Um estudo liderado pela Rede Amazônia Sustentável (RAS) mostrou que evitar incêndios e extração de madeira mitigaria 68% das perdas de biodiversidade, entre o período de 2010 e 2020 em uma área com mais de 3 milhões de hectares na Amazônia. Isso significaria 47% a menos de perdas de carbono.
O mesmo levantamento concluiu que impedir o desmatamento evitaria 28% dos prejuízos à biodiversidade e 61% das perdas de carbono. O estudo mostrou ainda que a restauração, isolada, compensaria somente 6% e 15% dessas destruições, respectivamente.
Os dados foram divulgados pela revista Science às vésperas da Semana do Clima de Nova York, que aconteceu recentemente em Nova York.
“Embora a gente saiba que é melhor não degradar do que depois recuperar o que foi degradado, carecíamos de uma análise quantitativa desses benefícios e da relação custo-benefício dessas intervenções”, diz Pedro Brancalion, professor associado de Florestas Tropicais da Esalq/USP.
Ele reforçou a conclusão do estudo segundo a qual os melhores resultados são conseguidos quando se combinam as três medidas: impedir o desmatamento, combater incêndios e extração de madeira, além de restaurar áreas degradadas.
Quando avaliado o resultado efetivo dessas três diferentes estratégias, relacionado ao custo de cada uma, a diferença é ainda maior entre elas. Segundo o levantamento, evitar a degradação da floresta tem um índice médio de custo-efetividade cerca de três vezes maior do que o de impedir o desmatamento e quase 15 vezes superior ao da restauração. Para o carbono, evitar o desmatamento apresentou o maior retorno, seguido pelo controle da degradação e pela restauração.
O pesquisador da Universidade de Lancaster, Leonardo de Souza Miranda, explica que a restauração é indispensável, porém ela não consegue compensar, sozinha, as perdas, enquanto o desmatamento e a degradação continuam avançando. “Restaurar sem proteger é tentar repor continuamente algo que segue sendo destruído”, diz.
Na mesma linha, a pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental, Joice Ferreira, que também é uma das autoras da pesquisa, diz que não existe uma única solução capaz de responder à crise das florestas tropicais. “Precisamos proteger as áreas remanescentes, impedir que elas sejam degradadas e restaurar territórios estratégicos”.
Nesse cenário das três estratégias combinadas, o estudo mostra que a biodiversidade aumentaria 22% e os estoques de carbono, 42% em relação ao patamar de 2010. A interação entre as medidas potencializa os resultados, já que florestas preservadas favorecem a recuperação de áreas próximas, enquanto o controle do fogo permite que a vegetação em regeneração sobreviva e amadureça. “A mensagem importante é que precisamos de soluções integradas. Não adianta desmatar um lugar e recuperar outro”, reitera Brancalion.
Ele acrescenta que para produtores rurais, para empresas agrícolas e todos que trabalham com o uso do solo, “este estudo aponta a importância, pensando numa escala de prioridade, de fazer um bom manejo e proteção da vegetação nativa que ainda há na propriedade e isso deve ser complementado com ações de restauração, quando necessário”.
As conclusões do estudo liderado pela RAS ampliam o olhar das políticas florestais, que têm sido concentradas no desmatamento e na restauração. Os autores defendem que prevenir incêndios e extração ilegal de madeira, garantir que a exploração de madeira autorizada cumpra as regras de manejo sustentável, reduzir o uso do fogo em áreas rurais, sempre que possível, e fortalecer brigadas locais se tornem parte central das estratégias de clima e biodiversidade.
O estudo reuniu dados de biodiversidade coletados em 381 áreas de amostragem, distribuídas por 38 microbacias, informações socioeconômicas obtidas em entrevistas com 499 propriedades rurais e imagens de satélite de alta resolução. Com base nessas informações, reconstruíram as mudanças entre 2010 e 2020 e simularam cenários em que três estratégias seriam adotadas isoladamente ou em conjunto.
Fonte: Amazonas Atual/Imagem: Reprodução/Ministério do Meio Ambiente
