu falo isso com propriedade”.
Olhar diferente
Vanessa Plein Arenhardt, de Rancho Queimado (SC), colhe cerca de 8 toneladas de morango por ano. A produtora avalia a medida sob outra perspectiva. Segundo ela, a empresa familiar já trabalha com uma classificação informal, especialmente para diferenciar os morangos considerados mais nobres. Outro ponto destacado são os benefícios da padronização para o consumidor e os setores que utilizam o morango como matéria-prima.
“Eu vejo que isso é bom para quem compra, porque encontra na bandeja morangos do mesmo tamanho, sejam pequenos, médios ou grandes. Todo mundo quer isso. E como nós temos um café colonial, usamos lá os morangos pequenos que ficam fora do padrão”.
A produtora acredita que existe uma interpretação equivocada no setor de que a nova regulamentação impediria a comercialização de frutos menores.
“Eu acho que muitos receberam mal essa notícia porque entendem que o morango pequeno não pode mais ser vendido, e não é isso. Cada bandeja deve ter um tamanho uniforme. A ideia é ter uma bandeja com morangos grandes, outra com médios e outra com pequenos. Na confeitaria, por exemplo, muitos procuram os menores e bonitos para finalizar doces finos, bolos e sobremesas”.
A agricultora acrescenta que não vê a portaria com preocupação neste momento. O desafio está na concorrência com os morangos importados da China e do Egito.
“Eles chegam ao Brasil por um valor muito baixo, em torno de R$ 6,50, sendo que o custo de produção do morango brasileiro exige um preço mínimo de R$ 10 para compensar. Isso gera uma concorrência desigual”.
Ampliação do debate
As críticas à regulamentação não se limitam ao campo. Em Brasília, parlamentares também demonstraram descontentamento. O deputado federal Daniel Freitas (PL-SC), por exemplo, integrante da Frente Parlamentar Mista do Agronegócio e Agricultura Familiar (FPAF), protocolou um Projeto de Decreto Legislativo (PDL) para sustar a portaria.
A mudança, de acordo com ele, dificulta o trabalho dos produtores de morango, especialmente da agricultura familiar, ao exigir investimentos em equipamentos de seleção, novas embalagens e mão de obra adicional.
“As ‘medidas milimétricas’ impostas pela Portaria nº 886/2026 representam não uma evolução, mas uma ameaça concreta à sobrevivência econômica”.
Em contato com a assessoria do deputado, a Globo Rural foi informada de que o PDL segue parado na Câmara dos Deputados aguardando despacho do presidente da casa.
Fonte: Globo Rural/Foto: Canva/Creative Commons
