Vazante do Rio Negro em 2026 tende a ser a terceira mais severa da história

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A vazante do Rio Negro em 2026 deverá ser a terceira mais severa da história, estimam pesquisadores do SGB (Serviço Geológico do Brasil) e do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Segundo o pesquisador André Martinelli, do SGB no Amazonas, os cenários analisados indicam que o Rio Negro pode atingir níveis entre 13 e 16 metros na orla de Manaus.

A cota mínima do Rio Negro em 2024 foi de 12,66 metros, atingida no dia 4 de outubro. Essa foi a menor marca da série histórica de 122 anos.

“O nosso melhor cenário apresentado hoje já colocaria a cota de Manaus entre as dez maiores secas da história. O pior cenário colocaria como a terceira maior seca da história. Só ficaria atrás de 2023 e 2024”, afirmou, na manhã desta terça-feira (1º).

Martinelli afirmou que o cenário de normalidade da seca foi descartado. Segundo ele, os estudos incluem apenas situações de seca severa com base nos eventos extremos de 2015, 2023 e 2024.

Em agosto houve descida do nível do rio acima da média histórica e semelhante ao observado em 2023. O pesquisador afirmou que os primeiros 15 dias de setembro serão decisivos para indicar a intensidade da vazante, pois foi nesse período que nas secas de 2023 e 2024 a descida do nível do rio oscilou entre 3 e 3,5 metros.

São Gabriel da Cachoeira e Barcelos

Em municípios banhados pelo Rio Negro a situação é de alerta. Martinelli disse que em São Gabriel da Cachoeira o nível está relativamente alto para esta época do ano, mas houve redução acentuada durante julho. As chuvas registradas nas últimas semanas apenas reduziram temporariamente o ritmo dessa queda.

Na cidade de Barcelos, no Médio Rio Negro, a situação é preocupante. “Quando a gente olha para Barcelos, a gente vê que desceu como em 2023, saiu até de uma altura acima da mediana, furou a mediana e furou o limite da normalidade”, mencionou o pesquisador. Segundo ele, isso mostra que a bacia do Rio Negro está afetada pelos efeitos da estiagem.

Ele não citou a profundidade do rio no município.

Região crítica

A situação mais crítica ocorre na parte norte da bacia amazônica. De acordo com Martinelli, os rios em Roraima registram os menores níveis da história para esta época do ano. “Hoje, lá, a gente tem as menores cotas registradas para o período. Elas se tornaram os novos recordes”, afirmou.

Segundo ele, o déficit de chuvas está avançando de norte para sul e tende a atingir cada vez mais a calha principal do Solimões.

Tabatinga e Solimões

Em Tabatinga, considerada uma espécie de termômetro da seca na Amazônia, o cenário também exige monitoramento. Martinelli explicou que a região ainda não apresenta uma situação extrema, mas os cenários analisados mostram que a descida dos níveis pode se intensificar nos próximos meses. Caso se repitam as quedas mais severas registradas historicamente, o município pode atingir níveis abaixo da cota de emergência.

O pesquisador destacou que o Solimões ainda não respondeu totalmente ao déficit de chuvas observado em outras regiões da Amazônia, mas a tendência é de agravamento conforme o período seco avança.

Rio Madeira

Entre as grandes bacias monitoradas, o Rio Madeira apresenta o cenário menos preocupante até o momento. Segundo Martinelli, o rio ainda mantém comportamento próximo da normalidade e não mostra sinais claros dos efeitos do El Niño. “Por enquanto, a gente não vê esse indício. Está descendo o típico esperado para a época”, afirmou.

O pesquisador ressaltou que o Madeira pode ter papel importante para reduzir os impactos da seca em Itacoatiara e ajudar na logística de transporte de cargas no estado.

Martinelli alertou que o El Niño pode influenciar a próxima cheia, com o período de vazante em níveis mais baixos. “Tudo indica que o pico de cheia de 2027 vai ser mais baixo do que foi este ano”, afirmou. “Eu diria para você que é mais certo falar em extremo para 2027 do que para este ano”, afirmou ao explicar que o fenômeno pode dificultar a recuperação dos rios e aumentar o risco de uma nova vazante severa.

Impactos do El Niño

O meteorologista Renato Senna, pesquisador do Inpa, afirmou que há 100% de probabilidade de atuação do El Niño nos próximos meses, com efeitos podendo se estender até o primeiro trimestre de 2027. Segundo ele, o fenômeno deve reduzir as chuvas na Amazônia e agravar a seca dos rios.

Renato Senna disse que foi identificado efeitos do fenômeno até março, com possibilidade de manutenção da intensidade. Ele explicou que o El Niño altera a circulação da atmosfera e favorece a subsidência sobre a Amazônia, movimento que dificulta a formação de chuvas. Em agosto, segundo Renato, esse processo estava bastante intensificado, com deficiência de precipitação em praticamente todo o norte da América do Sul.

Ele também chamou atenção para a intensidade do fenômeno. Segundo o pesquisador, o aquecimento do Pacífico está ocorrendo em uma área muito ampla e com intensidade elevada. “Isso é muito grave”, afirmou.

O ponto mais importante para a vazante é que o El Niño não significa ausência total de chuva. Renato explicou que pode chover, mas os volumes tendem a ficar abaixo do que seria esperado.

Chuvas

Renato explicou que Manaus normalmente entra em uma fase de transição entre meados de outubro e novembro, marcada por pancadas de chuva rápidas e concentradas.

Neste ano, porém, a expectativa é de que essa transição seja mais longa, avançando até dezembro. Ou seja, as chuvas podem começar a retornar, mas inicialmente de forma irregular, com pancadas isoladas e grandes volumes em pouco tempo.

Isso é importante porque uma chuva intensa não significa necessariamente recuperação dos rios. Na explicação de Renato, a água pode cair em grande quantidade em pouco tempo, escoar rapidamente e ter pouca contribuição para a recarga dos rios. Essa característica também pode provocar problemas urbanos, como alagamentos e quedas de árvores.

Mesmo quando a chuva voltar, os rios podem continuar baixos por algum tempo. Confome Renato explicou que, se Manaus entrar abaixo do percentil 15 [período de tempo em que o rio permanece em determinado nível de profundidade], o tempo de cheia tende a ser maior. Segundo ele, historicamente o Rio Negro permanecia duas ou três semanas abaixo dos 15 metros; depois passou para quatro ou cinco semanas e, nos eventos mais recentes, chegou a 45 a 60 dias.

“Muito provavelmente nós vamos ter o rio por uma cota baixa por um período bastante longo”, disse.

Fonte: Amazonas Atual/Foto: Rafa Neddermeyer/ABr

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