Semanas de ataques aéreos da Rússia vêm danificando ainda mais a infraestrutura já comprometida da Ucrânia, deixando milhões de pessoas em todo o país sem energia, água e calefação durante a pior onda de frio enfrentada pelo país em quase quatro anos de guerra, com a sensação térmica podendo chegar a -20ºC. Dentro das casas e apartamentos da capital e de outras cidades, moradores resistem ao uso do inverno como arma, montando barracas dentro dos apartamentos, ligando o forno para aquecer os cômodos, coletando neve para obter água e dormindo com várias camadas de roupas, casacos, luvas e gorros.
— A rotina diária se transformou em uma constante gestão de crise — disse ao GLOBO Oksana Romaniuk, que mora em Kiev. — Até coisas simples se tornam difíceis: por exemplo, descer com meu cachorro do oitavo andar, onde moro, sem elevadores ou luz. É bastante exaustivo.
Segundo o prefeito da capital, Vitali Klitschko, mais de 600 mil pessoas já deixaram Kiev, cuja população era estimada em 2,6 milhões até 21 de dezembro. Anteontem, em meio a alertas de que pode haver uma “catástrofe humanitária” com quase 3.000 prédios sem aquecimento e risco de disseminação de doenças, Klitschko reiterou apelos para que as pessoas que puderem deixem Kiev. Aos que não for possível, aconselhou a estocagem de alimentos, combustível, remédios e outros suprimentos.
— Para mim, a parte mais difícil não é nem o frio: é a falta de água — afirmou a jornalista Lesia Shovkun, que vive em Kiev. — Não ser capaz de se lavar propriamente é uma verdadeira provação.
‘Bombardeios de terror’
O professor Sandro Teixeira Moita, doutor em Ciências Militares e professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, diz que a defesa aérea ucraniana enfrenta um estrangulamento militar e logístico para enfrentar os bombardeios que visam a aterrorizar a população e fazê-la pressionar o governo a aceitar os termos de paz reiterados pelo Kremlin em negociações trilaterais finalizadas ontem, como a cessão da região do Donbass — que corresponde às províncias orientais de Donetsk e Luhansk.
Teixeira Moita lembra que, após a volta de Donald Trump à Casa Branca, os equipamentos de defesa pararam de ser doados diretamente pelos EUA. Agora, a Ucrânia os recebe após a compra por aliados europeus, que vêm adquirindo menos equipamentos por causa do alto custo — o preço de cada bateria de mísseis Patriot, o mais avançado sistema de defesa, é de cerca US$ 1 bilhão. Esse processo gera atrasos incompatíveis com a urgência do campo de batalha, obrigando a Ucrânia a racionar seu uso e escolher o que proteger.
— Esse tipo de aquisição segue regulações complexas, e a Ucrânia simplesmente não tem esse tempo — disse o professor.
Sob condição de anonimato, um jornalista russo classificado como “agente estrangeiro” pelo Kremlin aponta outro fator que prejudica a defesa ucraniana: o investimento russo para desenvolver e aprimorar tecnologias balísticas.
— Os russos aprenderam a fazer armas melhores — disse ao GLOBO, afirmando que hoje o país recorre menos ao uso, por exemplo, dos “primitivos” drones iranianos Shahed, muito usados em 2022.
Se, entre setembro de 2022 e outubro de 2024, a Ucrânia registrava 84% de sucesso na interceptação de mísseis, drones e outros objetos, em setembro de 2025 essa taxa caiu a 6%, de acordo com dados públicos da Força Aérea Ucraniana citados pelo jornal Financial Times.
Segundo Valerii Osadchuk, diretor de Comunicação e Cooperação Internacional da estatal de energia Ukrenergo, os ataques passaram a atingir pontos críticos da rede, principalmente de usinas termelétricas e hidrelétricas, o que tornou o processo de recuperação mais complexo e demorado. Os consertos só podem ser iniciados após o fim dos bombardeios, já que é comum os russos voltarem a atacar os alvos quando equipes de reparos chegam ao local, justamente para eliminar a mão de obra especializada, diz Osadchuk.
Resiliência
Um dos símbolos da resistência na capital são os chamados “pontos de invencibilidade”: salões, bunkers, tendas e até mesmo vagões de trem, onde se pode ter acesso a eletricidade, aquecimento, água potável, comida, internet e até mesmo apoio psicológico. Apenas na região de Kiev, há 130, sendo que 56 deles são mantidos pela ONG baseada nos EUA Nova Ukraine, que atua em parceria com a Ukrzaliznytsia, a empresa público-privada que controla as ferrovias ucranianas.
A ONG também atua para além dos pontos de invencibilidade. Segundo Olena Drozd, líder de infraestrutura da Nova Ukraine, equipes voluntárias trabalham em nove cidades oferecendo apoio imediato após ataques a prédios residenciais, em coordenação com o Serviço Estatal de Emergência.
— Quando janelas ou paredes são destruídas, selamos as aberturas para proteger os apartamentos do frio em temperaturas extremas, o que pode ser decisivo para a sobrevivência — relata.
Em Lviv, cidade no oeste da Ucrânia, a tradutora Viktoria Tsaidar conta que a eletricidade é distribuída por grupos, e as pessoas planejam quando lavar roupa, cozinhar, trabalhar ou até sair para passear de acordo com isso. No ano passado, ela e os vizinhos compraram um gerador que alimenta a caldeira do prédio por cerca de três a seis horas por dia, equipamento também usado por quase todos os comércios para manter pelo menos os serviços mínimos de luz, internet e aquecimento.
— Decidimos comprar o gerador em uma votação! — disse Tsaidar.— Nem o frio, nem os apagões, nem as bombas destruíram nossa democracia. Ela segue viva, ainda que funcione à bateria.
Romaniuk, que segura uma lanterna quando o filho Ivanko, de 12 anos, precisa estudar à noite sob temperaturas negativas em Kiev, é enfática sobre a resiliência ucraniana:
— Viver sem aquecimento ou eletricidade ainda é preferível a viver sob ocupação russa — disse. — Dizemos: sem eletricidade, mas sem russos. A privação é temporária; a perda de soberania e a violência contra civis, não.
Fonte: O Globo/Foto: Roman Pilipey/AFP
