Dona de clínica de estética teve contas do Instagram suspensas por fraude 2 meses antes de paciente morrer após peeling de fenol

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A esteticista e influencer Natalia Fabiana de Freitas Antonio, que é dona de clínicas de estética em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás e se identifica nas redes sociais como Natalia Becker, teve duas de suas contas profissionais no Instagram suspensas pela própria plataforma por suspeita de ter cometido fraude contra seus seguidores.

A suspensão das contas ocorreu em meados de abril, dois meses antes da morte do empresário Henrique Silva Chagas dentro de um de seus consultórios, o Studio Natalia Becker do Campo Belo, Zona Sul da capital paulista. O paciente morreu na segunda-feira (3) após fazer um peeling de fenol com Natalia. Ele tinha 27 anos.

Polícia Civil investiga a morte de Henrique como homicídio. Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), o 27º Distrito Policial (DP) procurava a esteticista para que ela possa prestar depoimento e dar sua versão para o que aconteceu com o paciente. Ela não havia sido encontrada nem se apresentado à polícia até a última atualização desta reportagem.

A principal hipótese investigada pela delegacia para explicar a morte de Henrique é a de que ele teria tido um algum tipo de reação alérgica ao tratamento estético que se submeteu e morreu por choque anafilático pelo uso de alguma substância química no procedimento. Exames periciais feitos pela Polícia Técnico-Científica irão apontar a causa da morte. Os resultados ainda não ficaram prontos.

g1 não conseguiu localizar a esteticista para comentar o assunto sobre a suspensão de suas contas do Instagram nem para tratar da investigação policial sobre a morte do paciente.

A Meta, responsável pelo Instagram, informou que não vai comentar sobre o assunto.

Assim que teve suas contas suspensas pela rede, Natalia contratou um escritório de advocacia para entrar com uma ação na Justiça contra a plataforma. A ação pede R$ 25 mil do Instagram como indenização por dano moral pelo tempo em que ela ficou sem poder usar a rede social. De acordo com a influenciadora, ela deixou de ganhar dinheiro com seu trabalho durante o período.

O processo ainda não foi julgado. Em agosto, está marcada uma audiência de conciliação entre as partes envolvidas no caso.

O Instagram se posicionou no processo, por meio de sua defesa, contra o pedido de indenização feito por Natalia. Segundo a plataforma, uma das contas dela foi reativada logo após a suspensão. A empresa não explica, no entanto, por quais motivos suspendeu as duas contas da esteticista.

Sem entrar em detalhes, o Instagram alegou que as contas de Natalia foram desabilitadas porque ela não ter seguido as “diretrizes da comunidade” e por “não respeitar” as “normas” que são “relativas à fraude e dolo”. Segundo a empresa, contas são suspensas quando detectadas “atividades fraudulentas” que “podem causar danos ou prejuízos a pessoas ou empresas” para proteger “usuários ou terceiros”.

Ainda, segundo o Instagram, são removidos conteúdos que buscam “intencionalmente enganar, fazer declarações falsas de maneira deliberada ou explorar as pessoas de outra forma por dinheiro ou propriedade”.

Procurado para comentar o assunto, o advogado José Roberto Pinheiro, que atua junto com Braz Rafael Cogo na ação de Natália contra a plataforma, disse estar confiante que a Justiça vai aceitar o pedido de indenização.

“A ação será julgada procedente, pois houve uma prática abusiva da plataforma, que não apresentou nenhuma justificativa para a suspensão do perfil”, falou José Roberto.

Até segunda (3), ao menos uma das contas de Natalia que tinham sido suspensas em abril estava ativa e funcionando: @nataliabeckeroficial. Nela, a esteticista contava com 233 mil seguidores. Esta conta foi desativada após a repercussão da morte de Henrique na internet e na imprensa. Segundo policiais ouvidos pelo g1, a própria dona da clínica a desativou.

Natalia tem 29 anos e, segundo o site da sua clínica, possui estúdios de estética em São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia. No site, ela oferece tratamentos para acnes, melasma e manchas faciais em geral.

Ela também oferece cursos de procedimentos utilizando fenol.

Natalia se apresenta como “criadora do Protocolo Mellan-peel” e especialista no tratamento de melasma – que é uma condição que se caracteriza pelo surgimento de manchas escuras na pele, mais comumente na face. Ela também oferece cursos para quem quer aprender o “protocolo Mellan-peel”.

Apesar de ter excluído o perfil no Instagram, as buscas do Google ainda mostram a influenciadora se apresentando como criadora do protocolo contra melasma.

Além da clínica de estética, Natalia também possui a marca de cosméticos “Mellan-peel by Natalia Becker”.

Em meados de 2018, a influencer dava cursos de micropigmentação e designer de sobrancelha. Ela passou a oferecer tratamento para melasma em 2021.

Sem exames

Segundo o registro policial, o namorado de Henrique, o também empresário Marcelo Camargo, informou que ele queria fazer o procedimento para reduzir marcas no rosto. E para isso fez pesquisas nas redes sociais e acabou por escolher a clínica de Natalia.

De acordo com o companheiro do paciente, que foi com ele à clínica, a esteticista não pediu nenhum exame médico anterior para saber se o engenheiro era alérgico a algum medicamento.

Segundo Jorge Macedo da Cunha, marido da influencer que também é coproprietário da clínica, disse à polícia, o peeling de fenol é um procedimento superficial e, por isso, não é exigido nenhum exame anterior.

Elisete Crocco, coordenadora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, no entanto, afirmou ao g1 que o paciente submetido a esse tipo de procedimento deve “passar por exames laboratoriais para checar a saúde dos rins e eletrocardiograma, para checar a saúde do coração e ver se não tem nenhum tipo de arritmia”.

Ainda segundo a especialista, é um “procedimento que precisa ser realizado por um médico dermatologista, que está dentro da área de atuação de procedimentos médicos e que reconheça qualquer tipo de complicação”.

Em nota, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) informou que “defende que procedimentos invasivos”, como é o peeling de fenol, “devem ser feitos por médicos”.

Morte de paciente

Natalia realizou o tratamento com o fenol, que é um composto orgânico ácido, no rosto de Henrique. A substância química provoca uma reação inflamatória na pele. A inflamação causa descamação da superfície do tecido. O objetivo é reduzir manchas, rugas e cicatrizes, devolvendo a elasticidade da face.

Antes de Henrique se submeter ao fenol, foi aplicado um anestésico no seu rosto. Depois, ele tomou um remédio contra dor.

Após a aplicação do fenol, o companheiro de Henrique saiu da sala e aguardou o fim do procedimento. Segundo ele, Natália disse que tinha sido um sucesso e ele suportou a dor com certa tranquilidade.

Ao vê-lo, no entanto, o companheiro percebeu que Henrique tremia e estava nervoso. Logo depois, começou a respirar muito forte pela boca e pediu socorro. Natália e as funcionárias foram socorrê-lo e acionaram uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que constatou a morte no local.

“Estamos diante não apenas de uma morte, nós estamos diante de um crime de homicídio. O fato é que alguém causou a morte de outra pessoa”, disse à TV Globo o delegado Eduardo Luis Ferreira, do 27º DP.

“Resta definir qual o tipo de homicídio. Se é um homicídio culposo, que ocorreu por imperícia do profissional, que não é habilitado para fazê-lo. Ou até mesmo um provável homicídio doloso [por dolo eventual], quando o agente muito embora não queira o resultado morte, ele acaba assumindo o risco de produzi-lo”, completou o delegado.

Policiais apreenderam equipamentos e medicamentos na clínica para passarem por perícia.

Procurada para comentar o assunto, a Prefeitura de São Paulo, responsável por fiscalizar o funcionamento de estabelecimentos na cidade, informou que a Vigilância Sanitária fechou e multou o Studio Natalia Becker por não ter autorização para realizar o peeling de fenol. Antes, o local funcionava com permissão para fazer somente tratamentos estéticos.

Henrique era conhecido como Rick Chagas e tinha uma empresa de petshop. Seus amigos e familiares estão fazendo uma “vaquinha” online com o objetivo de arrecadar dinheiro para conseguir um translado que leve o corpo dele a Pirassununga, no interior paulista, onde deverá ser sepultado.

Fonte: G1/Foto: Reprodução/Redes sociais/ TV Globo

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