Apesar da tensão com a Venezuela pela região de Essequibo, o comércio na cidade de Lethem, na Guiana, que fica na fronteira com o Brasil, segue normal. De acordo com o prefeito de Bonfim, cidade na fronteira com a Guiana, Joner Chagas (Republicanos), a disputa entre os países não tem afetado o movimento.
Lethem é a cidade guianense que, inclusive, fica no território de Essequibo e é conhecida como “paraíso de compras” para os brasileiros, com leis fiscais bem menos rígidas do que do outro lado da fronteira. Com isso, o fluxo no município de Bonfim é sempre constante.
O prefeito Joner Chagas publicou em suas redes sociais um vídeo em que faz o percurso para atravessar a fronteira da cidade com o país vizinho. No vídeo, ele mostra que não há a presença de militares no município, ao contrário de Pacaraima, cidade roraimense que fica na fronteira com a Venezuela.
No vídeo, Joner afirma que em Bonfim “tudo está tranquilo”, mas que existe sim uma preocupação com a disputa por Essequibo mas que “a vida está seguindo normalmente”.
“Não tem pressão venezuelana aqui, não. Há sim uma preocupação, comentários… existe também muito fake news […] Tá tranquilo, as pessoas da Guiana voltando, as pessoas aqui indo averiguação normal agora aqui passando aqui pelo posto da polícia federal normalmente”, diz o prefeito no vídeo.

Joner Chagas (Republicanos), prefeito de Bonfim, mostra tranquilidade no município que faz fronteira com a Guiana — Foto: Divulgação/Prefeitura de Bonfim
Joner mostra ainda que há tranquilidade no outro lado da fronteira, em Lethem. O prefeito acompanha essa situação desde antes do referendo que consultou os venezuelanos sobre Essequibo e desde sempre ele vem reafirmando que está “tranquilo”.
A médica veterinária Sofia Porto, de 29 anos, foi até a cidade guianense para fazer compras nessa quinta-feira (7). De acordo com ela, nada estava fora do comum além de uma placa com os dizeres em inglês “Essequibo pertence à Guiana”, em livre tradução.
Ela destaca que todas as lojas estavam abertas e com muitos clientes. O fluxo estava “normal”.
“Não tinha nenhum clima de que estava acontecendo algum conflito, estava todo mundo normal. A vida seguindo normalmente, as pessoas fazendo compras, todas as lojas abertas, supermercado restaurante, tudo aberto e não tinha nada de diferente”.
“A única coisa realmente diferente que a gente viu foi uma placa falando que o território que a Venezuela quer tomar pertence a Guiana uma placa não um outdoor”, disse a médica veterinária.

Outdoor em Lethem, na Guiana, afirmando que Essequibo pertence ao país — Foto: Arquivo Pessoal/Sofia Porto
Em Pacaraima, o Exército Brasileiro intensificou presença de militares e armamento na fronteira do Brasil com a Venezuela. O reforço de tropas e meios de emprego militar também ocorre em Boa Vista, capital de Roraima, segundo o comunicado. No dia 29 de novembro, o Ministério da Defesa já havia anunciado o reforço de segurança na região.
Nesta sexta-feira (8), o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, assinou seis decretos para incorporar Essequibo e transformar o território guianense em um estado venezuelano. A iniciativa ocorre no dia seguinte ao anúncio de que os Estados Unidos realizariam exercícios militares na Guiana, inclusive em Essequibo, o que a Venezuela interpretou como uma “provocação”.
A Guiana e a Venezuela disputam a região de Essequibo há quase 200 anos. Desde 2018, o caso tramita na Corte Internacional de Justiça (CIJ) porque a Guiana recorrer ao tribunal por não acreditar que teria mais condições de negociar de forma conciliadora com a Venezuela.
Disputa por Essequibo
A região de Essequibo tem um território de 160 mil km² — cerca de 70% do território atual da Guiana — e concentra reservas de petróleo estimadas em 11 bilhões de barris. A área é superior à de nações como Inglaterra, Cuba ou Grécia.
Metade dos 1,6 mil quilômetros de fronteira da Guiana com o Brasil estão na região de Essequibo, o território do país vizinho que o governo de Nicolás Maduro, da Venezuela, quer anexar.
São cerca de 790 km que se estendem do Parque Nacional Monte Roraima até Oriximiná, no Pará, com uma geografia que, segundo especialistas, favorece o uso do território brasileiro como passagem em uma eventual ação militar venezuelana – uma manobra, entretanto, considerada improvável por eles.
A Venezuela considera Essequibo, também conhecido como Guayana Esequiba em espanhol, uma “área reivindicada” e geralmente a exibe riscada em seus mapas. Enquanto isso a Guiana, que controla e administra a área, tem seis de suas dez regiões administrativas lá.
Os países disputam a região desde 1841. Em 2015, a disputa ficou mais acirrada, pois a companhia americana ExxonMobil descobriu campos de petróleo na região.
- A Guiana afirma que é a proprietária do território porque existe um laudo de 1899, feito em Paris, no qual foram estabelecidas as fronteiras atuais. Na época, a Guiana era um território do Reino Unido.
- Já a Venezuela afirma que o território é dela porque assim consta em um acordo firmado em 1966 com o próprio Reino Unido, antes da independência de Guiana, no qual o laudo arbitral foi anulado e se estabeleceram bases para uma solução negociada.
*G1/Foto: Divulgação/Prefeitura de Bonfim


