A derrota nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, as midterms, deve dificultar a agenda interna do presidente Donald Trump e abrir espaço para uma atuação mais concentrada na política externa.
Com o avanço dos democratas no Congresso, o republicano tende a enfrentar obstáculos para aprovar projetos e financiar iniciativas do governo, cenário que pode incentivá-lo a buscar protagonismo em negociações internacionais e operações militares — já que o presidente tem maior autonomia para atuar em questões externas.
A mudança de foco, contudo, não significa necessariamente uma estratégia de fortalecimento. Para o cientista político Gustavo Menon, a movimentação pode representar uma tentativa de contornar o desgaste interno, em vez de uma resposta às urnas.
“Trata-se da lógica conhecida do presidente que perde a maioria no Congresso: quando o Legislativo trava a agenda interna, o Executivo se volta para a arena em que depende menos dos parlamentares. O ponto crítico é que o eleitorado puniu justamente a política externa”, avalia.
A insatisfação com a economia e a política externa esteve entre os fatores que pesaram contra os republicanos. Pesquisa da NORC em parceria com o The Washington Post, com mais de 90 mil eleitores, mostrou que mais da metade dos entrevistados considerava a economia e o emprego alguns dos principais problemas do país. Nesse grupo, os democratas tiveram vantagem de 15 pontos percentuais na disputa pela Câmara.
A guerra contra o Irã também contribuiu para o desgaste do governo. Mais de 60% dos eleitores que apontaram o conflito como uma das principais questões nacionais votaram em candidatos democratas. A ofensiva ainda pressionou os preços da energia e ampliou as preocupações com o custo de vida, aproximando a política externa de uma das principais cobranças feitas a Trump.
“Voltar-se para fora é, portanto, uma fuga para a frente, e não uma resposta às urnas”, afirma Menon. O cientista político alerta ainda para o risco de a América Latina e o Caribe se tornarem palco de demonstrações de força do governo norte-americano.
Congresso pode travar agenda interna
Com a perda da maioria legislativa, Trump deverá enfrentar dificuldades para avançar em propostas internas. A aprovação de leis orçamentárias pode se tornar objeto de negociação entre republicanos e democratas, com risco de paralisação do governo, enquanto indicações para cargos estratégicos também podem encontrar resistência.
Em declaração nessa quarta-feira (4/11), Donald Trump reconheceu a derrota e surpreendeu ao elogiar os adversários. O presidente afirmou estar disposto a trabalhar com os democratas, que passarão a controlar o Congresso. “Parabéns aos democratas. Eles fizeram um bom trabalho […] Posso trabalhar com eles em muitas questões”, declarou.
Apesar da disposição em dialogar, Trump advertiu que pretende usar seu poder executivo para barrar propostas dos democratas. O presidente afirmou que poderá vetar qualquer projeto de lei enviado pelo partido, mesmo que tenha amplo apoio. “Eles podem enviar, digamos, 50 projetos de lei excelentes, com os quais estejam todos entusiasmados. Eu simplesmente os devolvo com um carimbo bem claro: ‘Veto’”, disse.
A oposição terá ainda maior capacidade de fiscalização sobre a Casa Branca, com audiências e intimações para investigar decisões do governo. Entre os possíveis alvos estão a guerra contra o Irã, ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico e expurgos nas Forças Armadas associados ao secretário de Defesa, Pete Hegseth.
Na área migratória, embora o Executivo mantenha a capacidade de implementar políticas de deportação, o financiamento dessas operações pode se tornar um dos principais pontos de disputa orçamentária.
“O cenário mais provável é um bloqueio mútuo entre Casa Branca e Congresso e crise entre os poderes nos Estados Unidos”, afirma Gustavo Menon.
Política externa oferece margem de atuação
Apesar das limitações impostas pelo Legislativo, o presidente norte-americano dispõe de instrumentos que permitem maior autonomia em assuntos internacionais. Entre eles estão ordens executivas, sanções, tarifas, acordos executivos e decisões militares que não dependem, inicialmente, de autorização do Congresso.
Gustavo Menon lembra que a ofensiva militar dos Estados Unidos contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, ocorreu sem aval legislativo. A legislação norte-americana, contudo, estabelece limites para operações militares sem autorização do Congresso, incluindo prazo de 60 dias para encerramento das ações ou obtenção de aprovação, além do controle parlamentar sobre o financiamento.
“Na prática, essa margem passa por três canais: instrumentos unilaterais, como ordens executivas, tarifas, sanções e acordos executivos que dispensam o Senado; o uso da força em ataques limitados e operações especiais, ao estilo da captura de Maduro; e uma diplomacia personalista”, explica.
A mudança na composição do Congresso, porém, só ocorrerá em 3 de janeiro, quando os parlamentares eleitos assumem seus mandatos. Até lá, Trump continuará a lidar com a atual configuração do Legislativo.
Irã, Ucrânia e China no radar
Na avaliação de Menon, Trump pode tentar reduzir os efeitos políticos e econômicos da derrota eleitoral em quatro frentes internacionais. A primeira seria um acordo com o Irã, capaz de aliviar a pressão sobre os preços dos combustíveis e a inflação, além de oferecer ao presidente uma oportunidade de apresentar um resultado diplomático.
A segunda envolve a guerra na Ucrânia. As negociações intermediadas pelos Estados Unidos, segundo o cientista político, podem representar uma oportunidade para Trump buscar um acordo e reivindicar protagonismo na resolução do conflito.
A terceira frente seria a negociação de acordos comerciais e de investimentos, especialmente com países asiáticos, incluindo a China. Nesse campo, porém, a derrota eleitoral pode reduzir a capacidade de pressão do republicano.
A quarta frente seria a América Latina, onde Trump teria menor custo político interno para demonstrar força. Menon aponta que o presidente pode até cogitar uma intervenção militar em Cuba, cenário que, na avaliação do cientista político, representa o risco mais preocupante para os países latino-americanos.
“Há, porém, um paradoxo: a derrota enfraquece o poder de barganha de Trump diante de Xi e Putin, pois os interlocutores sabem que o mandato dele tem prazo e que o Congresso pode desfazer parte do que for prometido”, avalia.
Fonte: Metrópoles/Foto: Arte Metrópoles



