O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (17) que não descarta enviar tropas para a Venezuela. Especialistas do setor militar, porém, consideram inviável uma invasão terrestre ao país neste momento, principalmente por fatores geográficos e logísticos.
▶️ Contexto: Desde agosto, os Estados Unidos têm mobilizado um forte aparato militar no Caribe, em uma operação que a Casa Branca diz ser voltada ao combate ao tráfico internacional de drogas.
- A movimentação começou pouco depois de os EUA dobrarem para US$ 50 milhões a recompensa por informações que levem à prisão ou condenação do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
- Ele é acusado pelo governo americano de chefiar o Cartel de los Soles, grupo recentemente classificado como organização terrorista internacional.
- Nesse contexto, Maduro poderia ser considerado um alvo legítimo em eventuais ataques contra cartéis.
- Autoridades da Casa Branca disseram à imprensa americana acreditar que o objetivo final da operação seria retirar Maduro do poder.
🚢 Atualmente, vários navios de guerra dos EUA, aeronaves e o maior porta-aviões do mundo estão posicionados no Caribe. Nos últimos dois meses, esse aparato militar bombardeou mais de 20 embarcações suspeitas de transportar drogas, deixando mais de 70 mortos.
Desde outubro, Trump vem afirmando que considera realizar ataques terrestres contra estruturas ligadas ao narcotráfico, sem citar países. Nesta segunda, porém, ele deixou claro que a Venezuela pode estar entre os alvos, ao ser questionado sobre uma possível invasão por terra.
“Nada está descartado”, disse. “Temos que dar um jeito na questão da Venezuela. Eles despejaram centenas de milhares de pessoas em nosso país, das prisões.”
🔎 Por outro lado, para Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, uma invasão terrestre à Venezuela seria inviável neste momento.
- Segundo ele, ainda não há tropas suficientes no Caribe para sustentar uma operação dessa escala.
- Santoro explica que a Venezuela tem um território extenso e de difícil acesso, o que exigiria um grande esforço militar.
🗣️ Enquanto isso, Maduro afirmou estar pronto para uma conversa “cara a cara” com Trump. O líder venezuelano também tem feito apelos pela paz e sinalizado que não deseja um conflito, diante do grande desequilíbrio entre as Forças Armadas dos dois países.
A Venezuela mantém um Exército defasado, com problemas estruturais e limitado por sanções internacionais. Veja infográfico ao final da reportagem.
O presidente dos Estados Unidos, por sua vez, sinalizou que pode abrir diálogo com Caracas.

As características do território venezuelano representam um desafio para operações militares de grande escala. O tamanho do país, o relevo acidentado e a presença de florestas densas são fatores decisivos no planejamento de uma eventual invasão.
- A Venezuela tem 916.445 km², uma área ligeiramente superior à do estado de Mato Grosso, o terceiro maior do Brasil.
- O território é marcado por duas cordilheiras: os Andes e a de Mérida. Elas formam uma barreira natural no noroeste do país. A capital, Caracas, está a mais de 900 metros de altitude.
- Além disso, parte do território é coberta pela Floresta Amazônica e pelos Llanos — extensas planícies que alagam durante o período de chuvas.
🔎 Maurício Santoro explica que, em uma eventual invasão americana à Venezuela, tropas leais ao regime de Nicolás Maduro poderiam recuar para áreas isoladas e resistir à ofensiva.
Além disso, seria necessário garantir o controle da ordem pública, inclusive em grandes cidades como Caracas, que tem mais de 2 milhões de habitantes. Tudo isso exigiria um grande número de soldados.
❌ Para Santoro, o número atual de militares que os Estados Unidos mantêm no Caribe é insuficiente para uma invasão em larga escala.
- Dados do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) apontam que há cerca de 13 mil militares norte-americanos atualmente no Caribe.
- O mesmo estudo estima que seriam necessários ao menos 50 mil soldados para uma invasão, ou até 150 mil para uma ação mais ampla e duradoura.
“Quando os americanos invadiram o Iraque, usaram cerca de 100 mil soldados. Esse número foi considerado baixo na época, mas acreditava-se que, com as mudanças tecnológicas, seria possível ocupar um país daquele tamanho. A realidade se mostrou bem mais complicada”, afirma Santoro.
“Para comparação, quando os americanos invadiram o Panamá, em 1989, foram algo em torno de 25 mil soldados. E o Panamá tem menos de 10% do tamanho da Venezuela.”
Segundo o professor, em um cenário mais provável, os Estados Unidos poderiam ocupar ilhas próximas ao litoral venezuelano ou tentar tomar portos estratégicos, com o objetivo de restringir o acesso do país ao mar.
*g1/Foto: Alyssa Joy/Marinha dos Estados Unidos




