Mãe de vítima do lutador de jiu-jítsu Melqui Galvão diz que foi chantageada com patrocínios e viagens: ‘Mente controladora’

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A mãe de uma das vítimas do lutador e treinador de jiu-jítsu Melqui Galvão, preso por suspeita de estupro, denunciou que o homem usava promessas de carreira e ameaças de cortar patrocínios para manipular e silenciar as vítimas.

Ao g1, a mulher, que é mãe de uma adolescente que denuncia abuso de Melqui em Jundiaí (SP), conta que a família registrou um boletim de ocorrência após a filha relatar o crime aos pais. Desde então, a atleta está afastada dos treinos e recebe acompanhamento psicológico.

A mãe, que não será identificada para preservar a filha menor de idade, detalhou como Melqui usava a estrutura de apoio que oferecia — como alojamento, alimentação e passagens — para chantagear as atletas. Segundo ela, o suspeito ameaçava cortar patrocínios caso não fizessem o que ele pedia ou se o denunciassem.

“É uma pessoa que, pela fama, passa confiança. Ele nos encheu de promessa para a carreira dela, era tipo um empresário, dizia que ela iria ganhar muito dinheiro com ele”, afirma.

A mulher também relatou que, para evitar a denúncia, o treinador tentou usar os sonhos da jovem a seu favor. “Ele sabia de um sonho dela com viagem ao exterior, disse que ia acionar os contatos para ela treinar fora, falou que daria a faixa preta e pagaria todas as viagens. Ele sabia que se ela saísse da academia iria chamar a atenção das pessoas.”

Por fim, a mãe desabafou sobre o trauma familiar e o sentimento de culpa por ter acreditado no treinador.

“A gente se culpa muito por ter confiado nele, mas agora a gente vê que era uma mente controladora. Estamos péssimos, não tem um dia que a gente não pense sobre isso tudo. É angustiante, mas esperamos que ela tenha paz para seguir em segurança e ele pague pelo o que fez.”

Reações, banimento e repercussão

A prisão temporária de Melqui Galvão foi determinada pela Justiça de São Paulo e conduzida pela Polícia Civil. As denúncias apontam pelo menos três vítimas, entre elas uma adolescente de 17 anos. Segundo a investigação, há relatos de atos libidinosos não consentidos durante competições e uma gravação em que o treinador admite indiretamente o ocorrido, tentando evitar que o caso fosse levado adiante com promessa de compensação financeira. Outras vítimas também relataram episódios semelhantes, incluindo uma que tinha 12 anos na época dos fatos.

Em nota conjunta, CBJJ e IBJJF anunciaram o banimento imediato de Melqui Galvão, proibindo sua participação em eventos e atividades ligadas às federações. As entidades afirmaram sentir “profunda indignação” e destacaram que as ações atribuídas ao treinador violam princípios éticos básicos do esporte. Também reforçaram o compromisso com a segurança de praticantes, especialmente crianças e adolescentes, e ressaltaram que casos de abuso serão tratados com rigor.

A prisão gerou ampla repercussão no meio esportivo. O filho do treinador, Mica Galvão, disse viver um momento difícil e pediu investigação rigorosa. A campeã olímpica Amit Elor, nora de Melqui, cobrou responsabilização e incentivou vítimas a denunciarem. O lutador Diogo Reis, amigo próximo de Mica, afirmou ter gratidão por Melqui, mas defendeu que as denúncias sejam apuradas e repudiou qualquer forma de violência contra mulheres e crianças.

‘Pedido’ de desculpas em áudio

Após o caso, Melqui enviou um áudio de 16 minutos e 42 segundos à família da vítima, material que foi fundamental para a polícia fundamentar o pedido de prisão. Na gravação, o treinador confessa ter tido “comportamentos e pensamentos impróprios”, mas tenta culpar a jovem, dizendo que ela o tratava de forma diferente.

No trecho do segundo 33 até 1 minuto e 30 segundos, Melqui fala que nada pode justificar a forma que agiu para com a aluna, apesar de interpretar que a menina agia de forma diferente com ele e que, por isso, existiriam sentimentos, segundo o suspeito.

– “Nenhuma coisa pode justificar o meu comportamento. Eu, como líder, como um cara que já tem uma certa idade, não poderia ter tido esse comportamento com a sua filha. Mas eu queria também falar que, de verdade, eu nunca planejei isso. Desde o primeiro dia que vocês entraram aqui, até o último dia que vocês saíram, eu nunca planejei isso, nunca quis esses meus pensamentos, né? A menina não tem culpa nenhuma, ela é bem jovem, mas alguns tratamentos que ela teve com relação a minha pessoa são tratamentos diferentes de uma aluna e um professor. Me tratava de uma maneira que nenhuma aluna minha me tratava. Isso me levou a crer que existia alguma coisa ali, além de um sentimento de aluno e professor”, disse no áudio.

Quem é Melqui Galvão

Melquisedeque de Lima Galvão Pereira é faixa preta de jiu-jítsu, atleta e treinador da modalidade, com atuação consolidada no esporte. Ele é responsável pela academia Escola Melqui Galvão que possui três sedes: uma em Manaus, uma em São Paulo e outra em Jundiaí. Além da carreira no esporte, Melquisedeque também é policial civil no estado do Amazonas.

As denúncias pelas quais o treinador responde atualmente envolvem ao menos três vítimas. Na segunda-feira (27), Melqui Galvão teve a prisão temporária decretada pela Justiça após investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo.

A investigação cumpriu mandados de busca e apreensão no endereço da casa em que o homem mora com a esposa em Jundiaí, porém, ao chegarem no local, os policiais encontraram apenas a mulher. Na residência foram apreendidos aparelhos eletrônicos da família.

Na manhã de terça-feira (28), Melquideseque se apresentou para as autoridades em Manaus (AM) onde permanece sob custódia.

O que dizem os envolvidos

Em nota, a Escola de Jiu-Jítsu Melqui Galvão SP, localizada no centro de Jundiaí (SP), informou que o professor foi afastado e a administração da academia segue sob responsabilidade do filho de Melquiedes, Micael Galvão. Veja abaixo a nota na íntegra

A assessoria da rede de escolas informa que o Professor Melqui Galvão foi afastado da liderança da rede, sendo o caso atualmente tratado exclusivamente pelas vias legais, com acompanhamento da equipe jurídica.

O procedimento tramita sob sigilo, em respeito às normas legais e com o objetivo de resguardar todos os envolvidos. Por orientação jurídica, neste momento não haverá novos pronunciamentos públicos, até que os fatos sejam devidamente apurados pelas autoridades competentes.

A liderança da equipe passa a ser exercida por Mica Galvão e Diogo Reis, em conjunto com a equipe de professores, assegurando a continuidade das atividades e a manutenção dos padrões técnicos e institucionais da rede. A BJJ College segue com suas atividades normalmente, contando com uma equipe sólida de professores e atletas, comprometida em oferecer ensino de qualidade, com seriedade, ética e responsabilidade.

Fonte: G1/Foto: Montagem/g1/Reprodução/Redes sociais

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