A morte de Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, joga luz sobre uma prática que se alastrou pelo Rio: o serviço de vigilância clandestino. Na madrugada do último dia 12, em Copacabana, ele foi injustamente acusado de ter roubado uma bicicleta e sido massacrado a pauladas por um segurança, que, na sessão de violência, ainda contou com a ajuda de dois entregadores.
No bairro da Zona Sul onde o crime aconteceu, há sinais dessa atividade irregular por toda parte. Davi Santos Machado, preso pelo crime, e responsável por desferir 63 golpes de porrete sobre a vítima, relatou em seu depoimento que ganhava R$ 1.500 por mês para, em um grupo de cinco homens, tomar conta de uma área que inclui o trecho da Rua Barata Ribeiro onde abordou Cláudio.
Áreas delimitadas
A Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transporte de Valores (Fenavist) informa que 53.454 vigilantes trabalham em situação regular no Estado do Rio — e calcula que o dobro desse efetivo, ou mais de cem mil pessoas, atue no ramo de forma ilegal em território fluminense. A equipe da qual Davi fazia parte cobria também parte da Rua Duvivier. Investigações da 12ª DP (Copacabana), responsável pela apuração do crime, apontam que há pelo menos mais um grupo atuando nas redondezas, nas proximidades da orla.
— Estamos mais focados nesse grupo específico que atuou na morte da vítima. Já sabemos que o chefe dos seguranças seria um homem de prenome Aluísio. Ele será chamado para prestar depoimento. Num segundo momento, poderemos desmembrar a investigação para avaliar a identificação de outros grupos — disse o delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP.
Em Copacabana, vigias se multiplicam diante de estabelecimentos comerciais. A dificuldade é distinguir serviços legalizados de atuação irregular. Ao percorrer trechos do bairro, O GLOBO identificou em pelo menos cinco pontos homens com postura típica de seguranças privados, trajes pretos e posicionamento fixo. Alguns ficavam sentados em cadeiras na calçada.
Segundo o Sindicato dos Vigilantes do Município do Rio, os serviços ilegais têm crescido não só na cidade, mas em todo o estado, especialmente em locais de intenso comércio. Um indício disso foi o aumento no número de profissionais com cursos vencidos, de 17,61%, entre 2022 e 2026.
— Se você for para Madureira, Niterói, São Gonçalo e a própria Zona Oeste do Rio, mas, em especial, em toda a Zona Sul, vai encontrar pessoas que não estão qualificadas para exercer atividade de vigilância e segurança — avalia Leandro Siqueira, diretor do sindicato.
A atividade é regulamentada pela Polícia Federal, que exige nacionalidade brasileira, idade mínima de 21 anos, comprovação de aptidão, curso de formação específico, comprovação de ausência de antecedentes criminais por crimes dolosos e regularidade eleitoral e militar. Também é obrigatória a comprovação de vínculo com empresa de segurança autorizada ou serviço orgânico de segurança (estruturas internas, ligadas a empresas ou condomínios).
A realização de rondas ou vigilância em vias públicas, com pessoas armadas ou não, configura segurança privada clandestina. Há exceção nos casos de segurança pessoal, escolta armada e transporte de valores. O sindicalista aponta, no entanto, que a fiscalização é deficiente.
— A própria Delegacia de Segurança Privada (Delesp) não tem efetivo suficiente — avalia Siqueira.
Além dos seguranças clandestinos, a polícia também identificou pelo menos três comerciantes que teriam adquirido os serviços da equipe da qual Davi fazia parte. Eles deverão ser chamados para prestar depoimento nos próximos dias: quem contrata também tem responsabilidade, como previsto na Lei nº 14.967/2024.
— A lei determina que o contratante verifique a regularidade formal da empresa e prevê sanções para pessoas físicas ou jurídicas que contratem segurança privada em desconformidade com a legislação — afirma Flávio Sandrini, presidente da Federação das Empresas de Segurança.
No depoimento à polícia, Davi contou que trabalhava há três meses no local e que foi demitido após o crime. Além dele, estão presos o também segurança Jorge Luiz Ricardo Dias e os entregadores de aplicativo Aílton José da Silva e Felipe Eduardo dos Santos Silva. Um quinto suspeito de envolvimento no espancamento também está sendo investigado: ele aparece em vídeo de câmera de segurança dando um chute na vítima.
E ninguém fez nada
No comércio local, ninguém reconhece abertamente que paga pela vigilância clandestina. Porteiros e até os vendedores da loja onde Cláudio Rafael foi abordado contam que ele costumava aparecer por lá. Um porteiro da Rua Felipe de Oliveira, onde o homem sofreu as maiores agressões, disse que ele tinha o hábito de sentar nas entradas dos prédios — e assim foi encontrado por dois entregadores, que esperaram a chegada do segurança Davi para iniciar o linchamento.
— Entre eles, há a certeza de que estão fazendo a coisa correta, o que não é verdade. São inflamados pelas postagens. A polícia é que tem que ser chamada nesses casos — explica o delegado Ângelo Lages.
*Aluna do curso Jornalismo do Futuro sob supervisão de Rafael Galdo
Fonte: O Globo/Foto: Márcia Foletto
