Um ano recheado de novidades. A maior revolução técnica da história da Fórmula 1. E a pré-temporada da categoria chega ao fim após 11 dias (cinco – fechados – em Barcelona e seis – abertos – no Bahrein). As três semanas de testes trouxeram, como de hábito, mais perguntas do que respostas. Muita gente escondeu o jogo. Por outro lado, alguns mostraram até demais – e surpreenderam. O grande ponto positivo foi a confiabilidade: à exceção da Aston Martin e seu motor Honda, todas as outras dez equipes vão para o GP da Austrália, em Melbourne, com uma boa quilometragem neste novo regulamento. E sem tantos problemas graves. Entretanto, outras questões se impuseram: falaremos delas ao longo desse texto.
No papel, o mais rápido – e vamos considerar aqui apenas os testes do Bahrein – foi Charles Leclerc, da Ferrari. Com o tempo de 1:31.992, o monegasco colocou a Ferrari no topo da tabela de tempos na hora final da última sexta-feira em Sakhir, usando os pneus C4, o segundo mais macio disponível. Ele ficou mais de oito décimos à frente do tempo marcado por Kimi Antonelli, da Mercedes, no dia anterior. Mas sabemos que, em pré-temporadas, os tempos marcados são muito pouco significativos. Entretanto, no caso da Ferrari, a pré-temporada foi recheada de boas notícias: o carro mostrou confiabilidade, assim como o novo motor. Aliás, o turbocompressor com dimensões menores pode ser um trunfo nas largadas deste ano, ainda que a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) tenha ajustado o tempo do procedimento. Deu até para apresentar novidades, como o apêndice colocado à frente do escapamento e a avaliação da asa móvel traseira que gira 180° e fica invertida em relação ao solo.
Mesmo escondendo o jogo, a Mercedes segue como a favorita neste início de temporada. O único ponto de atenção para a equipe alemã está no motor: eles precisaram trocar duas vezes a unidade de potência na segunda semana do Bahrein por problemas de confiabilidade. Mas o inglês George Russell e o italiano Kimi Antonelli colocaram as flechas de prata no topo dos rankings de simulações de corrida e também de classificação. Entretanto, é fato que a polêmica da taxa de compressão variável dos motores alemães roubou a cena – e provocou mudanças no regulamento. As fornecedoras terão de se adequar ao novo teste – com a temperatura a 130°C – até o dia 1º de agosto, durante as férias de verão da categoria. Uma clássica decisão política da FIA, que agradou às outras quatro fabricantes da Fórmula 1: Ferrari, Red Bull Ford, Audi e Honda. Até lá, a Mercedes terá chance de construir uma boa vantagem no campeonato. Isso, claro, se a vantagem alemã for realmente confirmada.
Um ponto positivo do tempo de pista nestes testes foi a proximidade entre as quatro primeiras equipes. Se Mercedes e Ferrari parecem estar realmente na frente, McLaren e Red Bull não estão tão distantes assim da briga por vitórias. Temos aí um ponto importante para o motor que a equipe austríaca construiu com a chancela da americana Ford. É a primeira vez que eles constroem uma unidade de potência. E se esperava muito pouco neste início. O propulsor surpreendeu pelo desempenho, mas também pela confiabilidade. Isso sem falar no fator Max Verstappen, o melhor piloto da Fórmula 1 atual. Já a McLaren tem o motor Mercedes, mas não usou unidades atualizadas no Bahrein. A equipe inglesa tem a seu favor a continuidade de um projeto vencedor nos últimos dois anos, com o atual campeão Lando Norris e o australiano Oscar Piastri querendo mostrar serviço após a decepcionante reta final de 2025. Nesta disputa, a Red Bull foi melhor nas simulações de volta lançada, enquanto a McLaren teve vantagem nos chamados “long runs”.
A distância das quatro grandes para as equipes de meio de pelotão pareceu grande. Entretanto, a briga entre elas está ferrenha. Cinco times têm condições de brigar por pontos neste início de temporada: Alpine, Audi, Williams, Haas e Racing Bulls. Nesta disputa, para mim, o grande destaque positivo foi a nova equipe alemã. O projeto chefiado por Mattia Binotto e com Jonathan Wheatley à frente nos fins de semana pareceu ter sido muito bem pensado. Passo a passo, sem afobação. O desempenho do alemão Nico Hulkenberg e do brasileiro Gabriel Bortoleto cresceu gradativamente desde a primeira sessão de testes em Barcelona. E mostrou muita evolução ao longo dos seis dias no Bahrein. É claro que ainda existem problemas a serem solucionados, ainda mais em um projeto que começou do zero. Mas a forma de trabalho da Audi se mostrou extremamente competente. Uma grande notícia.
Por último, claro, estão Cadillac e Aston Martin. Da equipe americana, é verdade, pouco se esperava em seu ano de estreia. Tanto Sergio Pérez quanto Valtteri Bottas mostraram um desempenho bem abaixo das equipes médias. E sem grandes perspectivas de melhora a curto prazo. Por outro lado, a Aston Martin foi a grande decepção da pré-temporada. O AMR26 quase não andou por problemas causados, em sua maioria, pelo motor Honda. Mas o câmbio fabricado pela equipe inglesa também deixou Fernando Alonso e Lance Stroll na mão. Foi tão desastroso que ela abandonou os testes no meio do último dia por falta de peças sobressalentes para o motor: todas as que foram levadas para o Bahrein quebraram. Definitivamente não começou bem a era Adrian Newey, o mago da aerodinâmica, na Aston Martin.
Regulamento é grande polêmica no Bahrein
O elefante na sala, porém, foi o regulamento técnico. Alguns pilotos reclamaram e tanto a FIA quanto a Fórmula 1 já iniciaram estudos para tentar minimizar o lift and coast (quando o piloto tira o pé para recuperar energia) e também aumentar a duração das baterias. Inclusive, as equipes já testaram mudanças na configuração da entrega de energia pelo MGU-K. É esperado que ajustes sejam feitos depois do GP da Austrália, se necessário. Quanto à gestão de energia, é apenas uma mudança de algo que sempre existiu. Já se geriu combustível (lembram dos anos 1980?), desgaste dos pneus, equipamento (por problemas de confiabilidade)… Afinal, a Fórmula 1 é cíclica. O grande ajuste, a meu ver, terá de ser feito para aumentar as ultrapassagens. Mas, de novo, prefiro esperar a corrida em Melbourne para avaliar e ter uma opinião mais justa acerca do tema.
A grande questão aqui é que não dá para empreender uma volta ao passado. Também sou entusiasta dos motores V12, V10, V8. Mas não dá também para fechar os olhos para o futuro. Está claro que a Fórmula 1 adotou esse regulamento para atrair novas montadoras. E funcionou, inclusive. A Audi entrou, a Honda voltou e a General Motors também vai fabricar seus motores. Não há muito jeito: a categoria precisa ser relevante para essas empresas. Ou pelo menos servir como uma plataforma de evolução de seus produtos. Não tenho dúvidas de que as regras serão ajustadas. Aliás, é uma situação bem parecida com 2014, quando a F1 adotou os híbridos. Tudo evoluiu muito nos últimos 11 anos e a categoria cresceu absurdamente. Não vejo porquê não acreditar que será parecido agora nesta temporada de 2026.
Fonte: Globo Esporte/Foto: Simon Galloway/LAT Images


