O Pará liderou o número de focos de incêndio no Brasil entre 10 e 12 de outubro, com 35.141 registros, enquanto o Amazonas ficou em terceiro lugar, com 11.164, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). A posição no ranking, porém, não determina a origem da fumaça que encobre Manaus há uma semana.
Para o pesquisador e meteorologista Leonardo Alves Vergasta, as queimadas no próprio Amazonas provavelmente respondem pela maior parte da fumaça na capital, devido à proximidade dos focos e à direção dos ventos. A hipótese ainda depende de análises que rastreiem o deslocamento das massas de ar.
A avaliação do pesquisador difere da declaração do governador do Amazonas, Roberto Cidade, que, no sábado (10), atribuiu parte da fumaça a incêndios em estados vizinhos. “Muitas dessas fumaças que estão acontecendo aqui não são só fogos de incêndio do Estado do Amazonas, são de estados vizinhos, do Pará, do sul do Pará”, afirmou Roberto Cidade.
“Os focos do Amazonas explicam uma parte grande, provavelmente a maior”, diz Vergasta. Segundo ele, cartas de vento da Aeronáutica dos dias 8 e 12 de outubro indicam correntes de leste-nordeste a cerca de 1,5 quilômetro de altitude, com velocidade estimada entre 30 e 35 km/h. Essa direção favorece o transporte de fumaça de municípios situados a leste e sudeste de Manaus.
Entre as áreas próximas citadas por ele, estão Careiro da Várzea, Autazes e Itacoatiara. No período de 10 a 12 de outubro, Autazes registrou 1.700 focos, o maior número entre os municípios amazonenses, enquanto Itacoatiara teve 882, segundo o levantamento do Inpe. Os registros mostram a concentração de queimadas nessa região, mas não permitem determinar, isoladamente, quanto da fumaça chegou à capital.
Ventos favorecem a fumaça
O mapa do Selva (Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental) também mostrou detecções de fogo ao longo do Rio Amazonas, a leste de Manaus. De acordo com Vergasta, foi nessa região que as estações registraram os piores níveis de poluição, com concentrações superiores a 80 microgramas por metro cúbico (µg/m³) e pontos acima de 170 µg/m³.
“O vento vindo de leste-nordeste empurra a fumaça desses municípios em direção a Manaus”, explica. Em altitude, o deslocamento entre essas áreas e a capital pode levar de três a seis horas. Próximo ao solo, onde os ventos podem ser mais fracos, o percurso pode demorar de 10 a 16 horas.
O meteorologista ressalta, no entanto, que analisou apenas duas datas, que não necessariamente correspondem aos dias de maior concentração de fumaça. Para estimar a contribuição de cada região, seria necessário rastrear a trajetória do ar nos dias de pico e comparar os resultados com os registros de queimadas e as medições das estações de qualidade do ar.
Também há focos no sul do Amazonas, em municípios como Lábrea, Boca do Acre, Apuí e Novo Aripuanã. Essas áreas ficam a sudoeste ou ao sul de Manaus e, segundo Vergasta, a fumaça chegaria à capital com maior facilidade sob ventos do sul ou sudoeste, diferentes dos observados nas cartas analisadas.
Estiagem favorece o acúmulo de fumaça
A falta de chuva e a redução da circulação do ar contribuem para a permanência de poluentes sobre Manaus. Segundo Vergasta, agosto e setembro tiveram precipitações abaixo da média histórica em quase todo o Amazonas, principalmente na porção leste. Em agosto, a capital registrou praticamente zero de chuva, situação que, de acordo com o meteorologista, não era observada desde a década de 1960.
A estiagem deixa a vegetação mais seca, favorece a propagação do fogo e reduz a remoção de partículas da atmosfera pela chuva. Vergasta também relaciona o cenário à atuação do El Niño, fenômeno que pode alterar o regime de chuvas e a circulação dos ventos na região.
À noite, o resfriamento do solo deixa o ar próximo à superfície mais estável e limita a dispersão dos poluentes. Com isso, a fumaça se acumula perto do chão, e a qualidade do ar tende a piorar durante a madrugada e no início da manhã. Ao longo do dia, o aquecimento do solo favorece a mistura do ar e a dispersão dos poluentes para camadas mais altas da atmosfera, explica Leonardo.
Nos dez primeiros dias de outubro, o Amazonas registrou 1.380 focos de incêndio, contra 372 no mesmo período de 2025, aumento de 271%, conforme levantamento do Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia). Em setembro, o Inpe contabilizou 3.726 focos no estado, ante 942 no mesmo mês do ano passado.
Apesar do aumento dos registros, ainda não há uma estimativa precisa da parcela da fumaça originada no Amazonas e da que chega de outras regiões. Para Vergasta, a identificação das fontes depende do cruzamento entre os focos registrados, a direção dos ventos e as medições de poluentes.
“É importante dizer que a floresta amazônica não pega fogo sozinha. A seca e o El Niño deixam a mata mais seca e o fogo se espalha com mais facilidade, mas alguém precisa iniciar o fogo”, afirma. O meteorologista defende investigações para identificar os responsáveis pelos incêndios, especialmente quando há muitos focos em áreas de floresta fechada.
Fonte: Amazonas Atual/Imagem: Reprodução/Ministério do Meio Ambiente
