Quando Narges Mohammadi era apenas uma menina, sua mãe a aconselhou a nunca se envolver com política. O preço de desafiar o sistema em um país como o Irã seria alto demais. Esse conselho se mostrou visionário: Mohammadi ariscou — e perdeu — tudo para defender a liberdade das mulheres iranianas.
Aos 51 anos, a vencedora do Nobel da Paz de 2023 está presa — cumprindo uma sentença de dez anos — e foi proibida de ver a família. Ela se encontra na notória prisão de Evin, em Teerã, por “espalhar propaganda antiestado”.
Para Mohammadi, esse é só mais um capítulo em sua luta pelos direitos civis das mulheres. Ao longo dos últimos 30 anos, o governo iraniano a penalizou repetidamente por seu ativismo e escrita, privando-a de quase tudo que ela valoriza — sua carreira como engenheira, sua saúde, tempo com seus pais, marido e filhos, e sua liberdade.
A última vez que a Mohammadi ouviu as vozes dos filhos gêmeos de 16 anos, Ali e Kiana, foi há mais de um ano. A última vez que ela os abraçou foi há oito anos. Seu marido, Taghi Rahmani, de 63 anos, também escritor e destacado ativista que foi preso por 14 anos no Irã, vive no exílio na França com os gêmeos.
Determinação
O sofrimento e a perda que ela sofreu não diminuíram sua determinação em continuar lutando por mudanças, conforme reportagem do jornal The New York Times publicada em junho deste ano.
Uma pequena janela em sua cela na ala feminina de Evin se abre para uma vista das montanhas que cercam a prisão ao norte de Teerã. A primavera trouxe mais chuva neste ano, e as colinas onduladas estavam cobertas de flores silvestres.
“Sento-me diante da janela todos os dias, olho para a vegetação e sonho com um Irã livre”, disse Mohammadi, em uma rara e não autorizada entrevista por telefone de dentro de Evin, em abril. “Quanto mais me punem, mais tiram de mim, mais determinada me torno em lutar até alcançarmos a democracia e a liberdade, e nada menos”, disse ela, que foi apontada nesta sexta-feira (6) como vencedora do Nobel da Paz.
O New York Times também entrevistou a ativista dos direitos humanos por telefone em abril de 2022, quando ela teve uma breve licença médica da prisão. Em março e abril deste ano, o Times a entrevistou, submetendo perguntas por escrito e em uma ligação telefônica furtiva de dentro da prisão, arranjada por intermediários.
Em maio, as autoridades prisionais revogaram os direitos de telefone e visitação de Mohammadi por causa das declarações que ela emitiu da prisão condenando as violações dos direitos humanos no Irã, que foram postadas em sua página no Instagram, disse sua família.
*R7/FOTO: NARGES MOHAMMADI FOUNDATION/AFP – SEM DATA
