O quinto dia do julgamento de Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e de Monique Medeiros — réus por homicídio triplamente qualificado, tortura, coação de testemunha e fraude processual — avançou nesta sexta-feira sobre um dos pontos mais sensíveis do caso Henry Borel: a origem das lesões encontradas no corpo do menino de 4 anos. Em depoimento ao júri, o perito criminal Luiz Carlos Leal Prestes — testemunha do Ministério Público do Rio — detalhou “sinais de espancamento” em ferimentos identificados na cabeça da criança e afirmou que eles indicam agressões em momentos distintos. Segundo ele, o menino tinha pelo menos 17 pontos de lesão encontrados no corpo.
Segundo o especialista da Polícia Civil, as lesões encontradas durante a necropsia apontam para “três momentos de agressão diferentes”, como marcas espalhadas em regiões distintas do couro cabeludo — uma espécie de mapa invisível da violência que o menino sofreu que, segundo ele, só apareceu quando os peritos aprofundaram os exames no Instituto Médico-Legal.
— São lesões independentes. Três momentos de agressão diferentes, produzindo três lesões em sítios diferentes — afirmou Prastes.
Ao explicar os ferimentos, Prestes disse que os traumas poderiam ter sido causados por pancadas, batidas contra superfícies rígidas ou até “cascudos”.
— Poderia ser o que a gente chama de cascudo, poderia ser uma batida em algum objeto, poderia ser a cabeça bater numa superfície rígida. De qualquer maneira, foi produzido por uma ação contundente — disse.
O perito afirmou que não é possível medir exatamente a intensidade dos golpes, mas ressaltou que eles foram suficientes para provocar hemorragias sob o couro cabeludo e edema cerebral.
— Foram três pancadas que deixam sangue pisado na cabeça da criança — resumiu.
Durante a explicação técnica, Prestes detalhou ainda como os peritos identificam esse tipo de lesão na necropsia.
— É feito um corte na parte superior. A porção da frente é puxada para se ver toda a superfície do crânio, a porção posterior também é puxada e você tem a exteriorização da calota craniana e da parte interna do couro cabeludo — explicou ao júri.
Perito rebate tese sobre massagem cardíaca
Outro ponto abordado no depoimento foi a tentativa da defesa de relacionar as lesões às manobras de reanimação feitas no Hospital Barra D’Or. Prestes voltou a afirmar que a massagem cardíaca não seria capaz de provocar os ferimentos identificados no corpo de Henry. O tema ganhou peso no julgamento porque Jairinho, que é médico e que afirmou anteriormente que não tentou fazer reanimação antes de levar o menino ao hospital porque não exercia a profissão.
Ao ser indagado sobre a causa da morte, o perito explicou que, embora a dilaceração hepática e a hemorragia interna tenham sido apontadas pelo Instituto Médico-Legal (IML) como causa principal da morte de Henry, outros ferimentos também contribuíram para o quadro fatal.
— A massagem cardíaca bem feita não provoca lesões no fígado. É feita em uma área completamente diferente. Houve a hemorragia interna, a laceração hepática, que produziu a morte e, portanto, a necessidade da massagem cardíaca — afirmou.
O perito também rebateu uma das linhas sustentadas pela defesa de Jairinho ao longo do julgamento, que tenta relacionar parte das lesões às manobras de reanimação realizadas pela equipe médica do hospital. Segundo ele, o menino Henry chegou morto ao hospital, “inerte” sem “sinais vitais”.
Segundo Prestes, uma massagem cardíaca corretamente executada não atingiria a região do corpo onde Henry apresentava as lesões mais graves.
— Não poderia haver hemorragia interna se não houvesse circulação. Não se tem hemorragia que o sangue preenchendo a cavidade abdominal com a pessoa morta. Essa laceração hepática foi produzida em vida e não está relacionada à massagem cardíaca— explicou.
O especialista acrescentou ainda que a própria presença das hemorragias indica que Henry estava vivo quando sofreu os ferimentos.
Ao comentar a técnica de ressuscitação cardiopulmonar, porém, Prestes afirmou que se trata de um procedimento básico aprendido por profissionais da área da saúde.
— Não é nem restrito à medicina. Um estudante de enfermagem aprende isso. É muito básico você fazer a técnica correta da massagem, da ressuscitação cardiorrespiratória — afirmou.
Indagado se alguém com formação médica teria conhecimento para provocar lesões sem deixar marcas aparentes, o perito respondeu que o saber técnico pode, sim, ser usado dessa forma.
— O conhecimento médico, o conhecimento técnico, ele sempre pode ser usado para o mal — disse.
O depoimento do perito ocorre após dias de embates intensos entre acusação e defesa sobre a dinâmica da morte de Henry. Desde o início do júri, os advogados de Jairinho vêm questionando procedimentos adotados no Hospital Barra D’Or e levantando dúvidas sobre os laudos periciais produzidos durante a investigação.
Fonte: O Globo/Foto: Reprodução




