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‘Prova nuclear’: o que há nos celulares que levaram Deolane e Marcola a virar réus

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Áudios, conversas pelo Telegram e comprovantes de depósitos extraídos de dois celulares apreendidos pela polícia são as principais peças da investigação que levou a Justiça de São Paulo a tornar réus a influenciadora e advogada Deolane Bezerra, o líder do PCC Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e outras quatro pessoas por organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Deolane é investigada por envolvimento com a facção e está presa preventivamente desde 21 de maio de 2026 em Tupi Paulista (SP). Além dos dois, se tornaram réus Paloma Sanches Herbas Camacho, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior e Everton de Sousa.

Segundo a decisão do juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3ª Vara de Presidente Venceslau, o conteúdo extraído dos aparelhos é a “prova nuclear” da acusação apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Os arquivos se somam a relatórios financeiros, quebras de sigilo bancário e fiscal e análises do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Na decisão, o magistrado afirma que o material encontrado nos aparelhos permite reconstituir parte da dinâmica financeira investigada pelo Ministério Público. As mensagens, segundo a acusação, indicariam quem repassava valores, quais contas eram utilizadas e quem seriam os destinatários finais do dinheiro.

De acordo com a decisão, um dos celulares — um Samsung Galaxy J5 apreendido na residência de Ciro Cesar Lemos — continha mensagens trocadas pelo Telegram entre agosto de 2020 e abril de 2021.

Ciro Cesar Lemos é um empresário apontado como o responsável por repassar valores de uma transportadora de cargas para contas bancárias indicadas pelo PCC. Investigações apontaram que ao menos duas dessas contas pertencem à Deolane Bezerra.

Em um dos áudios transcritos pela investigação, Ciro afirma ter trabalhado por quatro anos para Alejandro Herbas Camacho Junior, conhecido como “Gordão”, e para Marcola, chamado de “Narigudo” nas conversas. Alejandro é irmão de Marcola.

A investigação também cita áudios enviados a uma diarista. Segundo a denúncia, as mensagens indicam que Deolane mantinha valores pertencentes ao PCC em seus imóveis e nos imóveis de seus filhos.

Os documentos, porém, não detalham em qual aparelho as gravações foram encontradas nem especificam integralmente o teor das mensagens. Segundo a decisão, a materialidade dos crimes se baseia em conteúdos extraídos de celulares apreendidos e em dados telemáticos obtidos durante a apuração.

Ainda segundo a Justiça, as mensagens descrevem o funcionamento de repasses financeiros e identificam um operador apontado pela investigação como responsável pelo canal de lavagem de dinheiro supostamente utilizado em benefício da facção. O aparelho também armazenava comprovantes de depósitos relacionados às movimentações investigadas.

Já em um segundo aparelho, um iPhone X também apreendido na casa de Ciro, os investigadores encontraram conversas com Paloma Sanches Herbas Camacho, filha de Alejandro, sobrinha de Marcola e uma das denunciadas no caso.

Segundo a decisão, as mensagens mostram o envio de contas bancárias para recebimento de valores e o compartilhamento de comprovantes bancários usados para identificar operações financeiras.

Para o Ministério Público, o material extraído dos celulares ajuda a sustentar a hipótese de que familiares e pessoas de confiança dos líderes do PCC recebiam ordens para distribuir recursos obtidos por meio de uma empresa de transportes apontada como instrumento de lavagem de dinheiro.

Os promotores afirmam que os valores eram posteriormente repassados a integrantes do grupo investigado.

A investigação também apurou um plano para a reestruturação de empresas ligadas ao grupo, com o objetivo de transferir o patrimônio para os Emirados Árabes, país “reconhecidamente associado à utilização de shell companies (empresas de fachada) para facilitação de lavagem internacional de ativos”.

Réus por organização criminosa

Nesta semana, a Justiça de São Paulo aceitou a denúncia do Ministério Público e converteu a influencer e advogada Deolane Bezerra em ré por organização criminosa e lavagem de dinheiro da facção criminosa PCC.

Ao aceitar a denúncia do Ministério Público, a Justiça torna a pessoa ré e dá início à ação penal. Isso não significa que ela foi condenada. A partir dessa decisão, o processo segue para a fase de produção de provas e apresentação da defesa, até que a Justiça decida se o acusado é culpado ou inocente.

A ação ocorreu a partir do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), núcleo de Presidente Prudente (SP). A Justiça também recusou o pedido de transferência feito pela defesa de Deolane.

O MP reforçou que o pedido de prisão domiciliar não é oferecido nos casos de organização criminosa que opera mediante violência.

O promotor Lincoln Gakiya, que atua em Presidente Prudente, é um dos membros do grupo do Ministério Público. Gakiya é um dos principais investigadores da atuação do PCC no Brasil e é considerado referência internacional no assunto.

O documento foi registrado por Gakiya e mais seis promotores, sendo cinco de São Paulo e dois de Presidente Prudente, no dia 10 de junho. Segundo o arquivo, familiares ou pessoas de confiança recebiam ordens dos líderes do PCC para distribuição da renda ilícita obtida com a empresa de transportes.

Estes valores eram depositados em favor de Deolane, Everton de Sousa e Paloma Sanches Herbas Camacho, sendo os dois últimos sobrinhos de Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola.

Ainda conforme o documento, os relatórios de inteligência financeira, as quebras de sigilo fiscal e bancário confirmam a ocultação/dissimulação das quantias ilícitas e a reinserção na economia formal, dando aparência de licitude.

Diante da situação, o Ministério Público Estadual denunciou à Justiça:

  • Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior;
  • Deolane Bezerra Santos;
  • Everton de Sousa;
  • Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho;
  • Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola;
  • Paloma Sanches Herbas Camacho.

A defesa da influenciadora era que ela fosse transferida para uma Sala de Estado-Maior, prevista no Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para advogados presos antes de condenação definitiva, ou tivesse a prisão preventiva substituída por prisão domiciliar.

Deolane é advogada inscrita na OAB. O núcleo de Presidente Prudente do Ministério Público apontou que Deolane tem condições adequadas para permanecer na unidade em Tupi Paulista.

Além disso, o fato de a influenciadora ter uma filha menor de 12 anos não é considerado critério que deva ser avaliado dissociado dos demais elementos para a concessão da prisão domiciliar.

RELEMBRE O CASO:

O que diz a defesa de Bruno

Em nota, Bruno Ferullo Rita, responsável pela defesa de Marco Willians Herbas Camacho, Paloma Sanches Herbas Camacho, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, informou que:

“A Defesa reitera que Marco Willians Herbas Camacho e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior encontram-se custodiados em estabelecimento penal federal de segurança máxima desde fevereiro de 2019, submetidos a severas restrições de contato e comunicação, o que, por si só, torna inviável qualquer participação nos fatos investigados e evidencia o equívoco da acusação.

Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho também refutam integralmente as imputações formuladas.

A Defesa destaca que o mero vínculo familiar com os demais denunciados não pode ser confundido com participação criminosa, sendo inaceitável que a simples proximidade afetiva sirva de fundamento para uma acusação desta magnitude.

Quanto aos elementos de natureza patrimonial e financeira mencionados na denúncia, a Defesa esclarece que eles serão devidamente contextualizados no decorrer da instrução processual, oportunidade em que serão apresentados os esclarecimentos e as provas pertinentes acerca da origem e da regularidade das operações apontadas pela acusação.

A Defesa, diante da acusação apresentada, adotará todas as medidas processuais cabíveis para demonstrar a fragilidade da narrativa acusatória e a improcedência das imputações atribuídas aos seus constituintes, confiando que, ao final da regular instrução processual, a verdade dos fatos será devidamente reconhecida pelo Poder Judiciário.”

O que diz a defesa de Everton

Já a defesa de Everton de Souza disse que ele não tem qualquer participação nos fatos narrados pelo Ministério Público e, no momento oportuno, demonstrará sua inocência.

Leia a nota na íntegra:

“A Defesa de Everton de Souza informa que teve conhecimento acerca do recebimento da denúncia ofertada pelo Ministério Público, que lhe imputa a suposta prática dos delitos previstos nos artigos 2º da Lei de Organizações Criminosas e artigo 1º da Lei de Lavagem de Capitais.

Esclarecemos que Everton não tem qualquer participação nos fatos narrados pelo Ministério Público e, no momento oportuno, demonstrará sua inocência.

Além disso, a prisão de Everton mostra-se absolutamente desnecessária e desarrazoada, posto que não há qualquer justificativa idônea que ampare a decisão proferida pelo Juízo de Presidente Venceslau.

Há que se destacar que, como já é de conhecimento público, os fatos ocorreram em meados de 2020/2021 e a prisão fora decretada tão somente neste ano de 2026, o que evidencia a clara ausência de contemporaneidade.

Trata-se de ato que será levado à conhecimento das Cortes Superiores, a fim de que seja cessada a ilegalidade, confiando na observância irrestrita aos princípios e normas que norteiam o Estado Democrático de Direitos.

Por fim, esclarece que todas as acusações serão refutadas de maneira integral, sempre observando e respeitando os princípios basilares do processo penal.”

Fonte: G1/Foto: Reprodução/Redes Sociais

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