Uma mudança brusca na retórica de Donald Trump acendeu o alerta em capitais como Brasília, Pequim e Nova Délhi. Durante uma visita ao Reino Unido nesta segunda-feira, o presidente norte-americano afirmou estar “profundamente decepcionado” com Vladimir Putin e anunciou a redução drástica do prazo dado anteriormente ao Kremlin para avançar nas negociações de paz com a Ucrânia. Se antes o ultimato era de 50 dias, agora restam apenas cerca de 10 a 12 dias. Caso não haja uma sinalização clara de Moscou, Trump ameaça aplicar tarifas punitivas aos países que seguem comprando petróleo e gás russo – o que inclui diretamente o Brasil.
O aviso ocorreu ao lado do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, em um gesto que também marca uma reaproximação diplomática com aliados europeus. Para Trump, não há mais tempo a perder. Segundo ele, a paciência com Putin se esgotou. “Estou muito decepcionado com o presidente Putin. Muito decepcionado. Reduzirei o prazo que dei a ele, porque acho que já sei o que vai acontecer”, declarou o republicano a jornalistas em Londres.
Esse novo posicionamento rompe com a linha que marcou o início do seu segundo mandato. Durante a campanha presidencial de 2024, Trump prometeu resolver o conflito em apenas 24 horas e chegou a culpar a própria Ucrânia pelo início da guerra. Em seus primeiros meses no poder, também suspendeu parte da ajuda militar americana a Kiev. Agora, porém, parece ter sido levado ao limite.
A origem do ultimato: blefes passados e pressão renovada
A primeira menção ao prazo de 50 dias foi feita por Trump em 14 de julho, quando ele demonstrou frustração com o que chamou de “falta de vontade de negociar” por parte da Rússia. À época, ele ameaçou impor tarifas de até 100% sobre produtos vindos de países que seguem sustentando a economia de guerra de Moscou, com destaque para o petróleo. As nações mencionadas diretamente foram China, Índia e Brasil, que juntas são responsáveis por cerca de 80% das exportações energéticas russas.
Embora o anúncio inicial tenha sido interpretado como mais um movimento de retórica agressiva sem consequências práticas – algo comum no estilo diplomático de Trump –, o novo corte no prazo pode indicar uma inflexão real na sua postura.
Nos meses anteriores, Trump já havia estabelecido pelo menos três prazos de duas semanas para Putin iniciar negociações sérias. Nenhum deles resultou em ações concretas. Em maio, por exemplo, ele acusou o líder russo de “brincar com fogo”, mas não impôs sanções ao fim do período. Ao contrário: o que se viu foram cortes adicionais no apoio militar à Ucrânia por parte dos EUA, liderados pelo conselheiro de segurança Pitt Hexet.
Essa hesitação tem sido interpretada por analistas como parte de uma estratégia de “pôquer diplomático” – em que o republicano pressiona verbalmente, mas recua na hora de aplicar medidas reais. No entanto, os sinais agora apontam para um desgaste crescente nessa abordagem.
Uma virada estratégica contra a Rússia… e contra os seus parceiros
A virada de Trump parece ter se intensificado no início de julho, quando ele aprovou um novo pacote de armamentos à Ucrânia por meio de aliados da OTAN. Essa movimentação surpreendeu até mesmo os analistas mais céticos, que observavam um padrão de simpatia com Moscou desde o seu primeiro mandato. Nos últimos meses, Trump teria conversado diretamente com Putin pelo menos seis vezes, mas sem qualquer avanço visível.
A decepção parece ter se consolidado após ataques russos recentes contra cidades ucranianas, com civis entre as vítimas. O episódio que mais chocou o presidente americano teria sido o bombardeio de uma casa de repouso, segundo ele mesmo afirmou. “Lançar foguetes em uma cidade como Kiev e matar muitas pessoas em um asilo… Isso não é o caminho”, disse em entrevista coletiva.
Nesse contexto, as ameaças de sanções secundárias ganham peso inédito. Caso Putin ignore o novo prazo – que termina entre 7 e 9 de agosto –, os EUA podem iniciar a aplicação de tarifas comerciais elevadas sobre produtos vindos de países que seguem comprando energia da Rússia. Seria um golpe direto nas economias de China e Índia, mas também afetaria o Brasil, que expandiu suas importações de diesel e fertilizantes russos nos últimos anos, especialmente no contexto do grupo Brics.
O Brasil na linha de fogo
A possível inclusão do Brasil nesse pacote de sanções já preocupa o Itamaraty e setores da economia nacional. O país vem reforçando sua parceria comercial com Moscou, sobretudo após as tensões com os EUA durante os dois primeiros anos da guerra. A adoção de tarifas punitivas poderia provocar aumentos nos preços de combustíveis, desequilíbrios na balança comercial e complicações adicionais nas relações diplomáticas com Washington.
No governo Lula, há a percepção de que o Brasil se tornou alvo indireto de uma disputa geopolítica que até então parecia distante. A dependência de importações energéticas russas – vistas por muitos como mais acessíveis e vantajosas economicamente – pode colocar o país em uma posição delicada entre seus compromissos com os EUA e sua agenda diplomática de não alinhamento automático.
O momento da verdade
Resta saber se, desta vez, Trump irá realmente cumprir sua palavra. A mudança de tom, o apoio público do Reino Unido e a visível frustração com o comportamento de Putin sugerem que o presidente norte-americano está mais disposto a agir. Mas, como já observava Winston Churchill na Segunda Guerra, os americanos “sempre fazem a coisa certa – depois de esgotarem todas as outras opções”.
Será este o momento decisivo em que Trump finalmente adota uma postura firme contra o Kremlin? Os próximos dias serão cruciais. O que está em jogo vai além da Ucrânia: envolve a credibilidade da política externa americana, a estabilidade do comércio global e o papel do Brasil em um tabuleiro geopolítico cada vez mais volátil.
*Fonte: Revista Sociedade Militar/Foto: Reprodução


