Como já era majoritariamente esperado pelos agentes do mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu a taxa básica de juros de 14,25% para 14% ao ano, em mais um corte de 0,25 ponto percentual. Diante da decisão, a dúvida que fica para os investidores é: ainda vale a pena seguir investindo em renda fixa ou é hora de buscar alternativas de maior risco e retorno?
Para especialistas, a resposta continua sendo favorável à renda fixa. Embora os cortes reduzam gradualmente a rentabilidade das aplicações, os juros básicos seguem em um patamar historicamente muito elevado no Brasil, mantendo esses investimentos atrativos.
Pós-fixados seguem na liderança
Marcelo Freller, estrategista de produtos de investimento do C6 Bank, afirma que, nas últimas semanas, houve uma mudança importante na curva de juros. As taxas dos títulos de curto prazo recuaram, enquanto as dos papéis mais longos passaram a oferecer remunerações maiores.
— As taxas com vencimentos mais curtos hoje estão pagando menos do que pagavam há 45 dias, enquanto as mais longas passaram a pagar mais. Isso aconteceu porque tivemos surpresas positivas na inflação brasileira, o que reforçou a expectativa de que o ciclo de cortes da Selic pode ir mais longe.
Ao mesmo tempo, segundo ele, o cenário fiscal e internacional continua cercado de incertezas, o que faz com que os investidores exijam um prêmio maior para aplicar em títulos de prazos mais longos.
Na avaliação de Freller, o principal ponto de atenção do investidor neste momento não é escolher entre aplicações de curto ou longo prazo, mas definir qual indexador faz mais sentido para a carteira.
— Nossa principal visão hoje não é em relação ao prazo, mas ao indexador. A ordem de preferência é pós-fixados, como o Tesouro Selic; depois IPCA+ e, por último, prefixados.
Segundo o estrategista, a preferência pelos títulos pós-fixados decorre da expectativa de que os juros permaneçam elevados por mais tempo do que o mercado projeta atualmente.
— Temos a visão de que a inflação vai continuar elevada e não vai convergir para a meta tão rapidamente por causa das questões fiscais. Consequentemente, acreditamos que a Selic não vai cair tanto quanto os economistas projetam hoje no Focus. Por isso, não gostamos dos prefixados, nem da parte curta nem da longa da curva.
Prazo do investimento faz diferença
Michael Viriato, estrategista da Casa do Investidor, também avalia que o corte promovido pelo Copom, por si só, não muda o cenário para quem investe em renda fixa.
— O corte já era esperado e a renda fixa continua superatrativa. A gente continua com taxas de curto prazo perto de 14%, a curva de longo prazo acima de 14% e ainda consegue encontrar títulos prefixados do governo pagando acima de 14%. Os juros continuam muito bons, apesar do corte.
Segundo Viriato, a escolha da aplicação deve levar em conta, principalmente, o horizonte de investimento.
— É preciso olhar cliente a cliente e entender o prazo em que ele pretende deixar o dinheiro aplicado. Para quem pensa em investir por até três ou cinco anos, aplicações referenciadas ao CDI continuam sendo muito boas, porque oferecem liquidez e mantêm um juro real bastante competitivo.
Já para investimentos de longo prazo, o estrategista afirma que títulos prefixados e indexados ao IPCA podem fazer sentido, desde que o investidor esteja ciente dos riscos.
— Se você está pensando em investir por muito tempo, pode optar por títulos prefixados ou atrelados ao IPCA. Mas precisa entender que esses papéis carregam o risco de perder valor caso a Selic volte a subir se a inflação voltar a pressionar.
Segundo ele, o cenário atual é diferente dos ciclos anteriores de queda dos juros.
— Em 2017 e em 2023, a curva longa estava abaixo da curta porque o mercado acreditava que os juros continuariam caindo. Hoje acontece o contrário. A curva longa está acima da curta porque o mercado está precificando um risco maior. Existe um prêmio, mas esse prêmio reflete justamente as incertezas fiscais e o cenário internacional.
O estrategista ressalta ainda que o corte anunciado pelo Copom já vinha sendo incorporado aos preços dos ativos nas últimas semanas.
— É sempre importante lembrar que essa queda de juros já era amplamente esperada. Não é porque o Copom cortou a Selic hoje que o investidor precisa mudar toda a carteira amanhã. O mercado já havia precificado boa parte desse movimento.
Fonte: O Globo/Foto: Unsplash


