O que leva pais, mães e cuidadores a baterem em seus filhos, mesmo quando há leis proibindo a prática e um repúdio social à violência contra crianças e adolescentes? O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) foi em busca da resposta. O resultado foi lançado nesta quinta-feira (24).
A pesquisa incluiu 200 mães, pais, cuidadores, lideranças comunitárias e profissionais da rede de proteção em três cidades brasileiras – Rio de Janeiro, Manaus e Recife -, para identificar por que o castigo corporal contra crianças ainda ocorre no Brasil.
Um dos principais achados é ligado às crenças pessoais de mães e pais entrevistados: para a maioria, bater é visto não como uma violência, mas como a melhor forma de corrigir um comportamento inadequado da criança.
Outro fator é a percepção de que a criação de um filho ou filha cabe exclusivamente à família e, mesmo com o intuito de proteger a criança, terceiros não deveriam interceder. Ainda assim, o levantamento identificou que existem sinais de mudança, com mães e pais relatando que se arrependem das agressões e querem educar com base no diálogo, mas que ainda não têm as ferramentas para isso.
O estudo também identificou aspectos importantes ligados às políticas públicas: a falta de capacitação dos profissionais da rede de proteção sobre como orientar as famílias a educar sem violência, relatada pelos próprios funcionários públicos entrevistados; e a dificuldade para que os serviços públicos cheguem às famílias antes que a tensão familiar piore, e não apenas depois que a violência aconteceu.
“Nosso estudo mostrou que o castigo corporal persiste em nossa cultura não apenas pela escolha de um pai, mãe ou cuidador, mas porque muitos ainda acreditam que bater é uma forma legítima de educar, disciplinar e corrigir. Ou porque, em momentos de tensão e estresse, não conhecem outras formas para disciplinar sem violência”, diz Luiza Teixeira, especialista de Proteção à Criança do Unicef no Brasil.
“Se quisermos reduzir a violência contra crianças e adolescentes, precisamos enfrentar as normas sociais enraizadas que ainda veem a prática como natural e necessária, além de garantir serviços públicos que apoiem as famílias e possam prevenir a violência antes que ela aconteça”, acrescenta.
A pesquisa mapeou aspectos que, somados, ajudam a explicar a continuidade – e até o crescimento – do castigo corporal (definido como qualquer punição que use a força para causar dor ou desconforto, por mais “leve” que seja). Apenas em 2025, por exemplo, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 60 mil casos de maus-tratos ou de lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes foram registrados no Brasil, um aumento de 106% comparado ao ano anterior.
‘Correção’, não violência
Uma das crenças mais comuns reveladas pelo estudo é a de que o castigo corporal é uma forma legítima para corrigir comportamentos inadequados ou impor limites às crianças. Entre os entrevistados, a discussão raramente foi sobre a decisão de bater, ou não, mas sobre os limites do que seria aceitável para disciplinar, com uma distinção frequente entre práticas consideradas “leves”, como a palmada, e o que os entrevistados consideraram formas mais graves de violência.
Em comunidades afetadas pela violência armada – a maioria das localidades onde o estudo ocorreu –, mães, pais e cuidadores ainda veem o castigo corporal como uma forma de “proteção”: ser rígido com as crianças, inclusive com o uso da violência, seria uma maneira de evitar que elas se tornem vítimas ou acabem se envolvendo em contextos de violência em suas comunidades.
Ao mesmo tempo, a pesquisa identificou sinais de mudança: muitos participantes, em especial as mães mais jovens, relataram se arrepender após episódios de agressão física e manifestaram um desejo de construir relações sem violência com seus filhos. Essa mudança, porém, apareceu mais como uma aspiração do que como uma prática frequente por parte dos cuidadores.
Sobrecarga feminina
A pesquisa também evidenciou o papel da sobrecarga materna na prevalência do castigo corporal. Com a maior parte das responsabilidades parentais recaindo sobre as mães, ficou evidente como o estresse cotidiano gerado pelo cuidado, assim como pressões socioeconômicas, podem tornar respostas violentas, como tapas, beliscões ou gritos, mais comuns diante de comportamentos desafiadores. Este achado se conecta à percepção de muitos participantes de que a violência física é cometida principalmente em momentos de cansaço, estresse e perda momentânea do autocontrole.
Outra norma social que contribui para a banalização da violência é a de que a criação dos filhos é um assunto exclusivo da família. Como consequência, vizinhos, amigos e até parentes acabam evitando interferir em situações de violência, mesmo quando discordam com elas.
O medo de sofrer retaliações da família ou comunidade e a crença de que “cada família cria seus filhos do seu jeito” contribuem para o isolamento dos cuidadores e dificultam a construção de uma responsabilidade coletiva de proteger crianças e adolescentes.
Apoio para educar sem violência
Apesar da legitimidade ainda dada ao castigo corporal, o estudo também revelou que as famílias desejam receber orientações e apoio para saber como agir sem violência. Os entrevistados relataram, por exemplo, dificuldades para lidar com birras, desobediência e outros situações comuns – comportamentos que são naturais durante o desenvolvimento do cérebro infantil, mas são vistas como desafiadoras -, já que muitos dizem não conhecer alternativas às punições físicas ou verbais.
Neste sentido, iniciativas já existentes, como campanhas públicas de conscientização sobre o tema, ou eram desconhecidas pelos participantes ou foram consideradas distantes da realidade das famílias e insuficientes por se concentrarem apenas naquilo que não deve ser feito, sem indicar atitudes que possam ser adotadas no lugar.
Recomendações
Considerando os achados da pesquisa, o Unicef compreende que o problema central do castigo corporal não é convencer as famílias de que a prática é prejudicial – o que muitas já sabem, ou ao menos já suspeitam –, mas fazer com que criar filhos sem violência seja possível no dia a dia dos pais, mães e cuidadores, independentemente do contexto em que vivem.
Nestas Eleições, o Unicef recomenda que os futuros governantes incluam a “parentalidade protetiva” nas políticas já existentes de Primeira Infância, cuidados, assistência social e enfrentamento às violências. Além disso, o estudo traz as seguintes orientações aos governos e à toda a sociedade:
- Fortalecer a prevenção da violência, apoiando profissionais da rede de proteção para que saiam da mera reação aos casos para a prevenção, dando suporte às famílias antes da dinâmica familiar ficar tensionada.
- Capacitar os profissionais que atendem as famílias, oferecendo formação continuada em parentalidade protetiva e prevenção da violência para que possam acolher as famílias sem reproduzir estigmas.
- Fazer campanhas que ensinem o “como”, com mensagens que não só condenem o castigo corporal, mas ofereçam alternativas práticas. É preciso ainda garantir que essas campanhas dialoguem com as realidades dos territórios mais vulneráveis.
- Mobilizar homens no cuidado das crianças, criando ou fortalecendo redes de apoio e promovendo iniciativas que valorizem a paternidade e equilibrem a sobrecarga do cuidado.
- Debater, nas comunidades, a normalização da violência, usando metodologias participativas para que mães, pais, líderes religiosos, líderes comunitários e jovens possam trazer à tona o assunto e ter um espaço seguro para o questionar seu uso.
Metodologia
Realizada entre 2024 e 2026, a pesquisa do UNICEF usa a lente de Mudança Social e de Comportamento (SBC, na sigla em inglês) para realizar uma análise qualitativa que considera fatores individuais, interpessoais, comunitários, institucionais e políticos para compreender por que o castigo corporal persiste e identificar caminhos concretos para tornar a educação sem violência possível no cotidiano das famílias.
Com a escuta de 214 participantes em territórios específicos do Rio de Janeiro, Manaus e Recife, o estudo combinou revisão da literatura, grupos focais, entrevistas em profundidade e metodologias participativas adaptadas a cada território.
Por se tratar de um estudo qualitativo, os resultados não representam estatisticamente a população brasileira, mas ajudam a compreender as crenças, normas sociais, emoções e condições que contribuem para a persistência do castigo corporal contra crianças no país.
Fonte: Amazonas Atual/Foto: Ministério do Trabalho/Divulgação



