A mulher de 37 anos presa após se passar por uma menina de 12 anos e viver por mais de um ano como filha adotiva de uma família em Santa Catarina já havia enganado autoridades e instituições públicas em diferentes cidades de São Paulo anos antes. Usando nomes falsos, histórias de abuso e identidades de crianças desaparecidas, ela mobilizou guardas municipais, conselhos tutelares, hospitais, abrigos e até investigadores de polícia.
Antes de ser descoberta em Joinville, Amanda Maria Sousa Oliveira passou por diferentes regiões do estado de São Paulo. A mulher esteve na capital paulista; em Guarulhos, na Grande São Paulo; em Registro, no Vale do Ribeira, e em Jundiaí — as duas últimas no interior do estado. Em todas as cidades, apresentou identidades falsas, dizia ter 12 anos e narrava supostos episódios de violência e exploração sexual para obter acolhimento de instituições públicas.
Primeira farsa em SP
A passagem pelo estado começou em junho de 2022. Segundo documentos da Polícia Civil obtidos pelo Metrópoles, Amanda chegou à capital paulista vinda de Belo Horizonte e procurou o Conselho Tutelar alegando ser uma adolescente vítima de abusos. A história convenceu as autoridades, que providenciaram acolhimento em um abrigo para menores de idade. Pouco tempo depois, porém, ela fugiu da instituição ao ser informada de que seria encaminhada para reencontrar a sua suposta família.
Após deixar a capital, Amanda seguiu para Registro. Lá, passou a usar o nome de Vitória Karoliny e voltou a afirmar que tinha apenas 12 anos. A mulher foi acolhida pelo Centro de Referência à Infância e Juventude (CRIFF) após relatar uma história envolvendo exploração sexual, torturas e até a presença de agulhas espalhadas pelo corpo.
Levada à delegacia para esclarecimentos, Amanda acabou admitindo que a história apresentada às autoridades era fantasiosa e que costumava criar relatos semelhantes para conseguir abrigo e assistência.
Durante a apuração, policiais verificaram seus dados e realizaram o processo de identificação, confirmando que ela não era a adolescente de 12 anos que dizia ser, mas uma mulher adulta. Como não havia mandado de prisão contra ela e o município não possuía estrutura de acolhimento destinada a adultos na mesma situação, Amanda foi liberada.
Prisão em Santa Catarina
- Amanda foi presa em 2 de junho, em Joinville, no norte de Santa Catarina.
- Segundo a Polícia Civil, ela se passava por uma adolescente de 12 anos chamada “Gabriele”.
- A mulher viveu por cerca de 14 meses como filha adotiva de uma família no distrito de Pirabeiraba.
- A investigação apontou que ela utilizava uma identidade falsa para manter a farsa.
- De acordo com os policiais, Amanda possui histórico de golpes semelhantes em outros estados brasileiros.
- Durante o depoimento, ela confessou o crime.
- Após a prisão, foi encaminhada ao Presídio Regional de Joinville.
Meses vivendo nas ruas
Após deixar Registro, ela retornou à capital paulista. Em depoimento posterior à Polícia Civil, relatou que passou semanas vivendo nas ruas, em especial nas regiões da Praça da Sé e da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, no centro de São Paulo.
Nesse período, sobreviveu com refeições oferecidas por igrejas e contou com a ajuda de moradores de rua, que permitiam que ela dormisse em barracas improvisadas. Depois seguiu para Guarulhos e, sem permanecer muito tempo na cidade, embarcou de trem para Jundiaí, onde voltaria a assumir uma nova identidade.
Quando Amanda virou “Ana Clara”
A última parada de Amanda no estado foi Jundiaí, no interior paulista. Em agosto de 2022, ela chegou na cidade e voltou a assumir a identidade de uma menina de 12 anos, desta vez usando o nome Ana Clara dos Santos Oliveira. Ao procurar ajuda, relatou ter sido vítima de exploração sexual, estupros e cárcere privado no Ceará, o que mobilizou a Guarda Municipal, equipes de saúde e a rede de proteção à infância.
Inicialmente, Amanda foi encaminhada ao Hospital Universitário para atendimento médico. Depois, passou por um abrigo destinado a crianças e adolescentes e, posteriormente, foi transferida para o Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS IJ), onde recebeu acompanhamento especializado. Ao longo do acolhimento, porém, profissionais começaram a desconfiar da idade informada por ela devido às inconsistências entre o relato, o comportamento apresentado e suas características físicas.
Descoberta da farsa
Um exame de idade óssea apontou que a suposta adolescente tinha mais de 18 anos, o que levou a Polícia Civil a aprofundar as investigações. A confirmação veio após a comparação de prontuários médicos e registros de ocorrências semelhantes em outros estados, quando sua verdadeira identidade foi descoberta.
Pelos golpes ocorridos em Jundiaí, ela foi indiciada por falsidade ideológica e comunicação falsa de crime. O inquérito policial foi instaurado em 2 de setembro de 2022, e a denúncia foi recebida pela Justiça em junho de 2023. No entanto, Amanda foi citada por edital, não compareceu aos atos do processo e não constituiu advogado. Diante da ausência da acusada, a ação penal acabou suspensa e seu paradeiro passou a ser considerado desconhecido pela Justiça paulista.
*Metrópoles/Foto: Reprodução / Redes sociais




