Como preparar o cérebro para lidar com a menopausa? Médica explica

Publicado em

Entre os inúmeros sintomas da menopausa, as ondas de calor tendem a receber mais atenção. Mas há muitas outras mudanças que as mulheres podem experimentar ao mesmo tempo, incluindo confusão mental, problemas de saúde mental e dificuldade para dormir.

Agora, uma pesquisa detectou mudanças claras no cérebro que podem explicar a causa desses imbróglios. O estudo analisou um grande grupo de mulheres e investigou como tratamentos como a terapia de reposição hormonal (TRH) pode impactar mulheres nessa fase da vida.

Ilustração mostra vários símbolos associados à menopausa, como um calendário e uma ampulheta - Metrópoles

A menopausa é uma fase natural da vida feminina, mas traz mudanças até dolorosas para o corpo

 

Para o estudo, publicado na revista Psychological Medicine, os pesquisadores analisaram dados de quase 125.000 mulheres que participaram do UK Biobank, um estudo de saúde de longa duração. Cerca de 11 mil dessas participantes também foram submetidas a exames de imagem cerebral por meio de ressonância magnética, o que permitiu aos pesquisadores observar regiões específicas do cérebro. As participantes responderam a perguntas sobre quaisquer sintomas da menopausa, bem como sobre sua saúde mental, sono e saúde em geral.

Elas foram divididas em três grupos: aquelas que ainda não haviam chegado à menopausa, aquelas que já estavam na pós-menopausa e nunca haviam usado terapia de reposição hormonal (TRH) e aquelas que já estavam na pós-menopausa e haviam usado TRH.

Os pesquisadores descobriram que, de forma geral, as mulheres que já haviam passado pela menopausa eram mais propensas a consultar um profissional de saúde devido à ansiedade, depressão ou nervosismo, e também a apresentar problemas de sono.

Ilustração com cores vibrantes que especifícam a relação entre o intestino e o cérebro - Metrópoles.
A neurologista acrescenta que se a pessoa está com sintomas depressivos, pode ficar mais desatenta, ter dificuldade de planejamento e apresentar prejuízos cognitivos durante essa fase

As mulheres na pós-menopausa também apresentaram reduções notáveis ​​no volume de massa cinzenta nas ressonâncias magnéticas, independentemente de usarem terapia de reposição hormonal (TRH) ou não. A massa cinzenta desempenha um papel importante no processamento de informações, controle motor, memória e regulação emocional.

Mulheres que já haviam passado pela menopausa e não utilizavam terapia de reposição hormonal apresentaram tempos de reação mais lentos em comparação com os outros grupos, embora o desempenho da memória tenha sido semelhante entre os três grupos.

Houve algumas diferenças surpreendentes entre mulheres na pós-menopausa que usavam terapia hormonal e aquelas que não usavam. Por exemplo, as mulheres do grupo que fazia terapia hormonal apresentaram níveis mais altos de ansiedade em comparação com as que não usavam, embora isso fosse consistente com o que acontecia antes mesmo da menopausa.

Foto mostra modelo de cérebro humano feito com linhas e tecido - Psicóloga explica por que ouvir opiniões diferentes causa desconforto - Metrópoles

A especialista defende que o cuidado com essa fase deve ser amplo, olhando não só para os sintomas físicos, mas também para a saúde mental e cognitiva

O cérebro feminino

A neurologista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília Luciana Barbosa destaca ao Metrópoles que entre 60% e 70% das mulheres que vão passar pela menopausa apresentam sintomas. Os principais são fadiga, alterações do sono, alterações de humor, sintomas vasomotores — como os calores — que podem acontecer durante o dia ou à noite e atrapalhar o sono, além de alterações cognitivas.

“As principais alterações de cognição que as mulheres relatam são dificuldade de concentração, sensação de perder a linha de raciocínio durante uma conversa e precisar de mais esforço para retomar o assunto”, comenta. “Também são comuns esquecimentos do dia a dia, como onde deixou objetos ou o que ia fazer, além de uma dificuldade maior em realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo.”

Luciana ainda comenta que essas mudanças têm impacto importante na rotina, mas, em geral, não comprometem a funcionalidade da mulher. Se isso acontece, é um sinal de alerta e precisa ser avaliado por um especialista, porque pode haver outros problemas além da menopausa.

“A menopausa traz um conjunto de sintomas — não só a questão da memória, mas também fadiga, alterações de humor, insônia e sintomas vasomotores — e tudo isso afeta a cognição como um todo”, comentou a médica.

A neurologista acrescenta que se a pessoa está com sintomas depressivos, pode ficar mais desatenta, ter dificuldade de planejamento e apresentar prejuízos cognitivos durante essa fase. “As alterações do sono têm impacto direto na memória, especialmente na consolidação das informações.”

Tratamentos e cuidados na menopausa 

A especialista defende que o cuidado com essa fase deve ser amplo, olhando não só para os sintomas físicos, mas também para a saúde mental e cognitiva. Os sintomas da menopausa precisam ser vistos como um conjunto. Alguns pacientes podem se beneficiar da reposição hormonal, principalmente quando há impacto significativo na qualidade de vida”, explica a neurologista.

Ainda assim, ela reforça que o tratamento vai muito além de medicação. “Mudanças no estilo de vida são fundamentais: atividade física, alimentação saudável e uma rotina de sono adequada fazem diferença”, prossegue. Nem todas as mulheres, inclusive, podem recorrer à reposição hormonal, o que torna outras abordagens — farmacológicas ou não — ainda mais importantes.
Essa atenção se justifica porque o cérebro feminino passa por transformações ao longo de toda a vida. “Desde a puberdade até a menopausa, há variações hormonais que geram modificações nas conexões cerebrais”, afirma. Segundo a especialista, esse processo é natural e contínuo. “Algumas áreas se fortalecem, enquanto outras podem ficar mais frágeis — e isso também acontece em regiões ligadas à memória durante a menopausa.”

Diante dessas mudanças, a adaptação da rotina se torna uma aliada importante. Pequenas estratégias podem ajudar a reduzir o impacto no dia a dia. “Anotar tarefas, evitar multitarefas e focar em uma atividade por vez ajuda a diminuir o desgaste mental”, orienta.

Criar mecanismos de organização e planejamento pode facilitar a rotina e trazer mais segurança. “Buscar formas de se organizar e adaptar o dia a dia é essencial para lidar melhor com os sintomas e manter a qualidade de vida”, conclui a especialista.

*Metrópolis/Foto: Richard Drury/Getty Image

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe

Assine Grátis!

Popular

Relacionandos
Artigos

Sem petróleo de Maduro e diante de bloqueio dos EUA à ditadura, Cuba sofre 2º apagão da semana

Os habitantes de Cuba enfrentam, desde a noite do último sábado...

As pautas paradas no Senado devido a rusga entre Lula e Alcolumbre

Desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) indicou...

Queda de avião monomotor em Manaus: o que se sabe e o que falta saber sobre acidente aéreo

Um avião monomotor caiu em Manaus neste sábado (21), deixando duas...

‘Uma verdadeira lenda’: morte de Chuck Norris comove artistas e lutadores; veja repercussão

A morte do ator americano Chuck Norris provocou comoção nas redes...