Falta de integração da mobilidade tornou Manaus refém do ônibus

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Pouco citada entre prioridades pelo eleitor manauara nas pesquisas de opinião, a mobilidade urbana está relacionada diretamente ao transporte público de passageiros e ao tráfego de veículos. Mas vai além dessa logística urbana aparente.

“A infraestrutura urbana tem subsistemas que são o saneamento, a habitação e a mobilidade. A gente tem que pensar na cidade enquanto planejamento urbano integrado”, diz Melissa Toledo, vice presidente do CAU-AM (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas).

A especialista defende uma reflexão ampla sobre a estrutura urbana de Manaus. “A gente precisa ter um projeto de planejamento integrado imediato, a médio e a longo prazo. E aí os viadutos, eles são sim interlocuções de infraestrutura urbana, da mobilidade, que serve para desafogar trechos (da cidade)”, diz Toledo. “O viaduto aliado a outras interlocuções sim. Mas ele (o viaduto) implementado sozinho, não vai resolver um problema de mobilidade urbana do município.”, acrescenta.

Para a urbanista, a mobilidade é um dos subsistemas urbanos que deve estar conectada a outros suportes. “Todo mundo gosta de comparar Manaus com Curitiba (PR). Mas vamos ser realmente técnicos. A gente tem que ter um projeto macro, onde vamos realmente ter que desempenhá-lo por partes, ao longo do tempo. Não importa se a gestão é do Estado ou do município. Quanto tempo a gente tem um instituto de desenvolvimento urbano em Manaus, 21 anos?”, questiona.

Melissa Toledo afirma que o “processo de educação ao planejamento urbano” é algo novo em Manaus, comparado ao processo de outras capitais do país. “Então, independente de esferas estadual, municipal e federal, nós sabemos que um planejamento urbano, urbanamente falando, de quatro anos é imediatista, oito anos é médio e que um planejamento integrado ele se faz acima de 12 anos”, diz.

“Nós temos que ter políticas públicas do planejamento urbano integrado para que tenhamos resultados consolidados e voltados a uma qualidade de vida dentro de todos os subsistemas que compõem a infraestrutura e que a mobilidade urbana está inserida nessa categoria”, completa.

Sem a integração e a relação dos subsistemas urbanos, como saneamento, habitação, transporte, entre outros, o que vai existir é somente “paliativos”. “Mas cadê as políticas públicas do planejamento integrado? Aí a gente também precisa entender que existe uma hierarquia, que eu tenho o governo federal, eu tenho o Estado e eu tenho o poder municipal”, lembra.

Toledo defende a criação de políticas públicas que permitem a integração dos subsistemas urbanos para além das gestões públicas, para que a população possa sentir os efeitos positivos do planejamento.

“Não vai ter uma solução quanto ao planejamento integrado, se não tiver realmente políticas públicas integradas voltadas ao planejamento urbano integrado e que a gente tenha gestores desempenhando. E na troca das gestões tenha a continuidade, que é justamente o que não acontece na Região Norte. Não é algo característico só do nosso estado ou da nossa capital”, diz.

A especialista diz também que a integração deve existir nas instituições envolvidas no projeto de políticas públicas para o desenvolvimento urbano. “Para que um projeto de política pública para a mobilidade urbana funcione, os órgãos envolvidos devem ter integrados. Quem cuida da mobilidade? Dependendo da esfera do estado, a gente tem a fiscalização, a manutenção, dentre outros. Então, a gente precisa ter os órgãos, cada um dentro da sua competência, da sua atribuição, coesos, sincronizados, pautados dentro de um planejamento urbano integrado”.

Outros subsistemas mencionados pela urbanista estão na área jurídica e econômica e que Manaus tem exemplo de projeto urbano. “Vamos lá. Avenida das Torres. Quando que o projeto surgiu? Surgiu agora ou dez anos atrás? Há doze anos atrás? Mas por que tem esse delay (intervalo) também? Porque quando a gente passa a trabalhar com outras intervenções, eu estou falando de desapropriação e indenização, estou falando de regularização fundiária. E isso também requer tempo, isso é uma questão técnica. Eu vou desapropriar, eu tenho que ter laudos, levantamentos, dentre outros, para que o poder público adentre aquele espaço para fazer a melhoria”.

Transporte coletivo e viaduto

A integração inclui o transporte público de passageiros, que em Manaus é limitado ao ônibus. Esse modal é considerado ruim e ineficiente. Os veículos trafegam frequentemente lotados e alguns em condições mecânicas e de segurança ruins. Mesmo com a implantação de uma faixa exclusiva para ônibus e estações modernas, o tempo de espera ainda é longo.

Melissa Toledo afirma que o ônibus continuará existindo na cidade como principal meio de transporte urbano, mas não deveria ser o único. “Enquanto planejamento urbano integrado, a gente precisa estudar a possibilidade de um transporte intermodal, isto é, continuamos com o transporte terrestre, mas há a possibilidade de um modelo fluvial também? Mas o transporte terrestre, o ônibus, deve continuar. Inclusive, temos corredores urbanos que fazem a interlocução com diferentes zonas da cidade”.

Para a urbanista e conselheira do IAB-AM (Instituto de Arquitetos do Brasil), Taís Furtado, o ônibus não deveria ser o único meio de transporte coletivo em Manaus e defende um modelo de transporte integrado também.

Transporte individual congestiona ruas e trava o tráfego de veículos (Foto: IMMU/Divulgação)

“O ônibus em si não é uma solução ruim. O ideal seria um sistema de transporte integrado, onde determinadas áreas da cidade pudessem ser atendidas por outros meios de transporte como VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), metrô ou mesmo o transporte hidroviário. No entanto, exigem obras de longo prazo e intervenções substanciais na cidade, envolvendo desapropriações e altos investimentos. Por falta de planejamento de longo prazo não foi possível colocar em prática sistemas mais avançados e eficientes de transporte, como o sobre trilhos, por exemplo”, diz.

A conselheira defende que a finalidade do transporte público é prestar um serviço eficiente à população e não pode ter unicamente como objetivo o lucro das empresas que operam no sistema.

“A falta de uma infraestrutura que garanta que os ônibus possam circular livremente nos horários de pico, tornam o ônibus um transporte pouco confiável, desconfortável e muito lento. Para que o serviço tenha qualidade é necessário investimento e além disso subsídio do poder público”, diz.

A integração e a relação dos subsistemas urbanos, como saneamento, habitação e transporte, também devem ser colocados em prática com outros projetos. “A oferta de solo urbano e de moradias nas áreas mais distantes do centro da cidade deve ser acompanhada também por um planejamento para a ampliação da capacidade do transporte e para a operação do sistema”, diz.

E complementa que a integração significa também oferecer veículos coletivos de qualidade para que o número de veículos individuais seja menor na cidade e reduza os congestionamentos. “Dificilmente um sistema de transporte púbico com pontos de parada sucateados, baixa confiabilidade quanto à pontualidade e que não oferece conforto aos passageiros, será o modo de transporte preferencial de quem pode optar por se deslocar de outra maneira. Reduzir o número de veículos particulares é um dos maiores desafios para que tenhamos cidades sustentáveis”, diz Taís Furtado.

O crescimento de Manaus não exige somente transportes integrados, mas estruturas viárias eficientes, diz a urbanista. “Os viadutos são necessários em muitos casos, visto que o sistema viário de Manaus é uma rede pouco servida por vias no sentido leste-oeste e o sistema viário principal é muito carregado nos horários de pico. No entanto, a obra por ela mesma não consegue entregar para a população os benefícios prometidos, como aumento da velocidade das vias, uma vez que estas encontram-se saturadas pelos veículos automotores em geral”.

Transporte público e saúde

Segundo um estudo da Universidade de Montreal, no Canadá, a duração da viagem, a distância e os meios utilizados em percursos rotineiros podem prejudicar o aspecto psicológico do ser humano. Distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental intenso, são alguns sintomas.

“Quando a gente fala de saúde mental, nós temos muitos fatores para desencadear transtornos. A gente consegue destacar nessa questão do transporte público alguns fatores que podem contribuir sim, ao bem-estar emocional da pessoa”, diz a psicóloga Natássia Santos.

Segundo ela, os efeitos negativos na saúde psicológica dos usuários de ônibus urbanos são “impactantes” e se manifestam antes de sair de casa, em só pensar em pegar o transporte coletivo.

“Geralmente, propicia aos usuários estresse, ansiedade, isolamento social e até depressão. Observando que a pessoa, quando ela sai de casa, ela já produz vários pensamentos sobre o tempo que ela vai passar no trânsito, se o ônibus vai estar lotado, principalmente no horário de pico, o cuidado para não ser assaltada, pensar em uma possível importunação sexual, no caso das mulheres”, diz.

A psicóloga conta que o estresse causado por dificuldades no trajeto varia de acordo com a pessoa, as condições em que o percurso acontece e o local onde o indivíduo trabalha. “É uma série de pensamentos desmotivadores que contribuem na baixa do bem-estar emocional da pessoa e que, com toda certeza, se o transporte tivesse uma boa infraestrutura, com acessibilidade, conforto e segurança, melhoraria e muito a qualidade de vida de quem o utiliza”, diz.

Transtornos mentais

A psiquiatra Silvia Nery defende a mobilidade urbana associada à segurança pública e que desta forma ofereça benefícios aos usuários do transporte público na cidade. “A violência urbana como um todo acaba influenciando na mobilidade urbana. Uma pessoa assaltada, por exemplo, no transporte coletivo, desenvolve sintomas pós-traumáticos. Ela não consegue mais sair de casa, não consegue mais trabalhar porque desenvolve estresse, fica irritada pelo acontecido porque os assaltos, na maioria, são violentos, com armas”, diz.

Nery conta que atende pessoas vítimas de assaltos no transporte coletivo e é um fato que afeta também os motoristas e cobradores. “Na vítima vai desenvolvendo uma série de traumas e que se manifestam em sintomas físicos e comportamentais. Por exemplo, quando ela vê uma camisa, um boné, cores, alguma característica física que lembra o assaltante, ela sente dores musculares, náuseas, dores de cabeça… A pessoa não consegue mais trabalhar ou exercer atividades do dia a dia”, diz.

Foto:Tiago Correa/UGPE/ *AM Atual

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