Enquanto os Estados Unidos de Donald Trump insistem em classificar organizações criminosas empresariais, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), como grupos terroristas, o Brasil trava batalha silenciosa contra terroristas de verdade, que atuam no país com motivação religiosa, muitas vezes ligada ao Estado Islâmico e ao Boko Haram.
O Metrópoles mapeou quatro operações secretas da Polícia Federal que prenderam cinco pessoas e fizeram buscas em outras duas recentemente em apenas cinco meses. Desde 2016, foram 32 inquéritos concluídos em que a PF identificou o crime de terrorismo e ao menos uma pessoa culpada pelo crime, segundo dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). A maioria dos casos, 23, ocorreu no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre 2023 e 2026.
Recentemente, um dos presos foi recrutado por um terrorista já condenado, que havia publicado foto de Lula em fórum extremista. Lá, dizia que o petista era “inimigo” por ter posado no passado ao lado do ditador sírio Bashar Al-Asad e que há razões para “odiar a narco-democracia brasileira” e “tentar derrubá-la”. A publicação foi feita em 8 de dezembro de 2004, dia da deposição de Assad, um adversário do grupo terrorista Estado Islâmico.
As operações ocorreram entre dezembro de 2025 e abril passado. A maioria das prisões era de pessoas classificadas como “lobos solitários”, gente que fez juramento ao Estado Islâmico e comprava armas, explosivos e outros produtos químicos para fazer ataque dentro do Brasil. O grupo terrorista está presente em 22 países e matou quase 4 mil pessoas somente em 2023 e 2024.
Na cola dos terroristas
Dezembro de 2025 – PF prende brasileiro na região de Curitiba (PR) preparando materiais explosivos.
Janeiro – Policial militar e estudante de medicina são alvo de buscas em Itaguaí e Angra dos Reis (RJ). Eles estariam envolvidos com grupos extremistas de acordo com dados obtidos em suas redes sociais.
Janeiro – Jovem brasileiro recrutado por terrorista já condenado é preso em Bauru (SP).
Abril de 2026 – Três estrangeiros árabes são presos em São Paulo. Um tunisiano usando nome falso, vindo do Mali, país onde o ISIS ainda resiste, e um casal, um egípcio e uma marroquina são detidos. O casal foi liberado depois.
Fontes: apuração do Metrópoles
Mas, na PF, a ordem é o silêncio. Ninguém quer falar ou dar entrevista. A razão não são as motivações do governo de Donald Trump ao classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como se fossem terrorista, tampouco a aproximação das eleições. Reservadamente, policiais afirmaram ao Metrópoles que a divulgação das operações pode ter efeito reverso, incentivando mais lobos solitários e outras pessoas a aderirem a causas extremistas por serem propensas a isso.
Em dezenas de canais de um fórum consultado pela reportagem, brasileiros e estrangeiros compartilham mensagens sobre como comprar armas, fabricar explosivos ou queimar pessoas vivas, como ensinam vídeos trocados entre eles feitos pelo Estado Islâmico do Iraque e do Levante, o ISIS. Após perder território na Síria e no Iraque, o grupo terrorista fincou raízes na África.
Em dezembro de 2024, a PF prendeu um recrutador de jovens terroristas. Foi ele quem fez a ameaça, poucos dias antes de ser detido, contra o presidente Lula em canal que ele criou num fórum dominado por terroristas. O Metrópoles acessou o fórum em junho, que segue ativo, mas não divulgará seu nome e endereço. Policiais ouvidos pela reportagem disseram que não era possível supor que o homem, o universitário de 44 anos Thiago Barboza, da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos (SP), estivesse com “bravatas” ou planejava mesmo um atentado contra o presidente. Na dúvida, a ação é imediata. Islâmico, ele passou por várias penitenciárias e disse à Justiça Federal que corre o risco de ser agredido dentro da cadeia por causa de sua religião.
Barboza foi condenado em 2025 a 11 anos de prisão por atos preparatórios ao terrorismo e associação com o Estado Islâmico e ao Boko Haram. Mas, por dois votos a um, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região o absolveu do segundo crime este ano. Sua pena baixou para 8 anos de prisão, e ele deverá ir para o regime semiaberto, uma colônia penal. A defesa dele recorreu e nega atos de terrorismo.
Adolescente foi recrutado, mostram mensagens
Segundo a PF, Barboza recrutou também um adolescente de 16 anos, de Bauru (SP), no canal do fórum que ele criou. A reportagem localizou as mensagens em que buscava locais para comprar armas e meios de adquirir explosivos. No fim de janeiro de 2026, quando já tinha 18 anos, o estudante Leandro Claro Telles foi preso pela PF em uma operação. Ele segue preso até hoje – foi denunciado por terrorismo e virou réu no processo.
O advogado dele pediu ao juiz um teste de sanidade mental no rapaz. A defesa de Leandro Claro afirmou ao Metrópoles que a família não tinha interesse em conceder entrevistas.
PM se envolveu com extremistas, diz SSP
Em dezembro passado, a PF prendeu um homem na região de Curitiba (PR) que estava envolvido em atividades preparatórias para ataques terroristas, apurou a reportagem.
Em Itaguaí (RJ), foram feitas buscas em um soldado da Polícia Militar do Rio e um estudante de medicina. Eram o estudante Rafael Araújo e o PM Pedro Rosemberg Felicíssimo Carneiro Amaral, de 27 anos, lotado no Batalhão de Itaguaí.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio informou ao Metrópoles que a ação foi motivada por “suspeitas de envolvimento com grupos extremistas a partir de dados extraídos das redes sociais”. Foi aberto processo administrativo disciplinar na Corregedoria da corporação.
Uma denúncia que chegou à polícia afirmava que ele e Araújo preparavam-se para fazer um ataque em escolas, informou Felicíssimo à reportagem. Sob reserva, um investigador do caso enfatizou à reportagem considerar o caso grave porque um policial militar, treinado para manejar armas de alto calibre, estaria apto e disposto a fazer ataques terroristas no país.
Mas Pedro Felicíssimo, que é islâmico há três anos, nega qualquer relação com o terrorismo. Em entrevista ao Metrópoles, ele disse que entende que as buscas ocorreram porque ele e Araújo fizeram uma trilha em dezembro passado numa mata no Rio durante um dia inteiro. Ao publicarem fotos do evento em redes sociais, Felicíssimo vestia uma camiseta preta com dizeres em árabe. Mas ele afirmou que eram mensagens sobre a existência de um Deus único, que estariam presentes até na bandeira da Arábia Saudita.
Os policiais apreenderam seu telefone celular e computadores em endereços em Angra dos Reis e Itaguaí. O soldado disse que sofre intolerância religiosa. “Eu sou muçulmano, não sou terrorista”, disse Felicíssimo à reportagem. “Eu condeno o Estado Islâmico.” O policial acredita que ele e Rafael são vítimas de uma denúncia anônima falsa.
Tunisiano com 531 grafias de nomes chegou da “nova sede” do EI
Em 23 de abril, o tunisiano Mohamed Montasssar Mannai, de 39 anos, usou o nome falso de Anis Ktari com CPF e tudo para chegar ao Brasil. Ele foi preso em São Paulo, poucos depois de chegar do Mali, um dos polos do Estado Islâmico. Primeiro, foi ao Paraguai e, de lá, atravessou a fronteira. Foi recebido por um casal em São Paulo, um egípcio e uma marroquina. Todos foram presos na Operação Sleeping cell, “célula adormecida”. O casal foi liberado, mas Mannai segue preso pelo crime de “promover, constituir, integrar ou prestar auxílio, pessoalmente ou por interposta pessoa, a organização terrorista”.
“O investigado é integrante de organização terrorista (…) sob a forma de célula adormecida, prática comum das organizações terroristas internacionais”, afirmou a juíza Angélica Carrard Benites, da 5ª Vara Federal de Novo Hamburgo (RS), ao ordenar sua prisão. Segundo ela, Mannai possui “alta periculosidade” e participou do sequestro de um adolescente na Turquia, crime que objetivaria financiar ataques terroristas. Com ordem de prisão emitida pela Interpol, o homem teria entrado no Brasil com documentos falsos para evitar a extradição, diz a juíza, em decisão obtida pelo Metrópoles.
O governo da Tunísia enviou coleta de impressões digitais de Mannai para verificar sua identidade com precisão. Isso porque ele possui múltiplas identidades e 531 grafias diferentes para seu nome. A reportagem não localizou a defesa de Mannai.
Fonte: Metrópoles/Foto: Arte sobre foto obtida/Gabriel Lucas/Arte Metrópoles/99.jun.2026




