A Justiça de São Paulo decidiu na tarde desta quinta-feira (9) suspender por dois anos o processo contra o consultor e influenciador Thiago Schutz por ameaça e violência psicológica contra a atriz Lívia La Gatto e a cantora e sambista Bruna Volpi. Os crimes foram cometidos em fevereiro deste ano pelas redes sociais.
A suspensão do processo foi proposta pelo Ministério Público (MP) e está condicionada a Thiago não vir a ser processado novamente por quaisquer outros crimes. Além disso, ele está obrigado a comparecer bimestralmente por esse período a um cartório para assinar sua presença e justificar suas atividades profissionais. Também não poderá sair da cidade onde reside, por mais de oito dias, sem autorização.
Se não for processado novamente, o processo por ameaça e violência psicológica contra a atriz e a cantora será extinto e arquivado. Do contrário, a suspensão do processo será revogada e ele voltará a tramitar normalmente na Justiça.
O julgamento desta quinta foi por videoconferência. Nesse caso, as partes envolvidas na ação não compareceram presencialmente na 24ª Vara Criminal do Fórum Criminal da Barra Funda, na Zona Oeste da capital.
Como a lei prevê a possibilidade de suspensão do processo em casos de ameaça e violência psicológica, o MP propôs logo no início da audiência essa medida à Justiça, que concordou.
Como o Ministério Público propôs a suspensão logo no início do julgamento, não ocorreram os depoimentos das testemunhas do caso, bem como as oitivas de Lívia e Bruna, e o interrogatório de Thiago.
Outra possibilidade seria a do MP ter pedido a condenação do réu pelos crimes, o que poderia resultar numa pena máxima de um ano de prisão em regime aberto, ou pagamento de indenização por danos morais às vítimas. Nesse caso, teria ocorrido também os depoimentos das partes e interrogatório do réu.
O que dizem os citados
Segundo a acusação, os crimes ocorreram após Lívia e Bruna criticarem comentários de Thiago sobre mulheres, que consideraram machistas e misóginos. Em março, a Justiça de São Paulo havia aceitado a denúncia da Promotoria e tornado Thiago da Cruz Schoba, que se apresenta como Thiago Schutz na internet, réu no processo. Ele sempre respondeu em liberdade.
“A acusação ainda pode recorrer. Vamos recorrer”, disse ao g1 a advogada Carolina Soares, que defende Lívia ao lado do advogado Iberê Bandeira, logo após o julgamento. Ela afirmou que ainda irá conversar com sua cliente para decidir que medida tomará em relação à decisão judicial.
Procurada para comentar a decisão judicial, Bruna disse que “Thiago continua fazendo discursos misóginos e machistas pela internet, espalhando ódio contra as mulheres”.
“No nosso país, se você faz um discurso racista, homofóbico, etarista ou capacitista por exemplo, já são considerados crimes. Apenas o discurso de ódio contra a mulher ainda não é criminalizado. Porém, afeta a vida de todas nós”, complementou a cantora.
“Justiça e MP simplesmente seguiram a lei. A lei prevê que para esses tipos de crimes existe a suspensão condicional do processo”, afirmou o advogado Ricardo Marinho, que defendeu o influencer juntamente com seus sócios, os também advogados Guilherme Wiltshire e Otoniel Leite da Marinho & Wiltshire Sociedade de Advogados.
“Gostaria de agradecer primeiramente a Deus, depois ao excelente trabalho prestado pela Justiça e pelos meus amigos e advogados”, disse Thiago num vídeo e mensagens postados em seu Instagram, após a decisão judicial. “Agradeço também a todos vocês que estiveram do meu lado desde o início. Estamos juntos sempre”.
Proibido de falar com mulheres
Ainda em março, a Justiça já havia concedido medidas cautelares a Lívia e Bruna, a pedido delas, para que Thiago não se aproxime de nenhuma das duas. Ele estava obrigado a ficar, no mínimo, 300 metros distante das duas. Também estava proibido de falar com elas, seja pessoalmente ou pela web.
Além disso, não poderia procurá-las ou frequentar o mesmo lugar que elas, mesmo que tenha chegado antes ao local. Se descumprisse alguma das exigências estabelecidas, a Justiça poderia decretar a prisão preventiva do influenciador digital para que respondesse preso pelos crimes.
Segundo sua defesa, essas medidas cautelares deverão se encerrar com a suspensão do processo contra Thiago. “Em breve isso será revogado”, afirmou o advogado Ricardo.
Influenciador nega acusações
A Polícia Civil de São Paulo investigou Thiago por ameaçar Lívia e Bruna. Em seu relatório final entregue ao MP, o 27º Distrito Policial (DP), Campo Belo, pediu que a Justiça mantenha as medidas cautelares concedidas anteriormente para as duas vítimas.
Como o crime de ameaça prevê pena de no máximo dois anos de prisão, Thiago não foi indiciado pela polícia. O entendimento da delegacia é o de que a adoção de medidas cautelares poderá substituir a decretação da prisão do influenciador. E também garantir a segurança das vítimas.
Também em março, Thiago foi ouvido pela investigação e negou as acusações. Alegou que não teve intenção de ameaçar Lívia e Bruna. Afirmou ainda que a mesma mensagem foi enviada exatamente do mesmo jeito para outros influenciadores.
‘Coach do Campari’
Ele já havia gravado um vídeo em sua rede social negando ter cometido o crime contra elas. Thiago tem milhares de seguidores na web e, atualmente, lucra gravando vídeos com “conselhos” para homens. O influenciador administra uma conta no Instagram chamada “Manual Red Pill Brasil”, que tem mais de 330 mil fãs, a maioria homens.
Thiago viralizou neste ano nas redes sociais por relatar em um vídeo como recusou tomar cerveja com uma mulher porque já estava bebendo Campari. Após o episódio, ele ficou conhecido como “Coach do Campari” e “Calvo do Campari”.
No vídeo, ele afirma que a oferta seria uma espécie de “teste” das mulheres para ver o quanto ele se manteria autêntico e original. Por causa da repercussão, a Campari divulgou nota à imprensa informando que não tem relação com o influenciador.
‘Fiquei com medo’, diz atriz
Em fevereiro, Lívia postou nas redes sociais um vídeo debochando de conteúdos de homens que têm discurso de ódio contra mulheres. A gravação também viralizou. Na sátira, ela ironiza Thiago, mas sem citar o nome dele. Depois disso, passou a receber ameaças do influenciador. Nesse período, contou ter recebido mais de dez ligações pelo Instagram.
O influenciador digital mandou mensagem à atriz exigindo que ela retirasse da internet um vídeo que satiriza comentários dele a respeito de mulheres. Caso contrário, ela receberia “processo ou bala”, segundo ele, sugerindo que a mataria.
“Fiquei com medo, acessa muitos gatilhos”, disse Lívia durante sua participação no programa Encontro, da TV Globo. “‘Não dá para você censurar todo mundo que você está oprimindo.”
‘Processo ou bala’, acusa cantora
Bruna também postou um vídeo sobre Thiago dizendo ter recebido inúmeras ligações em fevereiro por meio do perfil dele nas redes sociais. Ela se sentiu ameaçada pelo coach, que mandou mensagem dizendo para ela: “Para de falar merda”.
“O cara que falou para no mínimo três mulheres, inclusive pra mim: ‘Processo ou bala, se você não apagar os conteúdos sobre mim'”, disse Bruna neste ano, ao lembrar para seus fãs que já foi ameaçada por Thiago. Ela tem mais de 134 mil seguidores no Instagram.
As duas mulheres registraram boletins de ocorrência na delegacia contra Thiago e prestaram depoimentos contra ele.
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal/Instagram
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