O dono do Banco Master Daniel Vorcaro bancou viagens ao senador Jaques Wagner segundo relatório da PF que teve o sigilo retirado nesta semana pelo ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal). Nos documentos, os investigadores citam que a orientação dada pelo banqueiro era que o deslocamento ocorresse de forma discreta. Também foi localizado diálogo com o PT da Bahia.
Um dos trechos do documento detalha que Daniel Vorcaro questiona uma das atendentes sobre “a razão de os passageiros ainda estarem aguardando e o motivo de ainda não terem embarcado”.
“Após breve ligação de voz, recebe a informação de que os passageiros já haviam embarcado. Na sequência, solicita atualização acerca da previsão de chegada”, ocasião em que a interlocutora informa que os indivíduos já teriam desembarcado e que um deles estaria seguindo de “táxi para sua casa”.
“Em seguida, Daniel Vorcaro passa a demonstrar preocupação específica com a discrição da operação, determinando que fossem tomados cuidados quanto ao hangar utilizado na Bahia, recomendando que a aeronave fosse posicionada em local mais reservado. O interlocutor então informa que havia alterado o hangar inicialmente previsto e que estacionaria a aeronave em outro ponto. Na continuidade da conversa, Daniel Vorcaro reforça as orientações de discrição ao afirmar: “Algum que ninguém conheça”, “E tira o avião rápido de lá”, “de volta pra cá” e “nem apaga o motor”.
Em nota, a defesa de Jaques Wagner reiterou “que não possui nem nunca teve qualquer vínculo com o Master, tampouco atuou em favor de suas pautas no Congresso Nacional” (leia abaixo na íntegra).
Supostos benefícios
Jaques Wagner teria recebido benefícios econômicos de Daniel Vorcaro, um deles sendo uma partamento de luxo de R$ 2,45 milhões. A Polícia identificou que após a primeira fase da Operação Compliance Zero, houve tentativa dos envolvidos de afastar quem era o dono do apartamento.
Em conversas com Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, também alvo da PF e dono do banco Pleno, o senador petista ainda marca encontros em seu gabinete e articula medidas para impedir que Augusto seja identificado na portaria.
“[…] Continuo achando que o melhor lugar pra fazer seria no meu gabinete, que é o mais protegido e discreto pra todo mundo.. […] Então não teria tanta atenção chamada. Até porque eu posso ir lá embaixo, chegar mais ou menos junto com você na hora que for marcada e subo e você não precisa nem passar pela identificação”, diz Jaques em áudio enviado para Augusto Lima.
O que diz Jaques Wagner?
O senador Jaques Wagner foi procurado neste sábado (12) para se posicionar sobre os novos fatos presentes dos relatórios da PF. Em nota, assinada pela defesa dele, o senador afirmou que há “estranheza” no levantamento do sigilo porque há apenas a “interpretação da polícia, permanecendo a da defesa desconhecida pela sociedade.”
Leia a nota da defesa de Jaques Wagner:
“A defesa do senador Jaques Wagner informa que apresentou requerimento ao gabinete do ministro André Mendonça, no dia 30 de junho, contestando, com fatos e provas, as hipóteses produzidas em inquérito da Polícia Federal. Causa estranheza que o levantamento do sigilo contemple, até o momento, apenas a interpretação da polícia, permanecendo a da defesa desconhecida pela sociedade.
O senador reitera que não possui nem nunca teve qualquer vínculo com o Master, tampouco atuou em favor de suas pautas no Congresso Nacional. Pelo contrário: sua conduta parlamentar sempre foi contrária aos interesses do banco.
Pablo Domingues”
Em notas anteriores, no entanto, o senador já havia dito que jamais atuou no “Congresso Nacional para favorecer o Banco Master”. “Prova disso é que a única emenda de sua autoria sobre o tema, apresentada à Medida Provisória 1106/2022, propunha limitar juros e proteger os consumidores, justamente o contrário dos interesses do Banco”, diz o texto.
Outro argumento apresentado é o de que Jaques Wagner se posicionou contra a “Emenda Master”, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) para alterar a PEC 65/2023, e cujo texto teria sido elaborado pela assessoria da instituição bancária.
Sobre o dinheiro encontrado — quase R$ 600 mil —, a nota reafirma que a origem é lícita e comprovada, oriundo de diárias pagas pelo Senado para missões no exterior.
“A defesa confia que o Supremo Tribunal Federal corrigirá os equívocos e reafirma a tranquilidade do senador quanto à sua conduta”, finaliza a defesa.
*R7/Foto: Geraldo Magela/Agência Senado – Arquivo



