Caso Eloá: 15 anos depois, vizinhos relatam tensão e angústia de morar em área onde jovem foi feita refém

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Após 15 anos do sequestro e da morte de Eloá Cristina Pimentel, feita refém dentro do próprio apartamento durante cinco dias e morta pelo ex-namorado, Lindemberg Alves, a área onde o crime ocorreu ainda ecoa tensão e é marcada pela angústia dos moradores. 

O bloco 24 da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano) no Jardim Santo André, no ABC paulista, foi televisionado incessantemente entre os dias 13 e 17 de outubro de 2008. E o local, que ficou nacionalmente conhecido pelo cárcere privado e pela morte da estudante de 15 anos, hoje é o lar de pessoas que só tentam esquecer a tragédia.

“Já faz 15 anos do caso, mas parece que foi ontem. Ninguém deixa a gente esquecer”, diz uma moradora, que não quis se identificar. Mesmo com poucas palavras, é fácil perceber as marcas e o trauma que o crime deixou na vizinhança. 

Outros vizinhos preferem não falar sobre o caso e ficam em silêncio. Para muitos, é uma lembrança dolorosa que querem apagar da memória. Para outros, há o medo de falar sobre o tema e de ser cobrados por traficantes da região por atraírem a imprensa ao local.

Lembranças

Por telefone e de forma anônima, alguns moradores da CDHU que acompanharam o cárcere de Eloá contaram ao R7 as lembranças que guardam daqueles cinco dias de “medo” e “tortura”. 

“Eu estava em casa com meu primeiro filho, que tinha apenas 3 meses no dia. Eu moro no térreo e lembro de ouvir a movimentação da polícia. Era muita viatura e muita imprensa. Eu não sabia o que estava acontecendo ali, nenhum dos moradores sabia no início. Eu fui começar a entender quando eu liguei a televisão e estava passando ao vivo no jornal. Foi algo assustador”, lembra a vizinha Luana Melo**.

Lindemberg Alves, então com 22 anos, invadiu armado o apartamento da ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, na tarde do dia 13 de outubro de 2008. No local, estavam a estudante e três amigos: Nayara Rodrigues da Silva, Iago Vilera e Victor Campos, que faziam um trabalho escolar. 

O ex não aceitava o fim do relacionamento com Eloá e manteve a jovem e os amigos presos no apartamento. À noite, ao notarem que os filhos não retornaram para casa, os pais dos estudantes acionaram a polícia, que foi até o local. 

“Na primeira noite tinha muito barulho, muita falação e movimentação de pessoas a todo instante. Eu não consegui dormir, fiquei assustada, com muito medo de algum confronto policial. Pensei que pudesse acontecer algo comigo e com o meu bebê. Clima de tensão total no prédio”, conta Luana.

Moradores que conheciam Lindemberg e sua família disseram ter ficado “surpresos” com a situação. “Ele morava na região e vinha com frequência ao prédio. Era um rapaz muito trabalhador e sossegado. A família dele é boa. Ninguém imaginava que ele faria o que fez”, afirma outro vizinho, que preferiu não se identificar.

Libertação dos reféns

Ainda no dia 13, Lindemberg permitiu que Iago e Victor saíssem do apartamento, mas manteve Nayara e Eloá no local.

A amiga pôde sair somente no dia seguinte, mas, como parte das estratégias de negociação para a libertação de Eloá, Nayara voltou ao apartamento na manhã do dia 16. 

Nós ficamos reféns junto da Eloá porque não tínhamos autorização para sair. Ficamos presos. 

Durante os dias do sequestro, a polícia fez um cerco na região. E, segundo relatos dos moradores, quem estava na CDHU ficou impossibilitado de sair da área. “A rua estava cercada de policiais, repórteres e curiosos. Eu precisava ir trabalhar, mas teve dias em que não consegui sair”, afirma Carlos dos Santos**.

“Foi horrível. Eu nunca tinha visto uma situação dessa. Nós ficamos reféns junto da Eloá porque não tínhamos autorização para sair. Ficamos presos. A gente não conseguiu sair de casa nem para ir ao mercado. Mas isso foi irrelevante comparado ao sofrimento de Eloá”, diz Luana. 

A vizinha ainda se lembra dos momentos em que a estudante apareceu na janela. “Eu vi o sofrimento no rosto dela. Eu vi o dia em que a marmita subiu, vi o desespero dela, e essa imagem não sai da minha cabeça”, lamenta

Eloá pediu à mãe que tivesse calma

ROBSON FERNANDJES/ ESTADÃO CONTEÚDO

Simone Morais Duarte foi quem abrigou Ana Cristina Pimental, mãe de Eloá, durante todo o sequestro. A mulher morava no piso térreo do bloco 33 da CDHU, em frente ao prédio onde a adolescente estava presa.

A vizinha diz que, no momento em que Eloá apareceu na janela e pediu calma, estava falando com a mãe da jovem, que gritava pela janela do outro lado da rua. 

“A Tina [mãe de Eloá] saiu na janela e começou a gritar e pedir para o Lindemberg soltar a filha dela. Foi nessa hora que a Eloá pediu para ela ficar calma e disse que ficaria tudo bem”, relembra Simone. 

Aos prantos, Ana Cristina ligou para o telefone de casa, na expectativa de que o ex-namorado da filha atendesse. “O Lindemberg gritava falando que não ia largar a Eloá. Ele dizia: ‘Ela vai sair daqui só morta, eu não vou deixar ela sair’. No fundo, dava para ouvir a Eloá dizendo que ele não ia fazer nada porque não tinha coragem de matá-la.”

Invasão da polícia

Na noite do dia 17, após mais de cem horas de cárcere privado, policiais do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) e da Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo explodiram a porta do apartamento, alegando ter ouvido um disparo de arma de fogo no interior do local. 

Em depoimento, Lindemberg disse ter acompanhado pela TV a preparação dos policiais para invadir o apartamento. Quando viu a sombra de um dos agentes na escada, ele atirou na cabeça de Eloá.

Os policiais entraram em luta corporal com Lindemberg, que teve tempo de efetuar outros disparos em direção às reféns. Segundo moradores, um buraco que está na parede do bloco 24 em frente ao apartamento de Eloá teria sido causado por um dos tiros do criminoso.

Nayara saiu do apartamento andando e segurando uma toalha ensanguentada no rosto. Ela foi atingida de raspão por um tiro no rosto.

Além do disparo na cabeça, Eloá levou um tiro na virilha. Ela saiu carregada e foi transportada inconsciente para o hospital. A morte cerebral da jovem foi constatada no fim da noite de sábado (18).

Mesmo morando em frente ao local, Luana acompanhou a invasão da polícia pela televisão. “Meu coração estava na boca. Eu só conseguia escutar gritos. Foi tanto grito e tão alto que não consegui ouvir o disparo que matou Eloá”, diz.

Hospital

Eloá foi imediatamente encaminhada ao hospital. Ana Cristina acompanhou a filha e, segundo Simone, a mulher não imaginava a gravidade da situação. “Eu encontrei a Tina no hospital e perguntei ela se estava tudo bem. Ela disse que sim porque a filha tinha tomado apenas um tiro na virilha, mas que estava preocupada com o que poderiam fazer com Lindemberg e estava orando por ele.”

Ana Cristina não quis acreditar que a filha tinha morrido. “Mesmo quando ela descobriu que Eloá tinha sido baleada na cabeça, ela teve muita fé de que a filha ia sobreviver, mas isso não aconteceu”, conta Simone.

Luana diz que quando os vizinhos descobriram que Eloá tinha morrido houve um luto geral entre os moradores da região. “Foi devastador. Eu jamais imaginei que fosse ter esse desfecho pela quantidade de policiais que estavam ali. Se fosse uma operação bem executada, o desfecho podia ter sido diferente. Era muita polícia para ter esse fim. Não consigo entender até hoje”, lamenta.

A moradora ainda conta que a movimentação de policiais no local continuou alguns dias depois do fim do cárcere de Eloá. “O local não era conhecido, e eu lamento muito por hoje ser conhecido por conta dessa história. Não é orgulho ser conhecida por morar nesse lugar”, diz.

Como está Lindemberg?

De acordo com a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), Lindemberg cumpre pena em regime semiaberto e está custodiado na Penitenciária II de Tremembé, no interior de São Paulo.

Ele exerce atividade laborterápica no interior do presídio com direito a saídas temporárias, ao longo do ano, concedidas pelo Poder Judiciário. 

Em fevereiro de 2012, quatro anos após o crime, Lindemberg foi condenado pelo tribunal do júri de Santo André a 98 anos e dez meses de reclusão e ao pagamento de 1.320 dias-multa, sem o direito de recorrer em liberdade.

A defesa recorreu e, em sessão realizada em 2013, a 16ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo reduziu a pena do réu para 39 anos e 3 meses de reclusão com início em regime fechado e ao pagamento de 16 dias-multa.

*R7/FOTO: EDU GARCIA/R7 – 10.10.2023

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