A recente escalada de ataques de aliados do governo ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), acendeu o alerta entre lideranças governistas e dirigentes do PT. A preocupação aumentou após o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), afirmar, na última terça-feira (7/7), que Alcolumbre seria considerado um “inimigo” caso não desse andamento à PEC que acaba com a escala de trabalho 6×1.
A declaração de Uczai caiu mal no Senado e foi classificada nos bastidores como “descabida” por lideranças do Planalto, que se apressaram para pontuar que a fala não representa as bancadas petista e governista no Congresso.
Ministros que tentam restabelecer as pontes entre o Palácio do Planalto e o comando do Senado também viram a provocação como um “exagero” que prejudica as negociações com o parlamentar amapaense.
A relação entre Alcolumbre e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se deteriorou após a indicação e a rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). De lá para cá, os dois participaram de poucos encontros e mantiveram escassas interações, cenário que, segundo interlocutores, contribuiu para travar o avanço de pautas prioritárias do governo, entre elas a PEC da escala 6×1.
Aprovada pela Câmara em maio deste ano, a PEC é considerada uma das principais bandeiras do terceiro mandato de Lula, além de ser uma forte aposta da equipe de comunicação para a campanha de reeleição. O próprio petista se envolveu diretamente nas negociações com os deputados.
Desde que chegou ao Senado, porém, a PEC permanece parada na mesa de Alcolumbre, que ainda não autorizou o envio da matéria para análise da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), etapa anterior à votação em plenário.
Como a relação entre Lula e Alcolumbre chegou à crise
- Davi Alcolumbre foi um dos principais aliados do governo Lula no Congresso, no início do terceiro mandato.
- No fim de 2022, ele indicou Waldez Góes para o Ministério do Desenvolvimento Regional.
- Em abril de 2025, também conseguiu emplacar Frederico Siqueira no comando do Ministério das Comunicações.
- Até então, Alcolumbre e Lula mantinham relação de proximidade, segundo aliados de ambos.
- O desgaste começou em novembro de 2025, quando Lula indicou o advogado-geral da União, Jorge Messias, para vaga no STF. Alcolumbre defendia a escolha do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG).
- Como reação, o presidente do Senado tentou antecipar a sabatina de Messias para impor derrota ao Planalto, mas recuou porque o governo ainda não havia formalizado a indicação.
- A crise se consolidou em abril, quando o Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF. Alcolumbre foi apontado como o principal articulador da primeira rejeição a um indicado à Suprema Corte em 132 anos.
- A relação entre o presidente do Senado e o Planalto também foi marcada por disputas em torno de indicações para agências reguladoras e da análise de vetos presidenciais.
Embora ainda não tenha definido cronograma para a tramitação da proposta, Alcolumbre respondeu às declarações de Uczai. Em nota divulgada no mesmo dia, ele afirmou que “esse tipo de ameaça e tentativa de intimidação não será mais tolerado”. O presidente do Senado ressaltou que a definição da pauta é prerrogativa da Presidência e que ela “não se submete a ultimatos ou pressões político-eleitorais”.
A interlocutores, Alcolumbre também tem reclamado da pressão nas redes sociais pela votação da PEC. Em conversas reservadas, afirmou considerar algumas publicações como ataques pessoais. Entre os exemplos citados por ele, estão postagens que classificou como “inflamadas” dos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Erika Hilton (PSOL-SP), além do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
Para parlamentares do PT, o tom adotado por Uczai e pelo grupo classificado por eles como mais “histriônico” cria barreiras desnecessárias em um momento no qual o presidente do Senado dava sinais de abertura ao diálogo.
Recentemente, o presidente do Senado recebeu lideranças de centrais sindicais para discutir a proposta. Segundo relatos, integrantes do próprio movimento sindical defenderam estratégia de negociação, e não de confronto.
“Eles reconhecem que a gente precisa do Davi. Sabem disso. Dois sindicalistas nos falaram que a gente precisa manter a conversa com ele, e não ir para o confronto”, relatou um senador, sob reserva.
Apesar do desgaste, uma liderança do governo afirma que Alcolumbre continua interessado em fortalecer os canais de interlocução com o Planalto e aguarda reunião com Lula.
A tentativa de reaproximação vem sendo conduzida pela nova líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), e pelo novo líder do PT na Casa, Camilo Santana (PT-CE). A avaliação de aliados é a de que ambos têm bom trânsito com o presidente do Senado e atuam nos bastidores para reduzir as tensões entre o Executivo e a cúpula do Congresso.
Fonte: Metrópoles/Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
