Única brasileira a competir na categoria feminina do skimboard, Julia Dias é também a primeira mulher do país a conquistar o título em etapas do Circuito Mundial. Natural de Ubatuba, no litoral de São Paulo, a atleta está na disputa pela liderança do ranking e pelo título da temporada. Neste domingo, o Esporte Espetacular foi conhecer a história da brasileira, de 23 anos, que sonha em abrir caminhos para outras meninas do país.
Em busca do título mundial
O Circuito Mundial teve início em Cabo San Lucas, no México, etapa na qual Julia Dias foi campeã e assumiu a liderança do ranking feminino, em abril desse ano. Foi nesse mesmo lugar que a brasileira ganhou o primeiro título feminino do Brasil, em 2024. No total, ela soma quatro títulos. Mesmo com os resultados históricos para a modalidade do país, Julia quer mais.
— Eu nunca gostei de competir, só gostava de praticar o skimboard. Embora gostasse de ganhar, nunca fui muito fã de competição. Até que eu entendi que o nível das meninas era muito parecido com o meu. Então por que eu também não poderia estar competindo e mostrando que tenho potencial? Foi quando fui para o México pela primeira vez e ganhei a primeira etapa do Mundial. Foi aí que vi que posso chegar nesse nível também e senti a vontade buscar o título Mundial para o Brasil, que é algo inédito — contou Julia.
No final do mês passado, ela ficou com a terceira colocação em Portugal, caindo para o segundo lugar no ranking. Já na primeira etapa da Califórnia, nos Estados Unidos, Julia voltou para a liderança e está no páreo pelo título do Circuito, que ainda tem uma disputa em setembro.
Representatividade no esporte
Ainda que ser campeã do Circuito Mundial seja um grande sonho, a maior meta de Julia Dias é outra: incentivar cada vez mais mulheres do Brasil na modalidade. Natural de Ubatuba, no litoral de São Paulo, a atleta cresceu na Praia da Sununga, conhecida pela prática de skimboard. Entre os treinamentos para o Mundial, Julia dá continuidade na escolinha da família, que ensina o esporte para as crianças da região em um projeto social.
— Mais do que ser campeã mundial, meu sonho é poder levantar essa bandeira feminina dentro do esporte e incentivar cada vez mais mulheres dentro da modalidade. Não quero que meninas passem por todo esse sofrimento de comprar as coisas, conseguir patrocínio, que eu tô tendo agora. Que a gente possa abrir esse caminho para mais meninas cada vez mais estarem praticando. Eu comecei sozinha e não quero que a modalidade continue assim. Quero chegar na praia da Sununga e ver mais meninas praticando do que quando eu era criança — disse.
A família de Julia Dias tem uma longa história com o skimboard. O amor pela modalidade passou de geração em geração. Julio Dias, tio e treinador da atleta, conta que a família organizou uma associação de skimboard na região desde o início da prática, incentivando o esporte e conseguindo suporte para os atletas. Ele e Julia explicam como a modalidade está ligada à cultura caiçara de Ubatuba.
— A gente herdou dos nossos mais antigos da família essa herança de praticar o esporte na beira da praia e nos organizamos para fazer melhor. Remontamos a Associação, organizamos uma equipe para poder dar suporte ao esporte. Começou com uma pranchinha de madeira simples e a gente ia pra água se divertir. O nome verdadeiro é “disco”, mas o “sonrisal” se popularizou com um evento que foi feito aqui na década de 90, patrocinado pela marca de remédio. E aí ficou, pegou o nome, depois veio o skimboard — conta o tio e treinador da atleta, Julio Dias.
— Eu nasci aqui na praia da Sununga. Minha família tem um quiosque desde que eu me conheço por gente, tinha a Associação de Skimboard e fabricavam pranchas. Sempre vi muita gente praticando, então acho que foi inevitável que eu não seguisse nisso. Eu cresci nessa cultura desde criança, a minha família fazendo caldeirada, peixe. Então, dentro dessa cultura caiçara, eu também fui inserida no esporte. Embora o skimboard não seja da cultura caiçara, ele foi inserido aqui, né? O sonrisal, também. Então acho que tá tudo muito junto, mar, praia, ski e a cultura também —disse Julia.
Desafios para se manter na modalidade
Apesar de ter concluído a graduação no curso de Jornalismo, Julia Dias se dedica integralmente ao esporte. Além dos treinamentos e das aulas na escolinha da região, ela ainda trabalha no quiosque da família para conseguir uma renda extra e explica os desafios para se manter na modalidade sem um patrocínio.
— Estar no Mundial é um custo muito alto, então eu já fiz rifa, como muitos atletas brasileiros, pedi apoio em comércio da região. Para alguns, não é uma coisa visivelmente bonita estar pedindo dinheiro para outras pessoas na internet, mas para outros atletas é a única maneira de estar presente nas competições e representar não só a sua cidade como o seu país. Torcemos para que no futuro a gente consiga mais apoio para essa modalidade que vem crescendo tanto e que as marcas acreditem, não só em mim, mas como em vários outros atletas que vem crescendo por aí.
A última etapa do Mundial de Skimboard será entre os dias 19 e 20 de setembro, novamente na Califórnia. A brasileira tenta conseguir um bom resultado para se firmar na liderança e conquistar o primeiro título do Circuito.
Fonte: Globo Esporte/Foto: Acervo/Julia Dias



