Governo de Goiás pagou R$ 200 milhões a grupo investigado por ligação com PCC

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A gestão do ex-governador de Goiás e pré-candidato ao Planalto, Ronaldo Caiado (PSD), destinou ao menos R$ 209 milhões a empresas que são ou já foram controladas por um homem acusado de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre os anos de 2020 e 2025, o governo de Goiás pagou uma organização social da área de saúde que tinha como fornecedoras as empresas de Thiago Telles Batista de Souza, investigado por suspeita de atuar com o PCC.

Segundo a Polícia Civil de São Paulo (PC-SP), Thiago Telles é o “beneficiário final” de um esquema de lavagem de dinheiro do PCC abastecido por recursos provenientes do tráfico de drogas, jogos ilegais e golpes contra consumidores. Telles foi alvo de busca e apreensão em dezembro passado no âmbito da Operação Falso Mercúrio. A operação teve desdobramentos nesta quinta-feira (28/5), com a Falsa Las Vegas.

Apelidado de “Tom Cruise”, em referência ao ator do filme “Top Gun”, Thiago comprava grandes volumes de dinheiro em espécie com intermediários da facção criminosa em período coincidente com seus contratos públicos, segundo o inquérito e outros documentos levantados pela reportagem do Metrópoles. Dessa forma, os valores poderiam circular fora do alcance do Banco Central e do Coaf, órgão de inteligência financeira do governo.

Em Goiás, o dinheiro dos contratos públicos chegava às empresas de Thiago por meio da intermediação da organização social (OS) de saúde Instituto de Medicina e Estudos (Imed).

O governo de Goiás contrata o Imed, que, por sua vez, terceiriza a gestão dos hospitais para outras empresas. Entre 2019 e 2025, a organização recebeu R$ 1,4 bilhão do estado de Goiás, de acordo com registros do portal da Transparência de Goiás.

Em nota ao Metrópoles, Caiado disse que autoridades federais de controle deveriam ter informado a seu governo que fornecedores das OS contratas pelo estado tinham ligação com narcotraficantes.

Procurada, a Secretaria de Saúde de Goiás disse à coluna que “a contratação de fornecedores pelas organizações sociais é de responsabilidade exclusiva da entidade gestora, não dependendo de autorização prévia da secretaria”. As empresas citadas em relatório da polícia negaram irregularidades.

A seleção do Imed ocorreu por meio de chamamento público, modelo em que organizações sociais apresentam propostas e o governo escolhe a considerada mais adequada.

organização social disse desconhecer as investigações policiais e afirmou que cada contratação que faz “obedece a processo de seleção pública, previsto em regulamento de compras aprovado pelos órgãos de controle”. “A relação do Imed com empresas fornecedoras de serviços médico-hospitalares, bem como com as pessoas mencionadas, sempre ocorreu estritamente no âmbito profissional.”

Com um discurso frequente de combate às facções criminosas, Caiado fez elogios públicos ao Imed em diferentes ocasiões e apareceu ao lado da advogada Maria Carolina Lazarini Dias — diretora jurídica do Imed e sócia do escritório de advocacia que assina contratos pelo instituto — em eventos oficiais e sociais.

“Agradeço a toda a minha equipe e, principalmente, à administração do Imed, que, como organização social, veio com o objetivo de mostrar que podíamos fazer bem e atender à população”, afirmou Caiado em maio de 2021, durante visita ao Hospital de Formosa (GO), a 80 km de Brasília (DF), administrado pela entidade. Presente no evento, Maria Carolina Lazarini disse que o governador tinha “visão de futuro”.

Com os recursos recebidos, o Imed contratou empresas para administrar oito hospitais e unidades de saúde em Goiás. Dessas, firmas vinculadas a Thiago ganharam R$ 209 milhões, mais de 10% do valor total recebido pelo Imed do governo de Goiás.

Os dados públicos mostram que o dinheiro não só abasteceu empresas do investigado por ligação com o PCC, como também uma firma em nome da advogada Maria Caroline Lazarini, diretora do Imed.

Intermediários do PCC movimentavam dinheiro em espécie

Thiago “Tom Cruise” e seu sócio, Luiz Fernando Donke, eram do comitê gestor do Lide de Campinas (SP) até o final do ano passado. O Lide é uma empresa de lobby e eventos comandada pelo ex-prefeito e ex-governador de São Paulo João Doria. Funciona como um clube em que os associados pagam uma anuidade. Thiago, Luiz Fernando Donke e Caroline Lazarini deixaram a instituição por não pagarem a anuidade da filiação, apurou a reportagem.

O comitê gestor do qual eles faziam parte sugere nomes de pessoas para participarem de palestras no Lide. Em agosto de 2024, o grupo organizou um almoço-debate para Caiado com 120 pessoas. Caroline, Thiago Telles e Donke estavam presentes. Em nota, o Lide disse à reportagem que o trio deixou a instituição. “O Lide pauta sua atuação pela transparência e estrita legalidade”, diz um trecho.

Empresário tinha contrato com prefeituras

As investigações da Polícia Civil de São Paulo apontam que empresas ligadas a Thiago Telles não só atuavam com lavagem de dinheiro do crime organizado como tinham contratos com órgãos públicos paulistas, como prefeituras.

“A presença de empresas sob forte suspeita de crimes e movimentações atípicas no rol de contratadas pelo poder público representa grave risco institucional, pois abre possibilidade concreta de que recursos estatais sejam desviados e utilizados como mecanismo de integração de capitais ilícitos”, afirma relatório da polícia. “A participação dessas empresas em processos licitatórios compromete a lisura dos certames, fragiliza a transparência da gestão pública e expõe a administração a riscos de inexecução contratual e danos ao erário.”

Fonte: Metrópoles/Foto: Divulgação/Imed/27.set.2023

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