As árvores estão neutralizando quase metade do aquecimento urbano causado pelo pavimento e pelos edifícios nas cidades do mundo, mas não estão proporcionando resfriamento suficiente nas cidades mais quentes e mais pobres, onde isso é mais necessário à medida que o mundo se aquece, segundo um novo estudo.
Quando calculada a média em todas as cidades do mundo, a cobertura arbórea — ao fornecer sombra e liberar vapor de água — resfria em média 0,15 grau Celsius, de acordo com um estudo publicado na revista Nature Communications.
Sem essas árvores, as cidades do mundo aqueceriam em média 0,31 grau Celsius devido ao efeito de ilha de calor urbana, em que telhados escuros e pavimentos absorvem calor. O mecanismo de aquecimento causado pelo homem é distinto das mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis.
Os pesquisadores construíram sua análise das quase 9 mil grandes cidades da Terra medindo as temperaturas em segmentos de cerca de 150 quarteirões cada. Isso permitiu que captassem os efeitos de resfriamento em cidades e bairros, de modo que as árvores do Central Park, em Nova York, por exemplo, não fossem creditadas pelo resfriamento de áreas mais urbanizadas a quilômetros de distância, no Bronx.
Cerca de 185 milhões de pessoas que vivem em 31 das maiores cidades sentem um resfriamento médio proporcionado pela cobertura arbórea de pelo menos 0,3 grau Celsius. Mas o principal autor do estudo, Rob McDonald, cientista da Nature Conservancy, disse que os grandes centros urbanos mais pobres e quentes, que mais precisam disso, não estão obtendo tanto alívio do calor intenso, o que pode matar ao confundir o cérebro, paralisar órgãos e sobrecarregar o coração.
Meteorologistas medem a diferença de temperatura entre o centro de uma cidade e uma área rural próxima para identificar o efeito de ilha de calor urbana. Os cientistas deste estudo utilizaram uma combinação de medições de estações meteorológicas, dados de satélite e modelos computacionais para avaliar o resfriamento proporcionado pelas árvores.
Pouco alívio
Em 20 cidades com pelo menos 3 milhões de habitantes, os residentes sentem menos de0,05 grau Celsius de resfriamento proveniente das árvores. Em quatro cidades — Dakar, no Senegal; Jeddah, na Arábia Saudita; Cidade do Kuwait e Amã, na Jordânia — a cobertura arbórea é tão mínima que os mais de 15 milhões de pessoas que vivem lá praticamente não obtêm nenhum resfriamento das árvores.
No outro extremo do espectro, McDonald analisou cidades onde a cobertura arbórea resfria pelo menos 0,25 grau Celsius. Quase 40% das cidades em nações ricas obtêm esse nível de resfriamento, mas pouco menos de 9% nos países mais pobres têm esse nível de alívio proporcionado pelas árvores, segundo o estudo.
A lista dos lugares que mais resfriam é liderada por Berlim e inclui Atlanta, Moscou, Washington, Seattle e Sydney, que têm mais árvores. Por exemplo, Atlanta tem 64% de sua área territorial coberta por copas de árvores, disse McDonald. Áreas ricas na América do Norte têm lotes maiores, propriedade individual e residentes com mais influência política, fatores que contribuem para o crescimento de mais árvores e uma cobertura maior, disse Chris Greene, da Universidade de Dalhousie, no Canadá, que não participou do estudo.
“Existe essa desigualdade”, disse McDonald. “Quando se olha para as cidades globalmente, há muitas, muitas cidades, especialmente em países em desenvolvimento, que têm cobertura arbórea muito baixa; por isso, acho que o número de resfriamento da temperatura do ar ficou um pouco abaixo do que esperávamos.”
Thomas Crowther, ecologista da Universidade Rei Abdullah de Ciência e Tecnologia, na Arábia Saudita, disse que cada pequena ação ajuda. Ele está em uma região onde as cidades quase não têm resfriamento proveniente da cobertura arbórea, muitas vezes porque a água é um bem escasso.
“À medida que até 75% da população humana migra para ambientes urbanos, esses efeitos de amortecimento da vegetação urbana serão vitais”, disse Crowther, que não participou da pesquisa. “Mas precisamos reverter as desigualdades devastadoras na distribuição das árvores urbanas, para que seus benefícios possam ser aproveitados pelas comunidades de baixa e média renda, que muitas vezes são as mais vulneráveis aos efeitos das temperaturas extremas.”
Os autores do estudo afirmaram que as cidades, especialmente as mais pobres e quentes, podem e devem fazer mais para aumentar a cobertura arbórea. Mas, devido às limitações na disponibilidade de água, terra e espécies adequadas, combinadas com o agravamento das mudanças climáticas, no máximo elas reduziriam o aquecimento urbano futuro em 20%, disse McDonald.
“As árvores não nos salvarão das mudanças climáticas”, disse McDonald. “Os cenários climáticos mostram um mundo muito mais quente, e há um limite para o quanto a cobertura arbórea pode ajudar nisso”.
Ainda assim, plantar árvores traz benefícios além da redução do calor. Em 2019, Crowther e Jean-François Bastin, em um estudo publicado na revista Science, sugeriram plantar um trilhão de novas árvores — além dos 3 trilhões de árvores que já crescem no planeta — para absorver dióxido de carbono, e não tanto por seu efeito de resfriamento.
“Plantar árvores ajuda a combater as mudanças climáticas de várias maneiras, mas essa estratégia está longe de ser suficiente para desacelerar as mudanças climáticas de forma significativa”, afirmou Jonathan Overpeck, reitor da Faculdade de Meio Ambiente da Universidade de Michigan, que não participou do estudo. “Somente abandonando os combustíveis fósseis em favor das energias renováveis e do armazenamento em baterias é que podemos esperar conter as mudanças climáticas que estão causando estragos em todo o planeta”.
Fonte: Amazonas Atual/Foto: Arthur Castro/Secom
