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Preso por agredir esposa, Ivo Kos buscou Master antes de fraude milionária

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Preso por agredir brutalmente a esposa em 14 de agosto, o empresário Ivo Kos, de 48 anos, procurou o Banco Master para integrar uma operação que mais tarde daria origem a uma investigação por fraude milionária na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), como mostram mensagens obtidas exclusivamente pelo Metrópoles.

O esquema, instrumentalizado pela securitizadora Virgo, da qual Kos é dono, envolveu o desvio de fundos de reserva de dezenas de emissões para simular a captação do título e enganar investidores.

Daniel Vorcaro, dono do Master preso pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero, não é citado nas mensagens. O diálogo, entre Ivo e Eduardo Levy, ex-diretor de distribuição da Virgo, demonstra que o Master não aceitou integrar a operação, que até então tinha caráter lícito.

“Se qyiser o pessoal da EXA fala c ele! Master ta saindo [sic]”, disse Kos em mensagem enviada a Levy em 15 de maio do ano passado, em referência à gestora e assessora financeira Exa Capital Asset.

Master recusou integrar operação

Kos e Levy procuraram o Banco Master e diversas gestoras de mercado para vender e distribuir a primeira série do CRI BTS BH – Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) emitido em uma operação de build-to-suit (BTS), cuja devedora é a Castelo Byblos Participações S.A.. Além disso, tem a Cedro Participações como coobrigada e a Terra Investimentos como coordenadora líder da oferta.

Os títulos da série tinham valor de compra de R$ 130 milhões, de um projeto total de R$ 390 milhões, e os recursos seriam destinados à construção de um imóvel para o grupo Oncoclínicas em Belo Horizonte (Minas Gerais).

A Virgo assinou um contrato com a Castelo Byblos garantindo a captação integral dos recursos, mas o mercado considerou de alto risco a operação que envolveu a Oncoclínicas e a Cedro Participações. Nenhuma instituição financeira aceitou comprar o título, inclusive o Banco Master.

Na época, Vorcaro já estava em negociações avançadas para vender o Master ao Banco Regional de Brasília (BRB). A negociação foi mais tarde vetada pela Justiça.

Operação circular

Uma apuração feita pela CVM mostrou que a tentativa de financiar o empreendimento da Oncoclínicas via mercado de capitais foi frustrada. Por isso, a operação acabou inteiramente cancelada. Como alternativa, a Virgo vendeu os R$ 130 milhões em títulos ao fundo de investimentos Allocation, da qual a securitizadora era a única cotista.

O dinheiro, no entanto, não saiu do caixa próprio da securitizadora, mas sim dos fundos de reserva de 76 patrimônios separados de outros CRIs e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) de terceiros que a Virgo administrava fiduciariamente.

Gestoras descobriram os desvios e exigiram os recursos de volta com CDI. Como a Virgo não conseguia mais obter recursos de novos patrimônios de terceiros para pagar as gestoras, usou o dinheiro da própria obra para pagar os saques do fundo.

A cúpula da Virgo realizou quatro aportes, entre 1º e 21 de agosto do ano passado, que somaram R$ 55 milhões, retirando o dinheiro diretamente do fundo de obras do próprio CRI BTS BH e aplicando no fundo de investimentos.

Com os repasses, os diretores criaram uma operação circular, e o CRI passou a ter um crédito contra si mesmo. Segundo a CVM, cerca de 40% do valor supostamente captado para a obra sequer existia.

 

“Se der ruim pra mim, seu nome tá limpo”

Kos tinha conhecimento da ilegalidade que estava cometendo. Em uma mensagem enviada a Levy em 19 de maio do ano passado, o empresário disse: “Se der ruim pra mim seu nome ta limpo pra continuar tocando [sic]”.

A conversa ocorreu enquanto os dois abriam o Fundo Allocation na BRL Trust, especializada na administração e gestão fiduciária de fundos de investimento. A instituição apontou que Levy ainda não tinha poderes formais de representação estatutária para assinar pela securitizadora, o que gerou preocupação.

Em resposta ao associado, Kos tentou tranquilizá-lo. “Rlx. Tô rlx. Vc eh head de IB [Investment Banking]. Nao quero problemas. Assinei o documento com você”, disse.

 

Em outra mensagem, Kos demonstrou objetivo de obter benefício econômico para si próprio, na mesma proporção dos riscos que estava assumindo. “To tomando um risco MAMUTE nisso. Vou querer uma parte grande no fee”, disse, em referência às comissões de estruturação e distribuição da operação

A CVM calculou que essas poderiam render mais de R$ 17 milhões à Virgo. A securitizadora recebeu quase R$ 5 milhões com a venda da 1ª série do CRI BTS BH.

Em 14 de junho do ano passado, um dia após uma gestora exigir a devolução de valores desviados, Kos informou ter colocado R$ 1 milhão do caixa da própria empresa no fundo: “Botei $ do nosso caixa no fdo do BTS [sic]”. Para a CVM, o fato de o empresário destacar o uso do caixa próprio como um fato extraordinário comprova que o padrão da operação era a utilização indevida de recursos dos patrimônios separados de investidores.

Para a CVM, a troca de mensagens configura um dos principais pilares de prova do Processo Administrativo Sancionador. A área técnica da comissão destacou que as comunicações demonstram receio de exposição das ações, o que é incompatível com qualquer operação financeira regular. A partir das provas, a comissão concluiu que Kos tinha plena ciência da ilicitude e agiu com má-fé e dolo.

Convocado a prestar depoimento em outubro o ano passado, Ivo Kos exerceu o direito constitucional de permanecer em silêncio, e se recusou a responder às perguntas da fiscalização.

De diretor a delator

Eduardo Levy ingressou no Grupo Virgo em janeiro do ano passado para liderar a área de Investment Banking (IB) e novos negócios. Quando o mercado recusou o CRI BTS BH, em maio, a cúpula anterior da empresa foi alterada, e ele foi eleito Diretor de Distribuição, enquanto Ivo Kos passou a ocupar a presidência.

Durante o período em que esteve no cargo, Levy assinou documentos de constituição do Fundo Allocation e aprovou alocações em sistemas financeiros internos. Tudo corria na surdina até julho, quando as gestoras identificaram os desvios e enviaram notificações extrajudiciais cobrando a devolução dos valores.

Em 8 de julho de 2025, Levy rompeu com Ivo Kos e formalizou sua renúncia. Após deixar o cargo, o ex-diretor apresentou uma denúncia formal à CVM. Por ter deixado a securitizadora nessa época, a comissão destacou que ele não participou das etapas posteriores, como a manobra de investimento circular de R$ 55 milhões ocorrida em agosto.

Investigados pela CVM e pelo MPF

As mensagens privadas que fortalecem os indícios de irregularidades por parte de Kos foram compartilhadas espontaneamente por Levy com a CVM. Apesar disso, ele ainda é alvo da investigação, e responde pelas irregularidades ocorridas durante o período em que integrou a diretoria (imputadas a 39 das 76 emissões afetadas).

Outro alvo da apuração é Alexandre João da Rocha, ex-gerente de IB da Virgo que assumiu o cargo de diretor de compliance em meio às mudanças de maio do ano passado. Ele responde por operacionalizar a abertura do fundo, aprovar e solicitar resgates, falta de independência no cargo de compliance e ausência de controles internos.

Kos, por sua vez, responde por má-fé, descumprimento dos termos de securitização em 76 emissões, realização de operação fraudulenta, investimento circular e abuso do poder de controle.

Em julho deste ano, o Comitê de Termo de Compromisso (CTC) da CVM recusou o acordo proposto por Ivo Kos e diretores. Veja as ofertas recusadas:

  • Kos propôs pagar R$ 700 mil, além de não possuir participação acionária superior a 30% em companhias securitizadoras por três anos e não exercer cargos de administração em companhias abertas pelo mesmo período;
  • Alexandre João da Rocha segeriu pagar R$ 700 mil, além de ficar proibido de exercer cargo de diretor de controles internos em entidades registradas na CVM por três anos e outros cargos de administração por dois anos;
  • Eduardo Levy propôs pagar R$ 64.114,85, valor correspondente aos dividendos que recebeu no mês adicional em que permaneceu na empresa, além de não trabalhar em securitizadoras por 12 meses;
  • A Riza Securitizadora, atual denominação da Virgo, sugeriu o pagamento de R$ 1,35 milhão (após elevar a proposta inicial de R$ 600 mil) e apresentar documentação comprovando o aprimoramento dos controles e processos internos.

O CTC concluiu que o encerramento consensual não se afigurava conveniente nem oportuno e destacou a gravidade extrema dos fatos. Com o objetivo de desestimular práticas semelhantes no mercado financeiro, o comitê apontou pretender punir que forma que gere “efeito pedagógico e exemplar”.

A comissão encaminhou uma representação criminal ao Ministério Público Federal (MPF) que, ao ser contatado pelo Metrópoles, disse apurar o caso de maneira sigilosa. A reportagem não localizou a defesa de Kos, Levy ou Rocha. O espaço segue aberto para manifestações.

Preso por agredir a esposa

  • Kos foi preso em flagrante em 14 de agosto deste ano após agredir brutalmente a esposa, a cirurgiã dentista Giullia Kos, de 27 anos, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. A vítima ficou com o rosto desfigurado.
  • À polícia, Giullia contou que havia saído para jantar com o marido e um casal de clientes dele. Na volta para casa, os dois discutiram e Ivo teria desferido socos contra ela, ainda dentro do carro.
  • Ao chegar na rua onde os dois moram, a mulher se negou a entrar em casa, mas foi puxada por Kos, que teve a ajuda de um segurança da rua para colocá-la para dentro do imóvel.
  • No relato, Giullia diz que as agressões continuaram dentro da residência, com Ivo usando um taco de beisebol para golpeá-la na mão.
  • Giullia afirmou à polícia que Kos a ameaçou com um taser e pegou o celular dela, dizendo também que iria matá-la caso ela saísse para a rua.
  • A mulher pediu medida protetiva contra o marido. Ele segue preso preventivamente após o episódio.
  • Em 18 de agosto, Kos se tornou réu em uma ação penal por lesão corporal contra mulher e ameaça, e teve o pedido de prisão domiciliar negado.
  • O empresário, conhecido na Faria Lima, principal centro financeiro do país, está detido preventivamente no Complexo Penal II de São Paulo, o CDP II de Pinheiros, que tem histórico de superlotação.

Fonte: Metrópoles/Foto: Reprodução

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